Che por Aleida Guevara | EXCLUSIVO

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A Caros Amigos publica nesta segunda-feira, 9 de outubro, data em que se completa 50 anos da morte do guerrilheiro Che Guevara, artigo exclusivo escrito por uma de suas filhas, Aleida Guevara March, produzido com exclusividade para o especial Cinco décadas sem Che, que está nas bancas e loja virtual. Confira íntegra do especial aqui.

Necessidade de viver

Por Aleida Guevara March
Tradução por João Batista Cesar
Especial para Caros Amigos 

Para falar sobre Che Guevara se necessita tempo e espaço, mas para demonstrar sua presença no momento que vivemos, só precisamos olhar ao redor. Se nos perguntarmos, “por que lutava ele?” De imediato nos vêm a resposta: por um mundo melhor. Mas o que implica isso? Moradia digna para todos, educação gratuita e de qualidade, igualdade de condições para todos, saúde garantida, pois seria acessível para toda população e teríamos paz, de forma que poderíamos dedicar os recursos disponíveis para pesquisas em benefício de uma vida mais plena e digna. Mas o que temos de tudo isso?

Para Che Guevara a juventude é a argila da qual se pode modelar o homem novo. No entanto, o que fazemos com esses jovens? Que modelo de vida lhes propomos? Que exemplo lhe oferecemos? Em quem ou em que eles podem se inspirar para aperfeiçoar sua conduta? São muitas as perguntas e praticamente não há respostas ou pelo menos não as que os jovens necessitam.

Che dizia: “Até quando prosseguirá esta ordem de coisas, baseada em um absurdo sistema de ‘casta’? É algo que não me cabe responder. Mas é hora dos governantes dedicarem menos tempo à propaganda de suas benesses enquanto regime e mais dinheiro, muitíssimo mais dinheiro, para bancar obras de utilidade social. O que vocês acham? Poderíamos questionar isso desses governantes — que mal governam nossas comunidades — somente para começar.

“… mas quem for em frente, que mostre o caminho com seu exemplo. Seguir ou se fazer seguir é uma tarefa que, às vezes, pode se tornar difícil, mas que é muito mais fácil do que empurrar os outros para que caminhem…”

 

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Mas onde queremos ir? Que necessitamos? Se não lutamos pelo que precisamos, quem fará isso por nós? É inquestionável que temos força e coragem, mas nos falta união. É necessário organizar essa força para conquistar o que nos falta e modificar as coisas. Está comprovado que elas não funcionam, pelo menos para a grande maioria do povo. “(…) ser essencialmente humano, ser tão humano que nos aproxime do melhor do que o ser humano possa ser, purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo…”

 “(…) desenvolver a sensibilidade ao máximo. Sentir-se angustiado quando se assassina um homem em qualquer parte do mundo ou sentir-se entusiasmado quando em algum rincão do planeta se levanta uma nova bandeira de liberdade.”

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É isto o que queremos para nossos jovens. É muito importante que levantemos nossas vozes para defender a vida de um jovem como a de Maldonado, desaparecido faz pouco tempo na Argentina por estar ao lado do povo Mapuche e defender seus direitos. Que mensagem nos querem transmitir com a desaparição forçada deste jovem? Medo é o que querem nos fazer sentir, para nos paralisar, para nos calar.

Recordo da primeira vez que estive no Brasil. Imaginem uma mulher, jovem, que chega a São Paulo e não lhe permitem baixar o vidro do carro onde se locomove, que sente o medo de seu acompanhante quando tem que parar o veículo em uma esquina, por temor aos assaltos, que vê os olhos de um menino drogado pedindo algo para comer. Minha reação foi imediata e recordo o que disse nesse momento: é preferível morrer tentando mudar esta realidade, do que morrer de fome; mas depois pensei que eu venho de outra cultura, de outro povo, em que a vida de um ser humano — e, sobretudo de um menino — é sagrada, é a coisa mais importante.

Pensei que reagia assim porque sou cubana, educada pela Revolução Socialista que temos; mas estava equivocada. Mais tarde conheci a história de dona Rosa, no Rio Grande do Sul, companheira ligada ao MST e esta mulher, simples, do povo, não somente disse o que eu havia pensado, mas que o marido morreu defendendo um pedaço de terra para alimentar os filhos. Dona Rosa me demonstrou que se podemos e temos que lutar por esse mundo melhor, não importa de onde somos, nem que cultura portamos, o que importa e prevalece é a necessidade de viver.

"Deixa-me dizer-lhe, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem esta qualidade"

“Deixa-me dizer-lhe, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem esta qualidade.”

Qualidade imprescindível para poder oferecer o melhor de nós a uma justa causa, com risco de vida. Acredito realmente nisso e vi o altruísmo de muitos homens e mulheres, para sorte de todos, em muitos lugares deste mundo.

“E, a nós, explorados do mundo, qual é o papel que nos corresponde? Os povos de três continentes observaram e aprenderam sua lição no Vietnã. É com a ameaça de guerra que os imperialistas exercem sua chantagem sobre a humanidade. Não temer a guerra é uma resposta justa.”

“Sob o slogan, ‘não permitiremos outra Cuba’, se encobre a possibilidade de agressões no continente, como a perpetrada contra a República Dominicana ou, anteriormente, o massacre no Panamá. É uma clara advertência de que as tropas ianques estão dispostas a intervir em qualquer lugar da América Latina onde a ordem estabelecida seja alterada, pondo em perigo seus interesses.”

“Essa política conta com uma impunidade quase absoluta; a OEA (Organização dos Estados Americanos) é uma máscara cômoda, por mais desprestigiada que esteja; a ONU é de uma ineficiência limite no ridículo ou no trágico; os exércitos de todos os países da América Latina estão prontos para intervir para esmagar a seus povos. Se formou, de fato, a internacional do crime e da traição.”

Para nossa sorte já não é assim em todos os povos, mas desgraçadamente em muitos lugares o exército segue sendo um meio de esmagar a reivindicação justa de nossa gente. Alguém pode perguntar, de que ventre saem esses homens que atacam seu próprio povo? Temos visto as imagens desses homens uniformizados reprimindo manifestações populares, sem demonstrar a menor vacilação ao arremeter contra jovens, mulheres e até crianças. E o que dizem as cartas magnas (constituições) desses países sobre o tema? Porque me consta que em muitas delas aparece escrito que os exércitos estão lá para defender o povo, quando o que acontece é exatamente o contrário. Então quem viola as leis?

Há muita coisa que, ao se ler Che, se converte em imagens cotidianas. Há cinquenta anos de seu assassinato, a validade de seu pensamento é forte e deveríamos nos socorrer dele com mais frequência.

Há muito por fazer, o caminho é longo e difícil, mas podemos e temos que mudar muitas coisas para dar a dignidade plena que os seres humanos necessitam para poder viver. Tenho sempre presente algo que uma mãe argentina escreveu sobre a lápide de sua filha quando encontrou seus restos: “Se eu morrer, não chores por mim, faça o que eu fazia e seguirei vivendo em ti”. É isso exatamente o que devemos aos homens e mulheres que nos deram força por meio de seu exemplo e nos impulsionam para a ação. Avante companheiros, vivamos de forma tal que ao terminar nossos dias, não sintamos dor pelos anos passados em vão, sintamos a satisfação de deixar algo bonito para as próximas gerações.

¡Hasta la Victoria Siempre!


 

 Aleida Guevara March, filha mais velha do segundo casamento de Che, é pediatra e ativista

 

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