Aziz Nacib Ab'Saber: "O problema essencial é o fato de o poder estar quase totalmente desvinculado dos conhecimentos"

Grandes Entrevistas
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Saber se especializou em estudar a relação entre a atividade humana e seus impactos ambientais, incluindo ecologia urbana

Da Redação

Aziz-iA Caros Amigos disponibiliza na íntegra a entrevista com Aziz Nacib Ab'Saber, feita em 2001 para a edição impressa.  O geógrafo faleceu em março de 2012, aos 87 anos. Presidente de honra e ex-conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Saber manteve-se ativo até a véspera, quando visitou a entidade deixando lá toda sua obra reunida em DVD para ser distribuída nas reuniões da SBPC e a quem mais puder - trabalhos produzidos desde 1946.

Saber se especializou em estudar a relação entre a atividade humana e seus impactos ambientais, incluindo ecologia urbana, tema de alguns dos mais recentes livros.

ENTREVISTA CAROS AMIGOS

Um mestre brigador

Aziz AbʼSaber

Sérgio de Souza - Professor, de onde vem o nome do senhor, “AbʼSaber”?
Aziz AbʼSaber - Meu pai era libanês, veio para o Brasil no começo do século 20, com 15 anos, buscar meu avô, que estava ficando tempo demais aqui, e a minha avó estava lá, com medo de que ele casasse com uma brasileira, então meu pai veio, e levou meu avô. Depois, por um incidente desses que ainda continuam existindo em Beirute, meu pai estava ajudando minha avó a comprar coisas no mercadão da cidade quando apareceram lá aqueles subversivos radicais, botaram o revólver na testa dele e um perguntou para o outro: “É um cristão que morre?” O outro disse: “Não tenho certeza”. Isso dá idéia de como era e como ainda é esse Oriente Próximo, em que os problemas religiosos estão mais envolvidos com as comunidades do que em qualquer parte do mundo.

“O teu avô fala tão bem do Brasil, isso aqui não é terra para um moço ficar, você poderá ser sacrificado um dia por algum motivo, vai embora para o Brasil”

Carlos Azevedo - E depois desse incidente ele resolveu vir para cá?
Aziz AbʼSaber - A minha avó virou e disse: “O teu avô fala tão bem do Brasil, isso aqui não é terra para um moço ficar, você poderá ser sacrificado um dia por algum motivo, vai embora para o Brasil”. Já estava aqui o irmão dele, em São Paulo, e trabalhando sabe onde? Na construção da Usina de Itupararanga, hoje pertencente ao senhor Antônio Ermínio de Moraes; perdeu um rim carregando pedras lá. São coisas da memória da gente. Aí, meu pai veio para São Paulo, via Santos, e aqui sobreviveu trabalhando como marceneiro, na rua do Gasômetro. Depois, ele foi para São Luís do Paraitinga, onde eu nasci.

Sérgio de Souza - “AbʼSaber” tem algum significado?
Aziz AbʼSaber - “AbʼSaber” quer dizer “pai da paciência”, e aqui eu começo a falar um pouquinho de mim: eu sou muito impaciente. Quando soube que “AbʼSaber” é “pai da paciência”, fiquei assim: “Meu Deus, como há uma discordância entre o nome e a realidade do comportamento pessoal...”.

Verena Glass - Sua mãe é libanesa?
Aziz AbʼSaber - Mamãe era brasileira de cor bem branca, penso que ela tivesse ascendentes portugueses do norte, mas já bem brasileira. Gente muito simples, de primeiras letras, da roça, mas, que energia, viu? Já encontrei outras pessoas assim nas minhas pesquisas sobre geografia agrária de regiões rústicas. E ela fazia questão de que em casa não se falasse “turco”, “aqui se fala ʻbrasileiroʼ ”, ela dizia, tanto que eu não falo uma palavra em árabe nem nome feio em árabe sei falar. Bom, quando eu tinha 6 anos, mudamos para Caçapava, e estudei lá e em Taubaté até o fim do ginásio. Tive uma sorte tremenda, porque no ginásio alguns professores me chamaram a atenção para a história, mas era uma história misturada com o espaço, com o clima, com a paisagem, com a vegetação, era um curso de história e geografia. E não tive dúvida, terminei o ginásio, vim para São Paulo, e entrei na universidade, apenas com o ginásio. Eram uma dureza os vestibulares: geografia geral, do Brasil, física e humana; história antiga, medieval, moderna e contemporânea; ciências sociais, e eu fui arriscando, só com os conhecimentos dos anos de ginásio e de três meses do cursinho de férias do grêmio da faculdade, além de aulas particulares de sociologia. Mas na prova de desenho tirei quase 10, e a média deu para passar em segundo lugar.

"Então, quando vim para São Paulo, uma das tarefas era obter conhecimentos necessários para o vestibular e a outra era fazer o serviço militar"

Sérgio de Souza - Com quantos anos o senhor estava?
Aziz AbʼSaber - Eu vim de lá com 17 anos. Em Caçapava tinha tiro-de-guerra, e eu não pude fazer por causa da idade, todos os meus colegas um pouco mais velhos fizeram o curso lá e eu não pude. Então, quando vim para São Paulo, uma das tarefas era obter conhecimentos necessários para o vestibular e a outra era fazer o serviço militar. Servi em Quitaúna, o que quase me matou. Não estava preparado para aquilo aos 17 anos e também fiquei muito doente – tinha de andar a cavalo e me deu uma infecção na parte urológica. Quando voltei para fazer o serviço militar, eu tinha medo de não dar mais, porque estava muito fraquinho. Cheguei lá, o capitão disse: “Já soube, entre na fila. Você vai ser promovido a cabo”. Eu digo: “Mas por quê?” É que eu tinha feito uma redação sobre a Guerra do Paraguai e o pessoal não sabia escrever nada de Guerra do Paraguai, e lá fui eu para cabo. Três semanas depois houve outra coisa e ele: “Psiu! Para a turma dos sargentos!” Acabei ficando sargento de segunda categoria.

