Vito Gianotti: "O governo tem que avançar na democratização da comunicação"

Grandes Entrevistas
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A Revista Caros Amigos publica na íntegra a entrevista com o escritor Vito Gianotti, feita para a edição impressa de outubro de 2012. 

Por Eduardo Sá

Com forte sotaque estrangeiro, Vito Giannotti é um italiano obcecado pelo Brasil e pela comunicação dos trabalhadores. Autor de vários livros sobre história dos trabalhadores e outros tantos sobre comunicação e hegemonia. Familiarizado com os movimentos populares e as mídias alternativas do Rio de Janeiro e do Brasil afora, coordena o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), que se tornou referência na comunicação sindical e comunitária do país. Luta por uma mídia plural, democrática e popular, pautada por um projeto dos trabalhadores e não pelo lucro.

Em entrevista a Caros Amigos, Vito Giannotti conta a história do NPC, que neste ano completou 20 anos de serviços prestados à comunicação sindical e popular. Ele fala também sobre os avanços que têm ocorrido no campo das comunicações na América Latina, analisa por que o governo brasileiro não democratiza o sistema e a esquerda tem dificuldade de criar seus própriosveículos. Para ele, é uma questão muito mais política do que econômica. Seu refrão é: precisamos perder qualquer ilusão com o modelo hegemônico de sociedade e de mídia patronal.

Caros Amigos Você pode nos contar um pouco da sua história, como se meteu na comunicação?

Vito Giannotti – Eu comecei a mexer com comunicação a partir do primeiro dia que botei o pé no Brasil vindo da Itália, porque nós estávamos numa ditadura e eu era contra. O regime militar queria ganhar as pessoas para o seu projeto.Convencia as pessoas com as suas rádios, com a TVGlobo que criaram em 1965, com a sua televisão, com os seus jornais e a mídia toda que apoiou a ditadura. Se éramos contra, tínhamos que comunicar as ideias. Eu estava numa organização política chamada Ação Popular. A gente fazia jornalzinho, boletim, panfleto e, depois, eu comecei a trabalhar como metalúrgico, antes era pescador. Nós tínhamos um movimento chamado Oposição Sindical Metalúrgica, contra os pelegos, interventores colocados por militares, contra os patrões da Fiesp e a ditadura militar. Tínhamos que fazer jornaizinhos e panfletinhos clandestinos. Como havia saído de uma faculdade na Itália, que abandonei para entrar na luta política, tinha mais facilidade de escrever. Assim peguei o gosto da comunicação sindical com os trabalhadores.

Fiquei em São Paulo 30 anos obcecado pela comunicação e uma das minhas paixões foi a linguagem. Muitos dos nossos jornais de esquerda eram escritos como se fosse em árabe e os trabalhadores não acompanhavam. O brasileiro não está acostumado a ler, então tinha que ter uma linguagem que fosse entendida por quem você quer atingir. Escrevi vários livros sobre linguagem sindical, o primeiro foi em 1982. A comunicação sempre foi uma preocupação enorme, porque para chegar aonde queríamos, a uma sociedade justa, igualitária, fraterna, ou seja, socialista, temos que convencer milhões.

Como surgiu o Núcleo Piratininga de Comunicação?

O Núcleo Piratininga de Comunicação, como diz seu nome, é um núcleo pequeno, tem uma estrutura mínima. Piratininga é o nome de uma tribo indígena, que ia de Niterói até Santa Catarina, em homenagem ao que nunca se fala no Brasil, os nossos índios, uma de nossas raízes. Somos um grupo de  jornalistas, historiadores, professores, diagramadores e ilustradores, que mexemos com a comunicação dos trabalhadores. Que tipo? Sindical, comunitária, de movimentos sociais, alternativa, de esquerda. Como? Somos obcecados pela ideia de ter uma grande comunicação, que os trabalhadores devem ter os seus instrumentos de comunicação.Vai do facebook ao rádio e a televisão, passando pelo jornal e a revista, todo o arsenal eletrônico. Todos os instrumentos usados para o seu projeto político de uma outra sociedade, socialista. Nunca podemos nos contentar, temos que ter a obssessão de ter a comunicação mais ampla possível para transmitir nossa política.

