Muhammad bin Salman, o "Senhor Tudo" que revoluciona a Arábia Saudita

Internacional
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Muhammad bin Salman, o "Senhor Tudo" que revoluciona a Arábia Saudita

Por José Antonio Lima
Da Carta Capital

Firme aliada das potências ocidentais, a Arábia Saudita há décadas toca seus negócios por trás de uma espessa camada de mistério. Fechada em suas próprias dinâmicas, poucas das quais são conhecidas no exterior, a monarquia saudita criou uma das 20 maiores economias do mundo e desenvolveu um papel estratégico na geopolítica mundial. A proximidade, ideológica e prática, com grupos extremistas não tirou a influência do reino. Ao contrário, por conta de seu papel contraditório na dita "guerra ao terror", a Arábia Saudita é ouvida com atenção quando se discute o tema. Neste ano, as atividades da família real estão, no entanto, um pouco mais abertas ao mundo externo. Graças a Muhammed bin Salman, príncipe-herdeiro que, seja lá como se avalie suas ações, tenta colocar uma revolução em marcha.

A Arábia Saudita é governada desde 2015 pelo rei Salman. Ele é o sexto filho do fundador do reino, Abdulaziz ibn Saud, a suceder o monarca. Desde sua ascensão, espera-se que o país passe por um período conturbado, uma vez que Salman é o último de seus irmãos a ocupar o trono. Quando sair de cena, dará lugar aos netos de Abdulaziz. Era evidente que essa mudança geracional traria alguma instabilidade para o reino, mas poucos imaginavam sua monta. Filho de Salman, Muhammed bin Salman, ou MBS, como é conhecido o príncipe-herdeiro, está deixando tradições de lado e provocando dúvidas a respeito dos rumos do país.

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Ao contrário das monarquias ocidentais, a saudita não tem uma linha de sucessão definida. Ao longo das últimas décadas, os cinco irmãos mais velhos de Salman governaram por consenso. Ramos diferentes da família criaram e assumiram estruturas de poder isoladas e independentes que se contrapunham uma à outra. A ideia era dificultar o surgimento de líderes militares fortes, como é costumeiro no Oriente Médio, e garantir a predominância da monarquia, bem como o equilíbrio entre seus representantes.

Desde 2015, as coisas mudaram. Ao assumir o trono, Salman tirou seu meio-irmão Muqrin bin Abdulaziz da linha de sucessão e nomeou Muhammed bin Nayef, um sobrinho, como príncipe-herdeiro. Foi um passo elogiado no Ocidente. MBN, como é conhecido, era uma das figuras mais influentes da terceira geração da monarquia. Ainda jovem, fez cursos com o FBI, a polícia federal norte-americana e a britânica Scotland Yard. Ergueu sua carreira no Ministério do Interior, onde foi o responsável pela criação do elogiado programa saudita de contra-insurgência. Em 2009, ganhou fama ao sobreviver a uma bizarra tentativa de assassinato. Com um explosivo alojado no ânus, um militante foi ao príncipe dizer que estava arrependido do jihadismo. MBN se salvou porque o corpo do terrorista abafou parcialmente a explosão. Como primeiro na linha sucessória, ele parecia preparado para ser o futuro rei e garantir uma transição sem percalços.

Parecia, porque logo atrás de MBN na sucessão estava seu primo mais novo e filho do rei, Mohammed bin Salman, o MBS. Pouco conhecido dentro da Arábia Saudita e menos ainda fora dela, MBS tinha a reputação de ser uma figura implacável. Não demorou para ele provar que a fama estava certa. Além de vice-príncipe-herdeiro, MBS recebeu dois outros postos-chave de seu pai: ministro da Defesa e presidente do Conselho de Assuntos Econômicos e de Desenvolvimento da Arábia Saudita, um gabinete superpoderoso responsável por supervisionar toda a economia local.

Meses depois de assumir o controle das Forças Armadas, MBS resolveu colocá-las para agir. Em março de 2015, a Arábia Saudita invadiu o vizinho Iêmen para tentar recolocar o presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi no poder. Ele havia sido removido por uma coalizão liderada pelo antigo ditador, Ali Abdullah Saleh, e os Houthis, uma milícia xiita com ligações com o Irã, principal inimigo da Arábia Saudita. Em seis meses, a destruição no Iêmen se parecia com a da Síria. Dois anos depois, a intervenção provocou um impasse militar e uma catástrofe humanitária. Nenhum dos lados é capaz de obter uma vitória decisiva e o país sofre com uma epidemia de cólera e fome generalizada. O fato de o Ocidente apoiar a ofensiva com armas e material logístico (assim como o Brasil) permite à Arábia Saudita cometer abusos sem ser incomodada na esfera internacional.

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Família desabrigada em Hodeidah, cidade litorânea no Iêmen (Foto: Abdo Hyder / AFP)

A entrada no atoleiro do Iêmen não tirou o prestígio de Muhammed bin Salman. Ao contrário. Em 2016, como chefe do conselho econômico, ele lançou o plano Visão 2030, que busca diminuir a dependência saudita do petróleo e diversificar a economia. Em maio daquele ano, MBS anunciou uma medida que provocou apreensão no mercado. Ele removeu do posto de ministro do Petróleo e Recursos Naturais o homem que ocupava o cargo há duas décadas, Ali al-Naimi. Em seu lugar, colocou Khalid al-Falih, jovem como MBS e presidente da Aramco, gigante do petróleo saudita que deve ser parcialmente privatizada.