Sérgio de Souza - Que risco que o senhor correu, hem?
Aziz AbʼSaber - Ô. Já imaginou? Mas eu era uma pessoa bobalhona, aos 17, 18 anos, e foi bom para perceber um pouquinho do tratamento na caserna. E até coisas meio dramáticas, o capitão que reparou em mim era um gaúcho muito suave, tinha perdido a esposa e estava muito sentimental. Existem conjunturas entre a gente e os outros que sempre foram de grande utilidade para mim na vida, porque tenho poucos amigos. Sobre o meu temperamento agora, eu disse para vocês que sou AbʼSaber, “pai da paciência”, Aziz é “amado”, “amado pai da paciência”. Mas adquiri um temperamento ao longo de lutas dentro de vários setores, muito acanhado, por muito tempo fui tímido demais, e depois, por causa da vida, de sentimentos e de conflitos, fiquei muito explosivo, sou uma pessoa extremamente suave que de repente faz “pi, pi, pi...”, sabe? Quando tenho certeza de que estou com a razão. E isso tem me causado problemas até com pessoas muito próximas a mim, da área política; não concordo com algumas idéias, dou uma explosão e às vezes acabam a amizade comigo.

Sérgio de Souza - O senhor lembra de algum exemplo?
Aziz AbʼSaber - Não posso dar. O último deles, se eu for contar, cria um problema.

José Arbex - O senhor é grande amigo do Lula, não é

"A temática do meio ambiente é fundamental para este país. Há muitas coisas sérias que vão envolver o prestígio dos políticos de esquerda na questão ambiental"

Aziz AbʼSaber - Na realidade sou um amigo fiel do Lula, vocês sabem disso. Encontrei-me com ele um dia numa reunião, há muitos anos, e na época ele não gostou da ideia de desenvolver estudos ambientais. E eu digo: “Olha, Lula, pelo contrário, a temática do meio ambiente é fundamental para este país. Há muitas coisas sérias que vão envolver o prestígio dos políticos de esquerda na questão ambiental”. Ele ficou quieto. Aí, alguém virou para ele e disse: “Lula, estou achando esquisito você não ter ouvido isso que o Aziz disse. É fundamental a questão ambiental num país como o nosso, cheio de problemas”. E o Lula foi para casa e guardou esse entrevero. Eu já sabia que o PT não dava muita atenção, quando ajudei a fundar, em 1973 parece, a Comissão de Defesa do Patrimônio da Comunidade. Eu, algumas pessoas da USP, o Flávio Bierrenbach, professores, advogados, agrônomos, profissionais da área pública. Desde aquela época eu documento o desenvolvimento das questões ambientais em São Paulo e no Brasil. Então, eu sabia do que estava falando. E o Lula ficou quieto. Tempos depois, me encontrei com ele e disse: “Ô, Lula, posso te dar um conselho? Você tem que visitar sua família lá em Garanhuns”. Eu sabia que ele era de lá. Ele disse: “É, preciso, mas se eu for lá agora vão dizer que estou fazendo campanha eleitoreira. Depois das eleições eu vou”. Ficou nisso. De repente, estou lá em casa, com a agenda totalmente cheia, palestra aqui, conferência ali, é Manaus, Fortaleza, Salvador, aí ele telefona para casa e diz: “Aziz, estou indo para o Nordeste e quero a sua companhia”. Eu falei com a minha família. Minha mulher é dez mil vezes mais política que eu, gaúcha, não é? Ela virou e disse: “Não, senhor, desmarca todas essas coisas e vai com o Lula”. E eu tive que desmarcar tudo e fui.

Verena Glass - Já era a caravana, professor?
Aziz AbʼSaber - Uma das primeiras caravanas. Foi o Vicentinho, o Suplicy, o Lula, a Marta, eu, e mais os secretários dele. Foi uma excursão fantástica. Das minhas excursões de geógrafo, essa foi a melhor. Porque eu não ia como político. Como vocês sabem, nunca disputei qualquer lugar na política. Eu queria era aproveitar da viagem, porque conhecia o Nordeste desde 1952 e queria saber como é que estava em 1987. Foi ótimo, porque vi como a burguesia de Recife comprou propriedades na zona do agreste e transformou em fazendas de gado, um gado melhorado, e tal. E depois fui indo, até que cheguei no sertão. E Garanhuns, que também conheci mocinho, estava quase irreconhecível. Na época em que estive lá havia plantação de café em clareiras nas matinhas biodiversas. Agora, esses lugares eram favelas. Para mim, foi sendo um motivo de conhecimento. Aliás, não escrevi ainda sobre essas viagens porque não consegui os roteiros com a toponímia dos lugares visitados. Estou pelejando para isso. Mas então fomos para Garanhuns, dormimos lá e no outro dia, para minha surpresa, o Lula disse: “Vamos para o sertão”. Era bem lá embaixo, bem longe. E em pleno sertão tinha uma planiciezinha aluvial, um pouco alongada, e por lá estava Vargem Grande, onde Lula nasceu. Quando o pessoal chegou lá, foi uma festa. Estava vivo ainda um irmão dele, muito velhinho, e as tias, e as primas. Muita gente de todos os arredores. Uma fazendinha simples. Mas, para vocês verem, é difícil a gente tratar como cientista em relação aos assessores de políticos. Eu não conseguia que um fotógrafo fotografasse as coisas geográficas que eu precisava. Ficavam fotografando outras coisas, entende? Pela primeira vez senti que ia ter dificuldade nas viagens porque não tinha colaboradores sensíveis.

"Na primeira cidadezinha tinha uma fila de quinhentas latas com as pessoas sentadas, com paciência, esperando. Passavam os caminhões com água, mas era para vender barato para os fazendeiros, para o gado. O povo é tratado pior que gado. Não tinha água"

