"O povo venezuelano demonstrou um alto grau de consciência política"

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"O povo venezuelano demonstrou um alto grau de consciência política"

Por Júlia Dolce
Do Brasil de Fato

Mesmo diante de conflitos violentos, cerca de 8 milhões de votantes venezuelanos participaram da eleição de deputados e deputadas constituintes no último domingo (30). O dia foi considerado um dos mais importantes da crise institucional e econômica vivida pelo país latino-americano há pelo menos cinco anos.

A Assembleia Nacional Constituinte, solução do presidente Nicolás Maduro para alcançar a paz e o diálogo entre grupos divergentes, teve recepção polêmica e vem sendo amplamente criticada pela grande mídia internacional. No entanto, para uma grande parcela da população venezuelana e dos setores progressistas da América Latina, a revisão da Constituição é uma forma democrática de pensar as bases políticas, econômicas e sociais do país, caminhando para o fim dos confrontos.

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Em um contexto em que a pressão estrangeira contra a eleição convocou boicotes, greves e financiou atos terroristas que já deixaram centenas de mortos na Venezuela, o cientista político Igor Fuser, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), opina que a votação deste domingo demonstrou a capacidade das forças progressistas no país.

"A eleição aconteceu diante de condições muito difíceis e mesmo assim o povo venezuelano demonstrou um alto grau de consciência política, comparecendo em massa às urnas", opinou.

Para Fuser, os ataques da direita venezuelana e da grande mídia ao processo da Constituinte pode ser comparado ao golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff no Brasil.

"É como se tivéssemos, na América Latina inteira, dois partidos políticos que ultrapassam fronteiras. Uma direita privilegiada, ligada aos EUA, e uma esquerda que busca a mudança social. Então a imprensa brasileira se comporta em relação à Venezuela da mesma forma que se comporta no Brasil: a favor do golpismo e da manutenção de estruturas sociais injustas", ponderou.

Confira a entrevista na íntegra:

Qual a sua opinião sobre o significado da Constituinte para a Venezuela?

A eleição da Assembleia Constituinte representa uma chance de solucionar a grave crise política e econômica que o país está vivendo. A Venezuela vive uma situação de conflito, onde as situações vigentes não estão dando conta do desafio de enfrentar a escassez e as divergências entre diferentes setores da sociedade.
 
Então, nesse sentido, o governo tomou uma iniciativa que é a mais democrática que se possa imaginar, que é convocar o povo para eleger representantes para rever as instituições e leis existentes no país, e procurar encontrar uma nova constituição, que permita enfrentar a crise, o problema da escassez e resolver a crise institucional. O próprio povo vai dizer que caminho o país vai seguir. Alternativa à isso, se deixasse as coisas como estão, seria um agravamento maior dos conflitos e dos problemas, podendo chegar até mesmo a uma Guerra Civil.
 
Você pode fazer um balanço do que a gente viu durante a votação?

A eleição realizada ontem na Venezuela se deu em condições muito difíceis. Os setores mais conservadores da sociedade, setores das elites econômicas do país, dos mais ricos que sempre se opuseram às transformações ocorridas na Venezuela e querem manter seus privilégios, estão em ofensiva para tentar derrubar o governo. É algo parecido com o que vivemos no Brasil. Aqui houve um golpe e lá há uma tentativa de golpe, com a diferença de que lá eles têm se mostrado muito mais agressivos e violentos, com uma campanha terrorista de atentados e destruição de prédios públicos, assassinatos, muitas pessoas já foram assassinadas nos últimos meses.

Ontem fizeram de tudo para tentar intimidar os eleitores para que não fossem até as urnas exercer seu direito de voto. Então a eleição aconteceu diante de condições muito difíceis e, mesmo assim, o povo venezuelano demonstrou um alto grau de consciência política, comparecendo em massa às urnas. Foram 8 milhões de votantes, considerando que lá o voto é facultativo, votaram mais de 40% do total de eleitores possíveis, em um país onde pelo menos 20% das pessoas simplesmente não exercem o direito do voto.
 
