Convulsões capitalistas - Entrevista exclusiva com Moniz Bandeira

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Historiador analisa crises, guerras e golpes na "desordem mundial" promovida pelo velho imperialismo, mas com novos métodos e roupagens

Por Aray Nabuco e Nina Fideles

O historiador e cientista político Moniz Bandeira amalgama em suas análises os cenários atuais sob as asas do velho imperialismo, porém com novos modus operandi. Crise econômica, guerras, crise humanitária, terrorismo, primaveras, golpes. A esse contexto, que emerge no noticiário todos os dias, erguendo no horizonte a sombra da barbárie no avanço da direita, Moniz Bandeira batiza de “desordem mundial”, produto de ações de uma política imperialista bombada nos métodos e nas tecnologias. No seu mais recente livro, A Desordem Mundial, que se soma à sua profícua bibliografia onde está obras como A Presença dos Estados Unidos no Brasil ou a A Segunda Guerra Fria, Moniz Bandeira explica como chegamos a isso, empurrados pelo neoliberalismo e suas pautas ultraconservadoras, pelo capitalismo financeiro, pelo domínio das corporações.

“Você pode imaginar um mundo onde os Estados Unidos querem impor a sua dominação, o full espectrum dominance e o resultado são guerras por procuração, caos, terror, catástrofes humanitárias que afetam não apenas os países onde os conflitos se travam, cada vez maiores e em maior quantidade, mas também os países outros que não têm nada com essa intervenção”, explica ele nesta entrevista, feita desde sua casa na Alemanha, onde vive há vinte anos.

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Nessa dominação se encaixam ainda os golpes de estado, sob nova modalidade, como no Brasil, Honduras ou Paraguai, tudo com o concurso sempre prestimoso da mídia conservadora e Judiciário. Dono de uma longa pesquisa sobre o xadrez político nacional ou mundial, expressa nos vários títulos de sua autoria – A Presença dos Estados Unidos no Brasil é campeão de vendas e referência ainda hoje –, Moniz Bandeira acompanha os lances atuais e aponta o rumo da barbárie. Do outro lado, diz ele, que poderia ser um contrapeso, há uma esquerda nanica ou desfigurada. Confira abaixo a entrevista.

Aray Nabuco – Gostaria que o senhor descrevesse o que chama de desordem mundial. Quais elementos (políticos, econômicos, militares, enfim) que o senhor enxerga dessa desordem?

Moniz Bandeira – O desenvolvimento da tecnologia favoreceu a concentração de riqueza e de poder e as disparidades sociais aumentaram ainda mais nos países da periferia do sistema capitalista, alimentando o fundamentalismo religioso, em meio à instabilidade política, que se produziu no sistema internacional após o colapso da União Soviética e do Bloco Socialista. E os Estados Unidos não conseguiram estabelecer a “new world order” que o presidente George H. W. Bush prometeu em setembro de 1991, um mês após o presidente Boris Yeltsin dissolver a União Soviética. Que ocorre no mundo? Guerras na África, Oriente Médio, Ucrânia, turbulência na Ásia, na América Latina, o Brexit, a inquietação social na União Europeia e os Estados Unidos estão financeiramente exauridos, em franco declínio. A América Latina também não escapa. A Venezuela precipitou-se no caos. O Brasil está no limiar. A desordem política aprofunda a recessão econômica e avança no sentido da desestabilização. A superestrutura jurídica está a ruir. Ninguém mais respeita a Constituição, nem juízes, nem procuradores da República nem sequer magistrados da Corte Suprema. O atual e suposto presidente da República, ao que tudo indica, será jogado no lixo da história e conhecido como Michel Temer, o breve.

Nina Fideles – Esse cenário de desordem mundial que o senhor descreve é o que também chamam de “corporocracia”, o governo das corporações?

O domínio das corporações, anulando mais a soberania nacional, está no fundo dos tratados de livre comércio, que constavam da agenda dos Estados Unidos. O Trans-Pacific Partnership (TPP) e outro similar proposto à União Europeia tiram dos tribunais do país a capacidade para decidir sobre qualquer dissídio entre uma corporação e o governo. O Estado nacional perde a jurisdição sobre as corporações. Qualquer disputa seria adjudicada a um tribunal internacional de arbitragem, composto por três membros associados do tratado. Esses tratados contém os preceitos do Investor-State Dispute Settlement (ISDS) que ferem não apenas a soberania dos demais países signatários, mas também dos Estados Unidos, razão pela qual o TPP ainda não foi aprovado pelo Congresso e Donald Trump a ele se opôs durante a campanha para presidente. Quem o defendia era Hilary Clinton, do Partido Democrata

Nina Fideles – Poderíamos comparar a “desordem” atual (conflitos na periferia do capitalismo por interesses econômicos, resumidamente) a uma nova era de “colonização” (ou re-colonização ou renovação do velho colonialismo, a dominação política e do território)?