Verena Glass - O papel do senhor nessa caravana era assessorar o Lula?
Aziz AbʼSaber - Quando fosse possível, porque ele é super-solicitado. Então, não dava para falar muito, mas eu ia falando na medida em que estava no ônibus. Um dia eu disse: “Olha, Lula, vocês estão vendo aqui uma coisa – era um ano muito seco – fantástica. Isso aqui se chama agreste, região de pequenas propriedades, sítios, mas agora, como está na seca, o sertão chegou ao agreste”. Foi a primeira observação que eu fiz, num ano seco. Aliás, na hora em que for falar da energia, vou falar dos anos padrões, os secos e os chuvosos. Aí saímos de lá, subimos de novo a Borborema e descemos para Alagoas. Então é que eu vi o alto sertão. O alto sertão é o que está longe, porém em situação baixa. Quer dizer, a palavra alto é no sentido de distante. Descemos lá de Garanhuns para as cidadezinhas do sopé sul da Borborema, que é um maciço de rochas antigas, e aí iniciou o alto sertão em colinas baixas. Na primeira cidadezinha tinha uma fila de quinhentas latas com as pessoas sentadas, com paciência, esperando. Passavam os caminhões com água, mas era para vender barato para os fazendeiros, para o gado. O povo é tratado pior que gado. Não tinha água. A fila era curiosa. Eles põem na ordem de tamanho: desde a maior até chegar a uma latinha lá no fim. Isso está se repetindo este ano, pelo que eu soube. Aí fui num bar, estava com uma sede desesperadora. Pedi uma garrafinha de água mineral e o homem disse: “Não tem. Não vale a pena comprar água mineral porque ninguém tem dinheiro para adquiri-las e eu não vou até Garanhuns para comprar água mineral”. Era assim, até pra gente dava reflexo. E depois foram acontecendo coisas. Uma hora encontramos um grupo de pessoas no meio da estrada – um dos componentes do grupo escreveu sobre isso, acho que no Jornal do Brasil – e uma senhora, uma cabocla muito enérgica, parou os dois ônibus e mais alguns carros, subiu num barranquinho de terra na beira da estrada e começou a perorar: “Isto aqui é um absurdo! Imagine o senhor que nós estamos passando fome. Fomos falar com o prefeito” – o prefeito de Águas Belas, ali perto – “e ele disse que não podia fazer nada porque não tinha recursos, não tinha verba, não tinha coisa nenhuma. Nós pedimos pão...”. Fiquei sentimentalizado, parece uma coisa do Oriente “...Pedimos pão porque nós e nossos filhos estamos passando fome. Eles ficaram lá na rocinha e nós estamos aqui para protestar”. Aí, um velhinho virou-se com um pedaço de palma e disse: “Esta é a única comida que nós temos pra fazer o chá da tristeza e da fome, que não tem gosto de nada. A gente torra os espinhos, depois esmaga e faz um chá”. Aí o Lula virou e disse: “Suplicy” – e mais um outro lá –, “vocês dois vão falar com o prefeito”. E lá foi o Suplicy falar com o prefeito, com aquele ar muito simples, muito lento.

Verena Glass - O Suplicy tinha algum cargo naquela época?
Aziz AbʼSaber - Senador. Que é o cargo que ele deve pensar nele sempre... É um dos melhores senadores que o Brasil já teve, a meu ver. Aí, ele chegou lá no prefeito e disse: “Vim aqui porque aquele pessoal está passando fome e eu quero levar pães para eles”. O prefeito disse: “Só se o senhor comprar”. O Suplicy: “Pago metade e o senhor paga metade”. Pediu duzentos pãezinhos e o prefeito pagou cem. Aí, o prefeito vira cinicamente para o chefe de gabinete e diz: “A sua padaria hoje vai ter bom faturamento”. Eta país!

Julianne do Carmo - Isso era em...?

"Aí chegou uma velhinha, com um prato, eu não enxergo bem, olhei, olhei e não entendi, e ela disse: 'Este peixinho pequeninho chama-se peixe da pedra, vai ser o banquete das nossas crianças amanhã'. Eles catam do lodo, do fim do açude, já semiseco, aquelas coisas"

Aziz AbʼSaber - Águas Belas. Essas coisas precisam ser registradas. Pouco antes, no sertão próximo de Garanhuns, o Lula queria ir num acampamento do MST que havia no trajeto, e fomos. Aqueles barracos, vestidos de plástico preto, naquele calor do alto sertão. E, quando íamos chegando, as pessoas começaram a sair dos barracos cantando algumas músicas de contestação, que eles aprendem na pastoral. Músicas lindas e significativas. Nunca me esquecerei. De repente, do silêncio da caatinga, começam a sair aquelas entonações. E eles se aproximando da gente e nós nos aproximando deles, foi talvez a coisa mais dramática que eu senti na viagem. Aí chegou uma velhinha, com um prato, eu não enxergo bem, olhei, olhei e não entendi, e ela disse: “Este peixinho pequeninho chama-se peixe da pedra, vai ser o banquete das nossas crianças amanhã”. Eles catam do lodo, do fim do açude, já semiseco, aquelas coisas. Olha, é de chorar. Aí veio uma outra velhinha com uma raposa, dizendo: “Nós vamos comer esta raposa”. Tenho um velho problema com raposa, porque meu pai, quando eu era pequeninho, 3, 4 anos, ele dizia: “Vou me assear antes que a raposa suje a água”. E agora a mulherinha vem com uma raposa e eu disse: “E o gosto aí, e o cheiro da raposa?” Ela disse: “Eu sei o órgão que cheira, corto e jogo fora”. E era outra parte do banquete do dia. E o pior era que nessas caravanas a gente não levava nada. Disso eu me queixei depois. Não levava um pouco de remédios; remédios simples, aspirinas, outras coisas, só levávamos camisetas.

José Arbex Jr. - O senhor falou que é amigo fiel do Lula. Essa relação é puramente afetiva ou passa por uma reflexão política?
Aziz AbʼSaber - Pelas duas coisas, porque assisti, ao longo de todas as caravanas – depois a da Amazônia, depois uma outra para o Acre –, assisti aos discursos do Lula. Sinceramente falando, as idéias que ele expunha durante as reuniões – aí já não era mais só com o povo da roça, mas com pessoas as mais diferentes – eram melhores do que as de todos os outros candidatos que eu conhecia. O Maluf só sabe xingar o Lula quando faz reunião, “aquele sapo barbudo” etc. Um dia desses, na televisão, houve um incidente comigo, por causa disso. Não tenho nada contra ele, de ordem pessoal, mas ele xingou tanto o Lula na salinha de espera em que estávamos, no SBT, que me levantei e disse: “Olha, o senhor está falando muito mal do PT e sobretudo do Lula”. Pus o dedo nele, assim. O desgraçado, sabe o que fez? “Ô, Aziz...” E me abraça, “Precisamos jantar juntos...” Como é que pode?