A impressão que passa é que no NPC vocês tratam de uma formação mais política que técnica, uma conscientização para usar todas as ferramentas.

Os cursos vão nesse sentido, sim, você tem razão; mas também ensinam técnica. Um jornal feio pode ter o conteúdo divino,  mas se for escrito  em chinês, no Brasil, não funciona. Tem que ter uma linguagem adequada, nós  damos  uma  série  de cursos  e tenho  uns seis  livros  sobre isso. Vamos melhorar a linguagem e também a forma  e garantir o conteúdo e a distribuição. Nossa estrutura é microscópica, temos duas pessoas contratadas e trabalhos provisórios. Não temos financiamento, fazemos as coisas no grito. Nosso curso anual na área sindical é referência, já estamos no 18º, convidamos uns 50 monitores  das  melhores universidades ou experiências jornalísticas do Brasil. São grandes jornalistas, inclusive internacionais, pessoas apaixonadas pela comunicação dos trabalhadores. O curso é completamente pago pelas inscrições, não tem nenhum patrocínio. É tudo rateado, não é para dar lucro. Quem participa tem um enorme lucro político e ideológico. Temos uns 30 cursos anuais para sindicatos ou movimentos no Brasil todo. São custeados por quem os solicita e a quantia que sobra mantém nossas atividades: escrever livros, agendas, fazer revista, cartilha, etc. É autossustentado, e temos o apoio parcial da Fundação Rosa Luxemburgo, que garantiu uma quantia até o ano que vem que corresponde a uns oito cursos.

Por que o NPC faz um curso de Comunicação Comunitária para um público de jovens de favela, de ocupações urbanas, de pescadores etc?

Realizamos este curso há seis anos. É para comunicadores que trabalham, moram, ou  atuam em comunidades do Rio de Janeiro. São pessoas que moram em favelas e fazem rádio comunitária, um jornalzinho, música popular, etc. Vai de 15 a 70 anos. Passamos tudo o que aprendemos nesses 20 anos de existência, ensinando como fazer um jornal bonito, um programa de rádio  atraente, e montar uma rádio comunitária, que a Anatel vai lá e a polícia fecha. E damos muita importância à pauta, aos assuntos políticos. Agora, os alunos estão produzindo um documentário, que vão colocar no youtube, sobre a comunicação comunitária. Os empresários mudam tudo a cada 6 meses, aperfeiçoam o sistema de produção, e nós temos que melhorar sempre, nos atualizar. Então pegamos esses estudantes que já estão estudando ou praticando e damos um intensivão de 6 meses aos sábados.

E onde se encaixa a produção de agendas sobre vários temas que sai personalizada para movimentos e sindicatos?

Há seis anos, o NPC produz também uma agenda temática. A primeira saiu em 2005 com o tema comunicação. São centenas de pequenas notícias de comunicação dos trabalhadores ou de seus inimigos no dia que aconteceu. Quando nasceu a Rede Globo, em 1965, tem uma notícia curtinha: “Foi criada a Rede Globo, uma canal que será de desinformação do povo brasileiro a serviço da ditadura, sempre defenderá a ditadura até 1984”. A imensa maioria dos brasileiros não lê quase nada. No Japão e Inglaterra, uns 60% leem o jornal diariamente, aqui é 4%, menos que na Bolívia, Uruguai e Venezuela. Então, fizemos pequenas notícias para as pessoas se interessarem. Já fizemos agenda sobre a luta das mulheres e, neste ano, o tema é “Lutas, Revoltas, Levantes e Insurreições Populares do século XIX ao XXI no Brasil”. Porque estamos injuriados com o que é ensinado nas escolas, igrejas, famílias, na rua, televisão e rádios, que o brasileiro é bonzinho, pacífico, não luta, é bundão. A tal “índole cordial”. Achamos exatamente o contrário, queremos mostrar o conjunto das lutas feitas nes- se país pelo povo. Colocamos notícias de umas 500 lutas, com revoltas de negros, índios, grandes greves e movimentos populares.
 

E o que motivou a criação da livraria Antonio Gramsci?