Ao dizimar gradualmente as economias naturais e pré-capitalistas, o capitalismo vinculou todos os povos em um sistema de vasos comunicantes e tornou as sociedades interdependentes, apesar e/ou em consequência da diversidade de seus níveis de progresso e civilização. As condições históricas são outras, não mais as mesmas do século 19. O capitalismo, como o único modo de produção capaz de envolver todo o planeta, assumiu, na sua evolução, formas diferentes. Os Estados Unidos são um império, mas não como o de Roma ou da Grã-Bretanha e França. Dominam, diretamente, Hawaí, Porto Rico, Guam, Samoa, e as Ilhas Mariana do Norte. E, das 4.999 bases militares que possuem, segundo o inventário do Pentágono, 4.249 estão no seu próprio território, 88 além-mar e 662 em 36 países e territórios estrangeiros, em todas as regiões do mundo. A dominação e exploração se processam de modo diferente, embora similares em alguns aspectos. Para quê? Essas bases militares marcam o espaço do império, com tropas de ocupação, revestidas por tratados militares assimétricos, como no caso da Otan. Os Estados Unidos têm bases militares e aéreas na Alemanha e em vários outros países da União Europeia. Porém qual o país da União Europeia que tem bases militares e aéreas nos Estados Unidos?

Aray Nabuco – A Otan é um dos braços dessa desordem mundial…

Um dos braços não, a Otan é um instrumento de dominação dos Estados Unidos. Aliás, digo isso desde o começo. Desde o primeiro secretário-geral, o general Hastings Lionel Ismay, primeiro Lord Ismay (1887–1965), então secretário-geral da Otan (1952– 1957) declarou explicitamente que a criação dessa aliança encapava o múltiplo propósito de “to keep the americans in, the russians out and the germans down”, isto é, conservar a supremacia dos Estados Unidos, conter a União Soviética e submeter a Alemanha. E é o que os Estados Unidos fazem até hoje.

Aray Nabuco – E acha que eles conseguiram esse objetivo (de manter os russos fora e a Alemanha sob controle)?

Os Estados Unidos temem que a Alemanha, o coração da Europa, se volte para a Rússia. A Rússia é um país eurasiático e essa aliança implicaria um desequilíbrio geoestratégico, ainda mais porque certamente se estenderia à China. Aray Nabuco – Mas é possível haver tal aliança? É uma tendência que sempre existiu desde Bismarck (Otto Von Bismarck, 1815-1898), que defendeu essa aliança. O empresariado alemão tem na Rússia um importante mercado. E quem está mais perdendo com as sanções impostas à Rússia é a Alemanha. Agora, na Alemanha há, assim como no Brasil e em outros países, uma parte da elite, representada sobretudo pela Kanzlerin, que mais se aproxima de Washington, dado haver nascido e crescido na Alemanha Oriental, sob o regime stalinista implantado pela União Soviética, após Segunda Guerra Mundial.

Nina Fideles – O senhor cita o terror, a guerra ao terror, e essa guerra psicológica da mídia, quer dizer, colocar medo nas pessoas se tornou um instrumento da dominação atual?

Sim, disseminar o medo é uma das formas de dominação.

Nina Fideles – Mas tornou-se política de Estado? Quero dizer, os EUA financiaram o terror da Al-Qaeda, por exemplo, e continuam repetindo isso na Síria com o Estado Islâmico.