Verena Glass - O senhor acha que as idéias do Lula mudaram muito, desde a época em que o senhor o conheceu?
Aziz AbʼSaber - Tenho um grande defeito, quando sou amigo de uma pessoa, sou amigo independentemente de tudo, não sou um amigo crítico. Comuniquei a ele o resultado de minhas observações na viagem, como, por exemplo, o papel da mulher que, no sertão, é tudo. Muitas vezes o marido acaba ficando humilhado permanentemente, três dias de trabalho, e depois não tem trabalho, e tem que comer, e é a mulher que providencia, então a sertaneja tem uma função especial de chefe de família. O Lula já não sabia mais dessas coisas, ele reaprendeu durante a excursão.

José Arbex Jr. - Mas é que o Lula é fácil de gostar, porque ele sabe dizer aquilo que agrada a pessoa. Por exemplo, na entrevista que deu para a Caros Amigos, da qual o senhor participou, ele adotou um discurso que é próprio para os leitores de Caros Amigos, mas quando vai falar com empresários adota um outro discurso, que quem lê aquilo que ele falou na Caros Amigos e aquilo que ele falou para os empresários vê que são coisas completamente diferentes.

"Existe, de um lado, um bloco que eu chamaria de “consciência técnica, científica, social, jurídica e ética”; se não existir isso, o país é zero"

Aziz AbʼSaber - Espera um pouquinho. Esse era um assunto que marquei aqui para dizer a vocês. Eu participo, como cidadão, não como pesquisador ou o que quer que seja, de um ideário. Existe, de um lado, um bloco que eu chamaria de “consciência técnica, científica, social, jurídica e ética”; se não existir isso, o país é zero. Me empresta um lápis. (faz um desenho) Aqui é o bloco da consciência técnica, científica, social – que é o mais importante –, jurídica e ética, sem isso não há evolução dentro de uma sociedade. A isso se agregam jornalistas independentes, aqueles que não se situam no plano do dono do jornal, e as pessoas esclarecidas. Do outro lado tem uma pirâmide social: eu até brinco, inverto a pirâmide, que tem uma base inchada de pobreza e de carência – não é só pobreza absoluta, mas é carência e geografia humana sofrida; depois vem uma classe média que, no caso de São Paulo, não é tão desprezível em termos de volume e força, por isso que é resistente a região de São Paulo, não é o mesmo caso de outros lugares; depois tem a pequena burguesia; depois, a alta burguesia, empresários etc. O que é que aquela consciência precisaria fazer com essa pirâmide? Saber ouvir as aspirações de todos os segmentos que a compõem. Então, cruzando a consciência técnica com as expectativas de todos os segmentos, as propostas ora poderiam ser tiradas mais próximas do conhecimento da consciência, ora mais próximas da necessidade de proteger as expectativas, e olha que levo em conta as expectativas de todo mundo. Não dá para eliminar a pontinha aqui de baixo, que são os homens que dizem que são os produtores, e que, realmente, têm um caráter de produtor, só que o que alguns deles ganham colocam em Cayman, Miami, Genebra e não explicam para ninguém depois que a gente descobre. No caso da classe média, como dizia o professor Milton Santos, existe uma certa alienação das cidadanias porque muitas vezes está interessada apenas em vantagens particulares. Então tenho de ouvir cada segmento e dosar o atendimento – vejam que inverti a pirâmide –, é este fantástico bolsão de carentes que precisa ser mais atendido. Agora, o que adianta eu, cientista, fazer tudo isso sabendo que quem vai resolver o problema é o Executivo, muitas vezes destituído de sensibilidade social. Eles não choram por dentro. Então, aqui no meio, entre o bloco e a pirâmide, tem que levar em conta o papel do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e de todos os componentes críticos do quarto poder, que é a mídia esclarecida. Não adianta nada você saber quais as expectativas e não poder fazer chegar a elas. Vejam bem, existe uma dicotomia total entre o poder e o conhecimento. Eu sou da área do conhecimento e da área dessa consciência, consciência que cada um adquiriu através de conhecimentos e sentimentalidades. Bom, nos países do Terceiro Mundo, na medida em que o processo histórico evoluiu, Independência, República etc., o poder começou a se tornar extremamente forte e só se baseia nas expectativas desse pedacinho menor, a pontinha, que representa as elites poderosas. O problema essencial é o fato de o poder estar quase totalmente desvinculado dos conhecimentos, adquirindo uma força monolítica que despreza o conhecimento. Isso é o que eu penso que seja ética: unir a ética do poder e a de todos os conhecedores.

Sérgio de Souza - Voltando à seca: existe uma viabilização técnica para o problema da seca no Nordeste?
Aziz AbʼSaber - Esse é o assunto principal. Vou ser rápido, porque já escrevi recentemente na revista número 36 do Instituto de Estudos Avançados; forcei a entrada de um dossiê Nordeste-Seca, e escrevi um trabalho de umas quarenta e tantas páginas e uma bibliografia de umas vinte páginas sobre a seca no Nordeste, porque conhecemos mal a literatura acumulada, infelizmente. Primeiro lugar: o Nordeste semi-árido é a região mais povoada do mundo, isso é um problema muito sério. Tem gente demais, e enquadrada por uma estrutura agrária extremamente rígida e antidemocrática.

Marina Amaral - Região mais povoada do mundo de zonas semi-áridas?

"Duas ou três senhoras sertanejas que entrevistei diziam: 'A gente arranja serviço por três a quatro dias, sofridamente, pedindo, implorando. E isso não dá para comprar uma cesta básica'"