É mais uma iniciativa de formação política, não existe comunicação sem conteúdo. Tem que conhecer história, a economia, a arte, cinema e poesia do Brasil, temos que conhecer tudo. Essa minilivraria é coordenada pela Claudia Santiago, que trabalha há 30 anos com comunicação sindical e acabou de se formar em História. O nome diz: Livraria Antonio Gramsci, fundador do partido comunista italiano, um grande intelectual que foi traduzido no Brasil por Carlos Nelson Coutinho. Gramsci foi um grande obcecado pela comunicação, a ideia dele em resumo é a seguinte: os trabalhadores têm que conquistar a sua hegemonia na sociedade, e isto se conquista com força (partido, organização, exército, lei, parlamento, etc) e convencimento. Comunicação. Então, a livraria é um instrumento da comunicação de ideias. Tem os clássicos da história brasileira, muitos livros da Expressão Popular, que são baratíssimos, vários sobre Che Guevara, Fidel Castro, Revolução Russa, do Marx e Rosa Luxemburgo, além de muitos do Gramsci. Serve ao movimento social. Não tem objetivo econômico, é uma livraria de esquerda para formação política, comunicação e oferecer coisas úteis para a luta do povo.

Como você vê a questão ideológica do conteúdo e a concentração dos meios atuais?

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Independente da concentração, existem duas mídias: a deles e a nossa. A mídia empresarial, que eu chamo de comercial ou burguesa, dos patrões, como a Veja, dos Civitas, o Estadão, dos Mesquitas, a Folha dos Frias e o Globo dos Marinhos. Praticamente não existe mídia pública, só uma tentativazinha. A mídia no Brasil tem dono,  e dono pertence  à classe  empresarial  e patronal. A Folha tem seu objetivo quando noticia alguma coisa do ponto de vista político: manter a sociedade do jeito que está, então é conservadora.  É de direita, quer manter a sociedade a serviço dos patrões, banqueiros, latifundiários, empresários, e do grande capital internacional. A outra mídia é a dos trabalhadores, como a sindical, a popular, a alternativa. Um boletim, jornal, uma revista, um programa de rádio ou televisão de um sindicato ou qualquer movimento, como o MST, tem outro objetivo. Estou falando de movimentos que estão a serviço dos trabalhadores com um projeto dos trabalhadores.
 
A mídia já foi mais plural, existia mais meios, como o Última Hora por exemplo. Já tivemos uma forte imprensa alternativa durante a Ditadura. E hoje?

Toda a mídia menos Última Hora, que foi criado por Samuel Wainer como apoio do governo GetúlioVargas, foi a favor do golpe de 1964. Era contra João Goulart, os comunistas, as greves e as ocupações de terras. Implorou e adorou o golpe. Depois tem uma mudancinha, com o Correio da Manhã. A imprensa alternativa começou com O Sol na ditadura, primeiro alguns jornais pequenos e seu auge foi a partir do AI-5, em 68, quando teve a censura total, a proibição de qualquer voz contestadora ao sistema. Nasceram belos jornais alternativos, o mais conhecido foi o Opinião, em 1970, que dizia o que a mídia do sistema não falava. Se  fala de 150 jornais alternativos entre 1964 e 1984, então havia vozes discordantes muito boas. Qual foi o grande erro que nós, esquerda, cometemos? Quando a ditadura chegou ao fim fomos incapazes de continuar e criar uma grande mídia alternativa, sindical, popular. Nunca um jornal vai juntar toda a esquerda, então que existam dois ou três, cada um compra o seu nas bancas. Só vamos ter essa mídia quando acabar toda ilusão na mídia dos nossos inimigos e a esquerda resolver criar sua própria mídia.

Quando você fala que a esquerda errou naquela época é um tabu administrativo financeiro?

O grande problema é ideológico, político. É se iludir com a mídia burguesa, dos nossos inimigos. Tem que ter uma visão de classe, que existe a nossa mídia e a dos atuais donos do poder e herdeiros da casa grande. Ou nós falamos, ou eles vão falar da maneira deles. Vão omitir, escamotear, mentir é claro! O problema não é econômico, é político-ideológico. A outra questão é que perdemos o bonde da história. Era para ter criado uma mídia alternativa na década de 1980, no auge das lutas operárias, sindicais e populares. Quem minimamente tem feito isso é o MST, com o Brasil de Fato, pena que é um semanário. Quando foi lançado no Fórum Social de Porto Alegre, há 10 anos, chegou a se falar de ser diário. Um dia tem que chegar. Em1990, havia seis jornais sindicais diários, ao todo dava 600 mil por dia. Hoje, não é nem ¼ disso, perdemos o bonde. Temos belas revistas, como a Caros Amigos, mas infelizmente são mensais.