Da mesma forma que a Alemanha nazista durante os anos 1930, os Estados Unidos encontraram no militarismo, sobretudo com a Segunda Guerra Mundial, um meio de permitir ao Estado sustentar a prosperidade das empresas privadas e reduzir o número de desempregados, consignando-lhes a encomenda de armamentos e outros grandes projetos militares. Daí que, após o esbarrondamento da União Soviética, o Pentágono, à frente do complexo industrial-militar, tratou de elaborar e dimensionar novas ameaças, entre as quais o terrorismo, e pretextos para intervenções militares, dilatação da Otan, dado que não mais havia outro Estado com capacidade de desafiar os Estados Unidos e pôr em risco o sistema econômico capitalista. O terrorismo, porém, sempre ocorrera ao longo da história de modo geral, um ato político, de natureza instrumental, um método de guerra e/ou um crime político, ora praticado tanto por organizações revolucionárias ou contrarrevolucionárias, pelos radicais de esquerda ou de direita, ou fundamentalistas religiosos e grupos étnicos, quanto pelos serviços de inteligência de quase todos os Estados, nem sempre com objetivo militar, em tempo de guerra. A CIA executou exaustivamente atentados terroristas contra Cuba, também covert actions no Brasil, a fim de propiciar o clima para o golpe militar de 1964, bem como no Chile contra o governo de Salvador Allende. O terrorismo islâmico foi em larga medida fomentado pela CIA e os serviços de inteligência do Paquistão e da Arábia Saudita, desde o final dos anos 1970, não somente no Afeganistão, como também com o objetivo de desintegrar a União Soviética a partir das repúblicas da periferia asiática, onde o Islã predominava. E, atualmente, as ONGs executam, no mais das vezes, o trabalho que antes a CIA diretamente realizava.

Aray Nabuco – Retomando a “corporocracia”, e como o senhor já citou, nesse momento a Europa vive um dilema sobre os tratados transatlânticos e de serviços, que podem acabar com o estado de bem-estar social. Esse ataque é parte dessa desordem mundial?

Há um ataque ao Estado de bem-estar social, que começou desde o colapso da União Soviética. Esse ataque reflete a crise sistêmica do sistema capitalista, que se manifestou e se agravou no epicentro de sua expansão, Wall Street, com a explosão do mercado imobiliário, no primeiro semestre de 2007, quando grandes corretoras, como Merrill Lynch e Lehman Brothers, suspenderam a venda de colaterais, e em julho do mesmo ano, bancos europeus registraram prejuízos com contratos baseados em hipotecas sub-prime. A erupção da crise econômica e financeira, que abalou e ainda ameaça a Grécia, Portugal, Espanha e toda a Eurozona – dezesseis dos 27 estados-membros da União Europeia e outros nove não-membros da UE que adotam o euro –, constituiu um desdobramento, a terceira etapa da crise econômica e financeira deflagrada nos Estados Unidos, cujo déficit fiscal era de US$ 5,7 trilhões e a dívida pública atingia cerca de US$ 20 trilhões, a ultrapassar em mais de 104% o seu Produto Interno Bruto, em meados de dezembro de 2016. Os custos a longo prazo dos Estados Unidos, cujo problema fiscal é extremamente grave, tornaram-se progressivamente explosivos, a evoluir como espiral, em que o crescente pagamento dos juros tende a aumentar o déficit fiscal e a dívida pública, gerando novo aumento e assim por diante. E a elite financeira dominante intenta lançar o peso da crise, compensar a taxa média de lucros, em queda, sobre os ombros da classe trabalhadora, dos assalariados. Esse problema, inter alia, constitui um dos fatores da desordem mundial, dentro de um contexto em que os Estados Unidos trataram de impor a full spectrum dominance (dominação de espectro total), mas não têm meios de escalar as guerras e estão a defrontar-se com a Rússia e a China.

Aray Nabuco – O senhor acredita, diante dessa ascensão da direita e do fascismo, que caminhamos para uma nova conflagração entre potências, uma nova “guerra mundial”?

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Não creio em uma conflagração direta entre as potências. Não me parece provável que as contradições internacionais cheguem a tal ponto. O desenvolvimento tecnológico, com as armas nucleares, afastou, virtualmente, a possibilidade de um confronto direto entre as grandes potências. O cartel ultraimperialista, formado pelos Estados Unidos e a União Europeia, não ousaria investir diretamente contra a Rússia ou a China. A guerra não seria um jogo de soma zero. Todos seriam destruídos.

Nina Fideles – Dentro dessa desordem mundial, como o senhor vê o papel das forças progressistas de esquerda? Como poderiam reagir ou enfrentar?

Primeiro é necessário definir o que são forças progressistas de esquerda, onde e quando, qual o contexto, a conjuntura etc. Muitas vezes forças que se dizem progressistas e de esquerda, com políticas erráticas, favorecem a ascensão da direita, do fascismo, como ocorreu na Alemanha, no início dos anos 1930, em que o Partido Comunista, por entender que a vitória de Hitler precipitaria a revolução socialista, rechaçou a aliança com a social-democracia, apelidando-a de social-fascismo. E o fato é que não haveria Hitler sem Stalin. Esquerda ou direita depende do ângulo, da equação política, das circunstâncias e condições.