Aziz AbʼSaber - De zonas semi-áridas. Deixa eu explicar como é, isso não é meu. Nessa revista, coloquei uns fragmentos de leitura depois do meu artigo e contei como vim a saber disso. Estávamos fazendo uma excursão, em 1956, com geógrafos do mundo inteiro, pelos sertões. E, às tantas, o professor Jean Dreisch, que era um gigante estudioso do Saara, chegou para o Mário Lacerda de Melo, da Universidade do Recife naquela época, e disse: “Faz três dias que estou andando por isso que vocês chamam de sertões e estou vendo uma região quente, seca, com caatingas, vegetação rústica, rios que perdem correnteza durante seis meses, correm os outros seis, e vi gente por toda parte. Os desertos não são assim, tem gente num oásis e, centenas de quilômetros depois, um outro agrupamento de pessoas. O que transita são as caravanas, para vender artesanato e alimentos. Então, no deserto verdadeiro, a situação da população é trágica, porque é pouca gente concentrada e não querendo que tenha mais gente porque não há recursos para todos. E aqui não. Estou vendo gente por toda parte, na beira dos rios, na beira dos riachos e ao longo das estradas abertas por vocês nos últimos trinta anos, e nos cruzamentos etc. E vou lhes dizer: conheço as regiões semi-áridas do mundo inteiro, não existe nenhuma mais povoada que a do Nordeste. Por isso, vocês vão ter os maiores problemas possíveis no futuro, porque o crescimento demográfico aqui é muito grande e vocês mesmos estão me ensinando que as famílias de pessoas pobres têm de cinco a treze filhos no sertão”. É a realidade: como alimentar todas essas pessoas se durante o período de seca os fazendeiros que têm propriedades grandes deixam de empregá-las? Eles empregam por dias. Na viagem a Águas Belas, duas ou três senhoras sertanejas que entrevistei diziam: “A gente arranja serviço por três a quatro dias, sofridamente, pedindo, implorando. E isso não dá para comprar uma cesta básica”. Só para vocês terem idéia das cenas, nessa caravana, na terra lá da mulher do Collor...

Marina Amaral - Canapi.
Aziz Ab´Saber - Canapi, lá no Alagoas, o pessoal fez um comício monstro. E eu, como meu trabalho é outro, é ser assessor do Lula quando dá, fui para um bar tomar um refrigerante. Viram que eu não era de lá. Aí chegou uma sertaneja alta, bonitona, rústica, crioula, parou ao meu lado e eu tomando aquele negócio. E eu vendo que ela estava ali, querendo falar comigo, com uma sacola na mão. Daí a pouco entrou uma senhora com três filhos pequenos, que pediu no balcão: “Me dê dois pães”. Eu comecei a ficar nervoso: tinha dinheiro para tomar um refrigerante num lugar que não tem água e comer qualquer coisa etc., e aquela mulher pedindo dois pães para quatro pessoas, três filhos e ela. Aí olhei para a moça que não saía do meu lado com a sacola, chamei a dona do bar – eu estava com muito pouco dinheiro já, levei pouco e agora estava acabando – e disse: “A senhora me faz um favor: Veja 2 quilos de feijão, três pacotinhos de arroz, dez pãezinhos, uma lata de óleo”. E paguei. Olhei para a mulher da sacola e ela disse: “Por favor, e farinha de mandioca”. Ela adivinhou que aquela matula era para ela! E eu pensei: “Meu Deus, que pobreza!” E a outra mulher, com as crianças me olhando. Mandei fazer um pouco menos, porque já não dava, de repente tinha que fazer para todo mundo. Entreguei para a mulher e sabe o que aconteceu? A pobreza é tão grande que elimina o agradecimento. A cabocla da sacola saiu correndo embora, e a velhinha também. Não disseram “muito obrigado” nem “até logo”, não, e elas têm razão. O resto do país que está em processo de desenvolvimento muito grande tem responsabilidades com todos eles por tudo e, portanto, quando alguém vai lá para doar coisas, eles não têm condições de agradecer. E foi aí que aprendi talvez a coisa mais importante da minha vida. Sou muito meditativo. Quando era garotinho, em Caçapava, ficava pensando no fim do fim: “Depois do fim do universo, o que é que vem? Não pode terminar; e o que vem?” Isso valeu muito para mim. Outra coisa também é o tempo: “Daqui a um ano acaba a Revolução Paulista de 1932. Eu tinha o que, 7 anos. Aí eu dizia, e daqui a cinqüenta anos, que tipo de revolução vai haver? E daqui a mil anos? E daqui a 10.000 anos?” Isso valeu muito para a minha política ambiental, porque entendo as diversas profundidades de tempo – enquanto um economista fala em cenários de cinco anos, planos qüinqüenais, depois reduzindo para planos trienais, planos bienais, depois para três meses, depois para uma semana, e agora é preciso rever a economia da manhã para a noite, porque alguém falou qualquer coisa em Brasília que desgostou os empresários e a bolsa escafedeu. Essa é a noção do economista. Agora, a do ecologista: conheço a Amazônia e quero que a biodiversidade de lá seja preservada por muito tempo, então, quando chega um imbecil e diz “vocês ambientalistas não valem nada, as pessoas do futuro que recebam o mundo tal como nós recebemos de nossos antepassados”, pensar isso neste fim de século e começo de milênio é de uma bestialidade que não tem tamanho. Então, imagino que o ecologista tem responsabilidades com a vida na face da Terra ao nível de todos os tempos. Aí chamo aos níveis de profundidades diferentes do tempo. E isso me satisfaz muito. Daí a luta que enfrento. Quem disse aquela besteira, no Memorial da América Latina, foi um ex-governador do Amazonas. Fiquei furioso com ele. E será assim se todo mundo fizer os doze caminhos de devastação que identifiquei e que estão expostos no meu livro Amazônia - do Discurso a Práxis.

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"Imagino que o ecologista tem responsabilidades com a vida na face da Terra ao nível de todos os tempos. Aí chamo aos níveis de profundidades diferentes do tempo. E isso me satisfaz muito"

José Arbex Jr. - Belíssimo livro.
Aziz AbʼSaber - Se em todas as áreas da Amazônia acontecerem alguns desses doze caminhos listados, não haverá mais Amazônia depois de algum tempo.

Sérgio de Souza - E os ministérios?
Aziz AbʼSaber - Eles discutem isso tudo muito epidermicamente. Ou conhece essas realidades ou não pode administrar essas realidades. E aí entra um problema do qual não gosto de falar, mas como é que se bota para administrar o Ministério do Meio Ambiente o filho de um grande político brasileiro que já foi presidente? Ele não tem competência, não tem capacidade de avaliar. E o pessoal que já está lá há muito tempo, mais ou menos burocratizado, também não tem. Se vocês vissem reuniões em que estejam presentes pessoas dos ministérios, quando surge no jornal ou no rádio qualquer coisa sobre Brasília, eles largam a reunião e vão embora. Não têm tempo para discutir. Isso já aconteceu eu estando presente. E também entra outra coisa: aquele mesmo cidadão tem uma filha que é uma querida pessoa, mas ele faz questão que seja governadora. E ele próprio é senador pelo Amapá. É um outro tipo de plutocracia e eu não concordo, e olha: não há nada de pessoal.