Você falou do Brasil de Fato, mas na prática para torná-lo diário é muito difícil...

Claro, tem que ter financiamento público. O governo Dilma, exatamente nesses dias, está investindo contra o financiamento público a qualquer tipo de mídia popular, alternativa, contra hegemônica. Ao contrário do que deveria fazer, está retirando dinheiro dos pequenos. Como um veículo de uma cidade pequena, por exemplo,vai se manter? Através da Caixa Econômica, Petrobras, o Banco do Brasil. Mas a maioria da verba de propaganda oficial vai para a Globo, que detém 70% da verba de propaganda oficial. Dizem que a propaganda oficial amarra o veículo, mentira! A Globo ou a Veja estão amarradas ao governo? Claro que não! Tem que ter financiamento público declarado, oficial, incentivo à divulgação de ideias, cultura e vozes diferentes. Nós temos ótimos profissionais na esquerda, preparados, só não fazemos porque não se quer. Não se investe nisso. É mais fácil xingar a mídia empresarial.

O que temos de comunicação alternativa, hoje?

A Caros Amigos, que desgraçadamente é mensal, ela é muito boa para um público mais intelectualizado e elitizado. Já imaginou ela semanal que maravilha seria para disputar com as inimicíssimas Veja, Isto É e Época? Temos a Fórum, outra revista interessante, mais na área sindical. É mensal, que pecado! O sindicato tem dinheiro para suntentá-la diariamente, só que uma revista dessa, transformada em diário, tem que ser distribuída. Tem que chegar aos trabalhadores, e isso exige trabalho, não de office boy de moto, mas de militante que vai vender. Em 1946 no Brasil, oPartido Comunista Brasileiro tinha oito jornais diários nas principais capitais. Em 1919, no Brasil, tivemos dois jornais operários diários. Se queria disputar a cabeça das pessoas, e se acreditava que os outros jornais eram inimigos.

Mas, mesmo nas bancas, é um problema, porque as distribuidoras são monopolizadas.

Vamos ter a nossa distribuídora! Como é que o Partido Comunista distribuía em 1946? Distribuição militante. Sem militantes, a perspectiva socialista acabou. Vamos ficar latindo que a burguesia tem tudo? Eu sei que a Globo tem tudo. Quem proíbe a gente de ter? As leis do governo? As leis se mudam com gente  na rua.  A conjuntura  mudou, a primeira desgraça foi a falência das experiências socialistas mundiais do século XX. O fim do muro de Berlim foi trágico, muitos comunistas ficaram debaixo dele, perderam as esperanças, os sonhos. A segunda desgraceira foi a entrada em cena do neoliberalismo, que é a nova teoria e prática política criada a partir do recuo das experiências socialistas na década de 1970 e 1980.  A retomada do velho capitalismo puro, sem nenhum disfarce de estado ou bem estar social: retirada de direitos dos trabalhadores e do Estado, ou seja, a privatizaçãode tudo. Foi uma avalanche ideológica e política enorme, o pensamento único que continua.

Redundou numa crise que sinalizou para algumas falhas e, no entanto, não mudou nada...

A crise está aí, só que o capitalismo sai dela tranquilamente às custas de milhões de mortos, miseráveis, desempregados, da miséria do mundo. O capitalismo supera suas crises fazendo a classe trabalhadora pagar. Ainda hoje, com a crise, os valores são os do neoliberalismo. Na Itália, estão fechando a Fiat, a maior fábrica de automóveis do país desde 1905. Haverá uma revolução? Não, no ano que vem provavelmente vão eleger Berlusconi de novo, que é o rei do neoliberalismo na Itália. Tanto quanto Reagan foi nos EUA e Thatcher na Inglaterra. O individualismo é o princípio chave do neoliberalismo, do pensamento único, da hegemonia dominante. A nossa esquerda está em crise porque, hoje, é muito mais difícil fazer e distribuir um jornal, ter militância e ativista na rua. Não é só crise econômica, é ideológica  e política vinda da falência das experiências socialistas. Não conseguimos explicar, e você tem que admitir que está com uma doença para poder se tratar. Não conseguimos conciliar socialismo com democracia, essa foi a grande falha.