Aray Nabuco – Há quem, como Eric Hobsbawm, diz que a esquerda acabou aí na Europa (e no mundo todo). O senhor acha isso também?

O que Eric Hobsbawm disse, em entrevista à agência de notícias Télam, da Argentina, foi que “já não existe esquerda tal como era”, seja social-democrata ou comunista. Ou está fragmentada ou desapareceu. Onde está a esquerda, como antes? Eric Hobsbawm está certo.

Aray Nabuco – Ainda há os partidos comunistas, socialistas...

Vim pela primeira vez à Alemanha e França, em 1960. E moro aqui na Europa, permanentemente, há vinte anos. Conheço-a, portanto, há mais de cinquenta anos. Vivi em Londres e Paris na segunda metade dos anos 1970 e também estive em diversas cidades de outros países. E vejo a diferença nos tempos. Os sindicatos não são mais os mesmos, perderam a força,  devido a diversos fatores, entre os quais a produção offshore, com a transferência das plantas industriais e, consequentemente, postos de trabalho, para outros países, do Leste Europeu e, sobretudo da Ásia, como a Indonésia, Filipinas, China, onde os custos da mão de obra são muito mais baixos. O poder de negociação dos sindicatos, restrito aos limites de seus respectivos Estados nacionais, não acompanhou o desenvolvimento da organização transnacional capitalista. As grandes corporações, com subsidiárias nos novos países indus trializados, podem contar com amplos recursos para resistir às pressões e anular, virtualmente, os efeitos de qualquer greve. A existência de poderoso exército industrial de reserva igualmente debilitou a força da classe trabalhadora. A produção offshore, em regiões com níveis salariais mais baixos, as diferentes condições sociais, políticas e outros níveis de organização dificultam a coordenação internacional, com o objetivo de paralisar, simultaneamente, todas as unidades de produção da mesma empresa espalhadas por distintos países, onde milhões de pessoas estão dispostas a vender sua força de trabalho por qualquer salário, a fim de ganhar o mínimo necessário para comprar o que comer e renovar sua força de trabalho para novamente revendê-la à empresa capitalista. Daí porque, entre outros fatores, os partidos comunistas e social-democratas perderam força. Os partidos social-democratas são, atualmente, iguais a outros partidos de centro ou centro-direita. O Partido Social-Democrata Alemão está em coligação com a CDU (União Democrata-Cristã). E a democracia cristã faz uma política similar à do Partido Social-Democrata. E a Alemanha é dos poucos países, talvez o único dos países industrializados, onde ainda o setor secundário, a indústria, é mais significativo na sua massa econômica. Nos outros da União Europeia, França e Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, o setor terciário, de serviços, é o que mais sustenta a economia. Desde o ano 2000 mais de 5 milhões de postos de trabalho foram exportados, com a instalação das plantas offshore. E assim o sindicato de trabalhadores já não tem mais o peso de antes. E permita-me perguntar: Quem é a direita e quem é a esquerda na França?

Aray Nabuco – Pois é, não dá pra dizer que a esquerda seja o atual presidente, o François Hollande.

As bases sociais podem ser diferentes, mas a política do presidente François Hollande, do Partido Socialista, em nada se diferencia da política de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, da Union pour un mouvement populaire (UMP). Não houve diferença fundamental nos governos. O presidente Hollande é tão conservador quanto Sarkozy. É até mais.

Aray Nabuco – Tem o Novo Partido Anticapitalista lá…

Há, mas não é expressivo, como outrora foi o Partido Comunista. Essa é a situação na Europa. E, nos Estados Unidos, a classe operária é altamente conservadora, embora a tendência de contestação ao predomínio de Wall Street esteja a crescer, como o demonstrou a candidatura de Bernie Sanders à presidência do país, dentro do Partido Democrata.

Aray Nabuco – Fica parecendo que a utopia acabou.

Ah, a utopia sim, a utopia sempre existe, mas não nos termos de antigamente. Marx continua. Em dois sentidos. Primeiro, as leis do capitalismo que ele desvendou estão válidas. Naturalmente, é necessário ver a evolução do capitalismo até o presente, uma vez que a mudança quantitativa, com a sua expansão, implicou também a mudança de qualidade. O capitalismo foi o único modo de produção que teve capacidade de expandir-se por todas as regiões, avançou da livre concorrência para o monopólio, com o aparecimentos de novas formas de e da competição interimperialista para o ultraimperialismo, conforme Karl Kautsky previu, já no início da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, as grandes potências capitalistas – Estados Unidos e União Europeia – formaram uma espécie de cartel, para não mais se destruírem com outros conflitos armados. O instrumento militar do ultraimperialista, manejado a partir do Pentágono, é a Otan. A revolução socialista na Alemanha que Lenin ansiava não se efetivou.