Verena Glass - Diante de todo o trabalho de pesquisa que o senhor fez até hoje, existe alguma coisa que se possa fazer para começar a sanar o problema do Nordeste?
Aziz AbʼSaber - Primeiro lugar, pensar o Nordeste como um todo, identificar os sertões porque as pessoas de fora sempre tiveram uma idéia errada sobre a realidade específica de cada região. Se vocês quiserem fazer uma coisa boa, é procurar o Atlas do Império do Brasil, de 1868, feito pelo tataravô desses Mendes, Cândido Mendes. O autor colocou os nomes das diferentes comarcas sertanejas, respeitando as denominações do povo. As comarcas significaram o mapeamento das células espaciais do sertão. Então, se o governo fosse inteligente, aquele mapinha mostra quais os sertões que precisam ser cuidados dentro de sua realidade específica, usando as cidadezinhas como pólos de desenvolvimento econômico, social e cultural.

Marina Amaral - E os sertões são muito diferentes entre si?

"Paro assim num lugar, tinha três senhores, e pergunto: “É muito rústico aqui esse sertão de Cabaceiras?” A pessoa virou e respondeu: “Que rústico nada! Esse é o melhor clima do Nordeste”. E eu pensando: “E, agora, o que eu faço com a minha geografia, que pensei que era deserto?"

Aziz AbʼSaber - São muito diferentes em termos das precipitações e também do ritmo das chuvas. Tem um lugarzinho no sertão, chamado Cabaceiras, na Paraíba, fica entre o sertão e o agreste, um dia resolvi ir lá. Por quê? Porque lá chove 268 milímetros por ano, em média, um ano um pouquinho mais, outro um pouquinho menos. Eu digo: “Então está perto de deserto”. Porque os livros do meu tempo de aluno dizem o seguinte: “Os desertos sempre recebem menos de 200 milímetros”. Lá era um lugar que estava um pouquinho mais, eu queria ver se era deserto. Chego lá, com um aluno, paro assim num lugar, tinha três senhores, e pergunto: “É muito rústico aqui esse sertão de Cabaceiras?” A pessoa virou e respondeu: “Que rústico nada! Esse é o melhor clima do Nordeste”. E eu pensando: “E, agora, o que eu faço com a minha geografia, que pensei que era deserto? Aquele era o lugar de menor total de precipitação do Nordeste”. Continuamos a conversar e ele disse: “Sabe por que não é muito seco? Porque aqui tem chuvinha o ano inteiro”. Aí fui ver nos dados meteorológicos e constatei que quando cessam as chuvas de inverno, que vêm do leste, sucedem as chuvas de verão, vindas da Amazônia, que atingem setores altos do relevo (serras úmidas) e deixam grandes espaços desprovidos de precipitação adequada. Aquele lugar é medianamente alto e por isso o homem tinha razão.

Verena Glass - Professor, se a gente for pegar do ponto de vista bem prático, mesmo? Volto a perguntar da solução dos problemas.
Aziz AbʼSaber - Sabe o que eu faria? Em primeiro lugar, em cada um desses lugares-chaves eu formava um “armazém do sertão”; ele teria três partes: o armazém para comprar as coisas produzidas, a preços regionais, para aguardar a estação seca. Segundo lugar, todos os produtos necessários para alimentação do tipo cesta básica seriam colocados a preços praticamente sem lucro. E, em terceiro lugar, dava um jeito de incentivar todos os processos para o resguardo e a proteção da água. No Nordeste, as pessoas dispõem de três processos mínimos para conservar a água durante a seca. Primeiro, bem no alto sertão, tem uns lajedos assim, parece um lagartão no meio do terreno, e tem umas cavidades por dissolução, e aí fica um pouco de água, se desenvolve uma plantinha aquática superficial que não deixa evaporar essa água – essa é a forma mais rústica de ter água e o que se obtém é menos que a água de um banho nosso para atravessar seis meses de seca, se não houver repiquete. Repiquete é a seca que prolonga a seca anterior, isso está lá no Euclides da Cunha. A outra maneira é o potão, esses potes que são vendidos aqui como decoração, altos, ficam sob a beira do telhado das casas, em lugares em que o sol bate menos, para não evaporar. Eles vão guardando aquela água, religiosamente, nas estações chuvosas fica uma série de potões para a água de beber e cozinhar, mas não dá para o gado, se ele tiver um gadinho já não basta. O terceiro fato é que, nas casas maiores, como na pensão em que eu estive em Campos Sales, tinha uma espécie de despensa escura e uma caixa como se fosse o começo de uma sepultura e cheia de água. Por que no escuro? Para não evaporar. Mas isso só na pensão que eu vi. Bom, agora vamos ao poço. Para você achar água de poço numa região semi-árida como a do Nordeste, tem dois problemas: primeiro, onde existem rochas cristalinas, a rocha decomposta é muito rasa; e, segundo – esse é o grande problema –, o lençol freático desce abaixo do nível do leito do rio, não há condição de você, na época seca, obter a água.

Marina Amaral - Ela se esconde.
Aziz AbʼSaber - Se aprofunda e seria muito trabalhoso chegar até lá embaixo e depois, no período chuvoso, muda o volume, o que criaria outros problemas. Outra coisa – ia esquecendo o quarto setor natural: toda a gente que mora na beira dos rios, os beiradeiros, tem um conhecimento hidrológico superficial fantástico. Então, está aqui o rio, na jusante tem uma soleira rochosa e na montante tem outra igual, ambas próximas. Entre esta soleira e aquela, tem areia de fundo de rio e o nordestino sabe que tem a água ali embaixo mesmo na estação seca. Aí, eles fazem uma pequena cava e encontram a água. Os meninos vêm com seus jegues e os pipotes e tiram aquela água pelo buraco da cava. É a grande tarefa dos meninos para as populações beiradeiras. Esse sistema dá água de beber, mas não dá água para o gado, o que não seria um problema tão grande nas cidades mais próximas do açude. Aí o que ocorre é que os fazendeiros compram a preços aviltados a água que vem dos açudes do governo, é uma coisa séria.