Mas há algumas experiências que não estão dentro desse sistema hegemônico, como a própria América Latina, e trazem elementos novos. Qual a sua avaliação?

Eu começo fazendo reverência à Cuba, todo respeito à Cuba, viva Cuba, somos todos cubanos. Sou um admirador das experiências dos Piratas do Caribe, título de um livro de Tariq Ali. São esses: Fidel Castro, o pai de todos, Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. São experiências do chamado “eixo bolivariano”, que começou com Chávez. E tem influências no Uruguai, com José Mujica, teve no Paraguai com Lugo, tem alguma influência na amiga Cristina Kirchner. É uma série de novas experiências que falam de um novo “socialismo do século XXI”. Chávez não é marxista, mas com ele a Venezuela se tornou um país com mais justiça, igualdade, e mais independente dos EUA. Ele continua pagando a dívida externa, claro, se não pagar vai ser morto no dia seguinte. A Venezuela e a América Latina podem dar  passos no sentido de, quem sabe nesse século XXI,  conseguirmos criar algumas  outras novas experiências de socialismo. Cristina Kirchner com a nova Ley de Medios, com o apoio de 60 mil argentinos fazendo manifestações de rua exigindo sua aprovação, está propondo uma revolução nas comunicações que pode mudar a América Latina.Tirar a mídia dos grupos hegemônicos monopolistas, El Claríne La Prensa é a coisa mais transformadora. Estes são grupos da burguesia argentina ligada ao império americano. A lei está pronta para funcionar, divide as comunicações eletrônicas, (rádio e televisão), em três partes iguais: entre o Estado, o público e o privado. Por que a Dilma não faz isso? No Brasil, o Lula andou fechando mais de 5 mil rádios comunitárias, enquanto Chávez abriu milhares e permitiu que em cada morro houvesse uma. Na Bolívia, o Evo Morales permitiu que cada nação indígena tenha a sua rádio. São rádios locais, permitidas, incentivadas, essa é a democratização. No Brasil, qualquer deputado pilantra, senador, pastor ou padre tem uma concessão de rádio e televisão, contanto que seja de direita, a serviço do sistema de manter a exploração e opressão do povo. Eu acho que o governo Dilma, se quiser deixar uma marca positiva, tem que avançar na democratização dos meios de comunicação. Rever toda a lei de concessões públicas, que não tem nada de públicas. Essas concessões são sesmarias, doações feitas a donatários: Roberto Marinho, ao Bispo Macedo, ao deputado pilantra de não sei aonde, ao grileiro, ao dono de agronegócio. Concessão significa que o proprietário continua sendo dono, o Estado, o Brasil. Mas não tem nada de público. Ou seja, tem que rever todas as concessões.Se a Dilma fizer, isso é o primeiro passo. Não só rever a legislação, tem que dar incentivo para a mídia alternativa, comunitária, de esquerda, popular, que significa do povo.

Na mídia internacional, o Brasil tem se transformado numa potência, mas aqui há muito tempo não tinha tanta greve, lutas no campo e tantos protestos nas ruas. Como você vê essa contradição?

Eu acho que tem muito pouco protesto, tinha que ter muito mais. Gente, no Brasil quase 60% das casas sem esgoto. Isso merece arrancar todos os trilhos de todas as estradas de ferro do país até resolver. É muito pouco ainda, somos o 4º país do mundo mais injusto, com a pior distribuição de renda. Somos o país com o maior índice de analfabetismo da América Latina. O IBGE fala de 10 a 15% de analfabetos totais, e na Venezuela, um país bolivariano, não tem um analfabeto, a Unesco falou isso há cinco anos. Na Bolívia, um país pequeno e miserável, não existe um analfabeto. Temos ainda cerca de 45% analfabetos funcionais. Então, esse é o nosso Brasil, precisa de muito mais protestos, insurreições e levantes para mudar esse país. A agenda que fizemos para 2013 é um exemplo e incentivo a isso.  

Eduardo Sá é jornalista.


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