Aray Nabuco – Diante desse cenário, com forças da esquerda enfraquecidas e ascensão da direita, o senhor acha que tem como a esquerda se recompor nos moldes, digamos, de antes?

Não entramos no mesmo rio duas vezes.

Nina Fideles – O 1%, o grupo de pessoas mais ricas entre a população mundial, domina as corporações que, por sua vez, dominaram os estados e governos. Há quem enxergue no fim desse movimento uma espécie de plutocracia, o senhor acredita nessa possibilidade?

Não se trata de possibilidade. Trata-se de realidade. A free enterprise e o free market engendraram, como na selva, a acumulação de riqueza e a desigualdade estrutural de poder. A desigualdade de renda atingiu, em 2013, o nível mais elevado desde 1928: 1.645 homens e mulheres controlavam maciça parte do acervo financeiro global, um montante de US$ 6,5 trilhões. E essa elite financeira é que detém o poder mundial.

Nina Fideles – Sobre o Brasil, como o senhor avalia o governo em exercício? Estamos sendo vítimas dessa “desordem mundial”?

Que governo? O que vejo no Brasil é uma tragicomédia, um teatro de marionetes, manejado pelo capital financeiro nacional e internacional, o esforço para aplicar o quanto mais rápido possível um programa econômico elaborado previamente ao golpe parlamentar-judiciário, com o respaldo da mídia corporativa, em meio a uma lawfare (guerra jurídica), cujo objetivo é desmontar alguns andaimes da estrutura econômica e política do Brasil. E por que a força-tarefa da Operação Lava Jato não investiga a corrupção das multinacionais do petróleo e outras no Brasil? Por que não investiga o lobby da Chevron e a razão pela qual o Senado aprovou rapidamente o Projeto n° 131, que retirou da Petrobras a condição de operadora única do petróleo nas camadas pré-sal da costa do Brasil? Serão as multinacionais impolutas? A força-tarefa da Operação Lava Jato, porém, atacou a Petrobras, a Eletronuclear e as grandes empresas construtoras, paralisando toda a sua cadeia produtiva, a contribuir para aumentar ainda mais a recessão e o desemprego. A operação Lava Jato a cumprir seu papel. Aluiu importantes andaimes da estrutura para desenvolvimento econômico do Brasil.

Aray Nabuco – Se for pensar no futuro desse golpe, qual o senhor enxerga?

Nenhum.

Aray Nabuco – Os EUA querem instalar bases na Argentina. Seria este país o braço fiel dos EUA aqui na América Latina?

A situação política na Argentina não está ainda definida.

Nina Fideles – E o que ocorreria com o equilíbrio geopolítico caso os EUA conseguissem instalar de fato uma base na América do Sul? Podemos antever ou fazer um exercício de análise sobre esse cenário?

Não posso fazer análise sobre um cenário que é muito incerto e difuso. Muito depende das diretrizes políticas que Donald Trump adotar, como presidente dos Estados Unidos.

Aray Nabuco – O senhor lançou nos anos 70 o livro Presença dos Estados Unidos no Brasil. De lá para cá, o senhor vê alguma mudança dessa presença? Como é que o senhor vê uma evolução, uma linha de tempo?

Claro que houve mudança. Depois de Presença dos Estados Unidos no Brasil, publiquei Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente, As relações Perigosas – De Collor a Lula e Brasil, Argentina e Estados Unidos, entre outros. História é movimento, é mudança e permanência na mudança. E mudança na relação do Brasil com os Estados Unidos sempre houve, desde que ocorreu a proclamação da República, mediante um golpe de Estado, desfechado pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 1889, tendo por trás o dedo do secretário de Estado americano, James G. Blaine, conforme o visconde de Ouro Preto denunciou no New York World, em 3 de março de 1891. E o jornalista Aristides Lobo, primeiro ministro da Justiça do governo Provisório, disse, em crônica no Diário Popular, de São Paulo, que “o fato (o golpe que derrubou o imperador Dom Pedro II) foi deles (militares) só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, supresso, sem conhecer o que significava”. E é essa República que está em decomposição.

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