Sérgio de Souza - Mas é um problema também econômico e político, porque as fazendas, até de certos políticos, são verdadeiros oásis, como a do Inocêncio Oliveira, por exemplo.
Aziz AbʼSaber - Claro. Esse aí encontrou água subterrânea num setor sedimentar próximo. Eu fui lá, em Pernambuco; ele encontrou água nesses terrenos sedimentares perto de Serra Talhada, nas propriedades dele. É muito ruim uma pessoa ter o direito da água do subsolo. E as outras? O que eu proponho é que, nos lugares onde se fizerem furos e se encontrar grande volume de água subterrânea, seja feita a desapropriação num entorno de alguns hectares, e aquela água seja distribuída para os proprietários da região, e não o sujeito ficar com toda aquela água toda só para ele.

Marina Amaral - O plano do Raul Jungman o senhor chegou a ver? Aquele que agora virou ministro da seca?
Aziz AbʼSaber - Na minha opinião, esse rapaz é autoritário, incompetente e não vai resolver nada do problema das secas. Tenho acompanhado as respostas e as falas dele na televisão, e ele só está interessado em defender o governo dele, então prefiro não comentar.

Sérgio de Souza - Professor, o que o senhor tem a dizer sobre a crise energética?
Aziz AbʼSaber - Eu começaria pelo entendimento da matriz energética brasileira, é a primeira coisa que a gente precisa entender. Um país de 8 e meio milhões de quilômetros quadrados, com 7 milhões e 800.000 quilômetros quadrados de boa pluviosidade e portando drenados por rios, por bacias hidrográficas perenes. Perenes que chegam ao mar, portanto são rios – o nome técnico que a gente dá - exorréicos.

Marina Amaral - O que significa?
Aziz AbʼSaber - Tem rios arréicos, são os do deserto, acabou de chover um pouquinho, correu, parou. Tem endorréicos, rios de regiões secas e desprovidas de muita umidade, que caminham para dentro de um lago, uma depressão, isso é endorréico. E os exorréicos são aqueles que correm permanentemente e chegam ao mar. Todos os rios brasileiros, por um costado ou por outro, chegam ao mar, os afluentes do sul da Amazônia, os afluentes do Alto Paraguai...

Marina Amaral - E isso é uma vantagem?
Aziz AbʼSaber - É uma vantagem porque não saliniza. É a única grande vantagem que o Nordeste tem. Uma vez, até dei um pouco de risada do Celso Furtado com essa brincadeira. Ele escreveu na revista Senhor o seguinte: “O pior de tudo é que os rios aqui do Nordeste todos escorrem para o mar e jogam sua água no mar”. Mas essa é a grande vantagem, se eles corressem para dentro, estava tudo salinizado e aí não se produziria nada e seria muito pior. Então, o Brasil é um país de riqueza extraordinária em recursos hídricos. Ocorre que, em função disso, a matriz energética é substancialmente baseada em barragens de rios, o número de pontos de obtenção de energia fora a energia hidráulica é muito pequeno, certo? Outra coisa ligada a matriz energética de qualquer país são linhas de transmissão, gasodutos e oleodutos. E no Brasil são três infra-estruturas indispensáveis. Por quê? Trata-se de um país muito grande, onde os períodos de chuva não coincidem com o território total. É interessante trazer parte da energia que sobra numa região para regiões que têm menos. Então, os problemas da infra-estrutura de transmissão passam a ser essenciais. Mas são muito caros e o controle e o gerenciamento disso não são fáceis. Quanto ao gasoduto, temos dois problemas. Existe o gás da bacia de Campos, da bacia de Santos um pouco, e o da Amazônia ocidental, na região do Urucum. Mas tudo isso precisa de gasodutos e outras coisas mais que não estão totalmente implantadas e até, às vezes, estão mal planejadas. Então, o que acho que era preciso que o governo fizesse? Em primeiro lugar, terminar todas as obras que foram começadas e estão paradas. Existem lugares que têm as turbinas, mas não foram implantadas. Segundo lugar, queira ou não queira, o problema de energia nuclear. Todos os países do mundo que não têm a matriz que temos estão usando nuclear. Então, termina aquelas três usinas e dá uma colaboração importante para o Brasil sudeste, mas com mais proteção em relação ao entorno, para não acontecer o que aconteceu na Rússia...

Verena Glass - O que é que se faz com o lixo atômico?
Aziz Ab´Saber - Isso tem que ser estudado. Todos os lugares do mundo têm esse problema. A energia nuclear não nasceu como uma coisa líquida e certa, ela tem seus problemas. Agora, isso não me compete. Muitas soluções técnicas vão aparecer no mundo inteiro, nos próximos tempos. Só que o problema político é o momento da crise. Os meses de agosto e setembro são os meses mais secos de qualquer parte do Brasil, aqui você sabe que tem chuvas de verão, depois sabe que, na hora da chegada das massas frias, em pleno inverno, tem chuvas de inverno. À medida que o inverno vai passado, vira esse calor que temos aqui. E, de repente, esse calor se estende para agosto. Em agosto vem o ar quente de noroeste. E quase sempre é mês seco, e setembro é mais seco ainda. Bom, anunciado isso para o governo, ele já começou a pedir o racionamento. Estava certo. Só que as ameaças que ele fez para o racionamento são humilhantes, desnecessárias, porque bastava o exemplo das elites de baixar o nível da luz que tudo modificava, tudo ficava diferente. E o atendimento que São Paulo deu para o apagão é uma coisa que honra todas as classes sociais de São Paulo, até os burgueses, e os empresários das fábricas e dos supermercados. Honra, porque mostra que é uma população briosa. Isso não seria fácil em outro lugar do mundo.