O caráter implacável para realizar mudanças ficou evidente neste ano. Em 21 de junho, MBS assumiu o posto de príncipe-herdeiro, removendo MBN. De acordo com reportagens da imprensa internacional, o primo mais velho foi forçado a abdicar e colocado em prisão domiciliar. O mesmo estilo inclemente foi observado recentemente. Em setembro, cerca de 70 pessoas, incluindo religiosos populares, foram presos. No início de novembro, alguns dos principais empresários e investidores da Arábia Saudita e ao menos 11 integrantes da família real foram detidos sob acusação de corrupção. Outros tiveram contas e patrimônio apreendidos.

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O rei Salman (à esq.) no aeroporto de Riyadh em 11 de novembro (Fotos: Bandar al-Jaloud / Saudi Royal Palace / AFP)

Nos dois casos, as ondas de prisão tinham justificativas nobres. No primeiro, os alvos da ação policial seriam radicais religiosos que teriam desvirtuado o "islã moderado" supostamente pregado pela Arábia Saudita. No segundo, corruptos que vinham roubando o reino e prejudicando sua economia. As duas argumentações são verdadeiras, mas parcialmente. Na operação policial de setembro foram presos, além de religiosos, poetas, professores e ativistas de direitos humanos. Muitos deles não são ou deixaram de ser defensores de ideias extremistas. A ação de novembro, por sua vez, trouxe à tona a questão da corrupção, um problema genuíno da Arábia Saudita, mas chamou a atenção por ter sido realizada por um órgão anticorrupção do qual ninguém havia ouvido falar anteriormente.

Fatos como esses indicam que a repressão, ainda que tenha uma base em problemas reais, tem como objetivo consolidar o poder de Muhammed Bin Salman, possivelmente antecipando sua ascensão ao trono no lugar do pai. O expurgo foi, assim, comparado à Noite das Facas Longas, como ficou conhecida a série de execuções de adversários de Adolf Hitler no Partido Nazista em 1934, logo após ele se tornar chanceler da Alemanha. Visto em perspectiva, o resultado dos expurgos demonstra que o rei Salman e Muhammed Bin Salman estão não apenas consolidando seu poder no reino, como concentrado-o, o que é uma novidade sem precedentes nos últimos 60 anos no país.

A Arábia Saudita tem três contingentes de segurança separados. O mais conhecido são as Forças Armadas, atreladas ao Ministério da Defesa, controlado desde 2015 por MBS. No início do reinado de Salman, as outras duas forças respondiam a ramos diferentes da família real. Agora, todas são diretamente influenciadas pelo rei e seu filho. A mais importante delas é Guarda Nacional, uma espécie de guarda pretoriana que tem a missão de defender a família real de golpes e das Forças Armadas regulares, caso isso seja necessário. Até 4 de novembro, a Guarda Nacional era comandada por Miteb bin Abdullah, primo de MBS e filho do antecessor de Salman. Apontado como postulante ao trono na eventual transição geracional, Miteb foi um dos príncipes presos no expurgo anticorrupção de novembro. Menos relevante em termos militares, mas estratégicas para a segurança interna do reino são as forças de segurança subordinadas ao Ministério do Interior. Em junho, quando saiu do posto de príncipe-herdeiro, MBN deixou também a pasta. Assumiu o cargo um de seus sobrinhos, Abdulaziz bin Saud bin Nayef. Jovem como Muhammed Bin Salman, foi seu conselheiro no Ministério da Defesa e é da quarta geração da família, mais distante da sucessão.

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Abdulaziz bin Saud bin Nayef: o ministro do interior foi conselheiro de MBS

Dois anos depois de ascender junto com seu pai, MBS controla a direção da economia do país, a política externa e ao menos influencia os três serviços de segurança – não à toa, ganhou o apelido de "Senhor Tudo". Ao mesmo tempo, promete uma liberalização nos costumes e uma reforma religiosa. As mudanças tem ocorrido em um ritmo vertiginoso para um país que se acostumou a andar vagarosamente. Muhammed Bin Salman só poderia iniciar essa revolução derrubando o imbricado sistema de consenso interno da monarquia, mas a centralização pode trazer instabilidade, uma vez que o modelo antigo de funcionamento do país foi o que garantiu estabilidade a ele.

Ainda que críticos denunciem o que avaliam ser a construção de uma ditadura ou um emaranhado de promessas inexequíveis, relatos de dentro da Arábia Saudita indicam que boa parte da população está satisfeita e otimista com as mudanças. Entregar o prometido, no entanto, é essencial. Como escreveu recentemente a professora saudita Madawi al-Rasheed, os resultados serão determinantes para MBS criar uma narrativa de legitimidade que faça a população aceitar um governo absolutista.

Dois outros textos do especial sobre a Arábia Saudita serão publicados no sábado 18 e no domingo 19

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