Cabe lembrar que a eleição do presidente Nicolás Maduro se deu por 7 milhões e meio de votos. A eleição de ontem teve mais votos do que sua eleição, então foi representativa da maioria do povo venezuelano, o que dá muita força a essa nova constituinte, confere a ela legitimidade para estabelecer novas leis e tomar decisões necessárias para reconduzir o país em um bom caminho, saindo da crise.
 
Você pode comentar um pouco a distorção da responsabilidade dos assassinatos e atos terroristas?

Para a gente entender o que está acontecendo na Venezuela, precisamos buscar fontes alternativas de informação, porque a mídia comercial, os jornais brasileiros, as emissoras de televisão e também a mídia internacional, estão todos engajados em uma campanha golpista na Venezuela. Há uma situação de manipulação dos fatos que é realmente grotesca, é algo criminoso que está acontecendo. Então a Venezuela vive há mais de três meses uma situação em que ocorrem diariamente atentados terroristas: ônibus são incendiados, edifícios públicos são atacados, pessoas são assassinadas.
 
Ontem durante a eleição houve a explosão de uma bomba contra policiais, deixando vários feridos. Em qualquer lugar do mundo essas ações seriam chamadas de terrorismo, no entanto a mídia esconde essas atrocidades e esconde que por trás dela se encontra a oposição política, que é tratada como democrática, mas há muito tempo abandonou as práticas da democracia e partiu para tentar a conquista do poder por meio da violência. Então o que está ocorrendo na Venezuela é uma tentativa de golpe por meios cada vez mais violentos e que incluem o assassinato.
 
Ontem morreram sete, oito pessoas na Venezuela, todas elas em ações dessas milícias da direita, financiadas pelos EUA. Eles recebem treinamento militar, armas, equipamentos de vários tipos, dinheiro. São centenas, milhares de pessoas pagas para sabotar a vida cotidiana na Venezuela e criar uma situação de caos, para tentar derrubar o governo, eventualmente até mesmo com a intervenção de tropas estrangeiros.
 
Principalmente nesta segunda-feira a grande mídia brasileira tem publicado vários artigos contrários à constituinte. De que maneira eles se beneficiam dessa opinião?

É preciso ter claro que o que está acontecendo na Venezuela não é diferente do que está acontecendo no Brasil, na Argentina, na América Latina inteira. Em todos esses países você tem uma divisão do campo político em dois lados. Existe o lado das elites dominantes, daquela minoria, 10%, um pouco mais ou menos, que são aquelas pessoas privilegiadas, que desfrutam da maior parte da riqueza gerada no país pelo trabalho do conjunto da população e pelas riquezas naturais. Esses setores tratam de garantir os seus privilégios, garantir sua posição favorecida, em prejuízo da ampla massa da população, que vive uma situação difícil e que se organiza politicamente para tentar modificar esse cenário.
 
Nós tivemos na América Latina nos últimos 15 anos, no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Uruguai, governos de esquerda, comprometidos com essa maioria. E os privilegiados não querem abrir mão de absolutamente nada e estão dispostos a levar esses países para a crise, para os conflitos, não hesitam em pisotear as leis, a constituição, dar golpes de estado, depor presidentes. Então é como se tivéssemos, na América Latina inteira, dois partidos políticos que ultrapassam fronteiras. Uma direita privilegiada, ligada aos EUA, e uma esquerda que busca a mudança social, busca justiça, a redistribuição da riqueza e uma sociedade mais igualitária em cada país, diminuindo as desigualdades sociais, enfrentando a miséria e a falta de condições adequadas de saúde, moradia, saneamento básico. Então a imprensa brasileira se comporta em relação à Venezuela da mesma forma que se comporta no Brasil, a favor do golpismo e da manutenção de estruturas sociais injustas.

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