Sérgio de Souza - Sob essa ameaça de ter uma baita multa, de ter corte, as pessoas se apavoraram...
Aziz Ab´Saber - Foi ameaçador demais sem ter necessidade. Foi um terrorismo muito forte, acima do normal. Agora, o governo não conhece bem os anos secos e os anos chuvosos. Nas universidades se desenvolveu um estudo sobre a dinâmica climática. Para descobrir o quê? A variabilidade. Uma coisa é mudança climática ao nível dos tempos geológicos. Outra coisa é a variabilidade natural do clima em cada área. Porque as massas de ar não são fixas. Ora têm mais força, vão mais para dentro, ora ficam mais atrasadas. É o jogo de massas de ar que cria a climatologia dinâmica do Brasil. Até o povo sabe: “Ah, está chegando a massa de ar frio, a massa polar”. É assim que dizem. Mas não sabem que tem massa de ar equatorial tropical, equatorial continental, tem a massa de ar tropical continental, tem a massa de ar que vem do Atlântico, tropical atlântica, e tem a massa de ar polar atlântica, que significa a massa que vem do pólo e vai aquecendo um pouco, mas quando chega aqui ainda é muito fria. Então, deu-se o nome, em vez de massa de ar polar, de massa de ar polar atlântica, para evitar a idéia de que o pólo está chegando no Rio Grande do Sul, vamos dizer. Um grande climatologista brasileiro, Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, fez um estudo absolutamente detalhado de um ano seco e de um ano mais chuvoso, ele chamou “ano padrão seco” e “ano padrão chuvoso”, onde? No Estado de São Paulo. Chama-se A Dinâmica Climática do Estado de São Paulo, é um atlas deste tamanho. Eu distribuí quando era diretor do Instituto de Geografia, foi editado no Instituto por iniciativa minha. Foi distribuído para vários lugares, mas ninguém fala desse atlas do Carlos Augusto e do Instituto de Geografia, mas já se sabe que tem variabilidade climática. Então, a desculpa do governo: “É o clima que está ficando ruim”. Não é isso, não. O governo tem que saber que há uma variabilidade climática. Mas, como ninguém estuda nada no país, não sabe os conceitos de ano padrão seco e ano padrão chuvoso.

Carlos Azevedo - Existe uma variabilidade climática ou está havendo uma mudança climática?
Aziz AbʼSaber - A mudança climática existe para as grandes metrópoles. Por exemplo, São Paulo tinha no começo do século – e sabemos disso através de anotações feitas em um pequeno observatório quase que particular de um especialista abnegado, Belfort de Matos – 18,2 de temperatura média, e hoje tem a média de 20,3, mais ou menos. Portanto...

Carlos Azevedo - Houve uma mudança.
Aziz AbʼSaber - Houve. Provocada por ações antrópicas, tamponamento do solo, construtivismo. Cada casa é um tampão da natureza.

Carlos Azevedo - No interior, também não tem havido mudanças, professor? A região de Presidente Prudente – sou de lá – parece cada vez mais seca, mais quente de quarenta anos para cá...
Aziz Abʼ´Saber - A retirada de florestas de zona tropical aumenta o teor do calor, certamente. Porque aí a luminosidade, energia, bate no solo e não reflete mais.

Carlos Azevedo - E só pastagem, também.
Aziz AbʼSaber - Pois é, a pastagem extensiva. As galerias da área da cana e do pasto foram retiradas sem que houvesse gestões da parte do município ou do Estado suficientes para garantir que pelo menos essas galerias ciliares fossem preservadas. Então, houve mudanças. Só que o jogo dessas mudanças ficou incorporado ao jogo das massas de ar e os rios continuaram a correr, continuam sendo perenes. O que mostra que houve compensação, felizmente para nós, paulistas. Mas as cabeceiras de drenagem nas áreas muito devastadas se foram. Só corre água quando chove. Na hora em que você devasta a cabeceira, influi no olho-dʼágua, aquele que manteve a primeira saída da água, a que se concentrou nas árvores conforme a chuva foi caindo nas folhas, descendo pelos galhos e entrando em canaletas. Por isso, a gente precisa preservar a cabeceira. E a primeira coisa que o brasileiro faz nos morros, colinas, chapadões e tabuleiros é tirar a floresta das cabeceiras. É uma tradição horrível.

José Arbex Jr. - Quando o senhor falou de mudança climática, não mencionou esse problema da Convenção de Kyoto, não tem nenhuma relação com isso?
Aziz AbʼSaber - Tem. Mas a Convenção de Kyoto cuidou mais da poluição e do buraco de ozônio...

Marina Vergueiro - Emissão de gases...
Aziz AbʼSaber - Emissão de gases e outras coisas mais. Desde o começo da era industrial, foi progressiva a emissão de gases atmosféricos, até que chegou num quadro muito dramático neste fim de século 20. Então, têm surgido várias fórmulas para ou compensar essa emissão, através de uma captação, esse é o Projeto Floran, depois eu falo para vocês, ou para penalizar – mais ou menos como nesse nosso racionamento forçado – os que poluem, Kyoto foi nessa fase. Desde algum tempo alguém quer lucrar com a poluição, há especulação com todos os espaços e todas as coisas. Todo espaço virou mercadoria, foi a melhor descoberta que os geógrafos jovens do Brasil fizeram, eles dizem a toda hora: “Hoje, todo espaço é mercadoria, se eu puder tirar dinheiro da pedra, eu tiro”. Aliás, há coisa de pouco tempo houve um projeto de duas pessoas para instalar, na Pedra Grande de Atibaia, lá em cima, um hotel. Alguém foi chamado para planejar etc., um cidadão queria vender lotes na base da Pedra Grande. Das coisas da minha vida, foi a mais extraordinária, eu compareci a uma reunião em que os ambientalistas, que naquele tempo não eram tão “ONGs” como são agora – porque ONG tem de todo tipo, algumas até muito boas –, mas, naquele tempo, comparecíamos em blocos na Câmara Municipal. Então, entramos. Primeiro, a mocidade que sempre nos acompanhava, depois as pessoas que iam falar, os professores – eu e mais outros –, depois entraram os vereadores, e, por último, as duas pessoas que queriam tirar dinheiro da Pedra Grande e suas encostas. As duas já estremeceram, porque todo aquele aparato ali, a mocidade aguerrida... aí falou um, falou outro etc. Aí falei, expliquei como é que se formou a Pedra Grande, que era um Pão de Açúcar deitado, e que não devíamos repetir o caso do Pão de Açúcar em Atibaia, e que poucas pessoas iriam para aquele hotel, que seria um hotel paradoxal e bizarro, que, por outro lado, lá em cima havia cactos e bromélias relictos de uma vegetação mais ampla que havia entre 23.000 e 12.000 anos atrás, que não podia ser eliminado, e pau, pau, pau. “Agora, se vocês quiserem, na base da Pedra, fazer chacrinhas, que elas fiquem sob o controle dessa mocidade que tá aí e se conservarem a transição entre o pedrão e a mata, o máximo possível da cobertura vegetal”. Virou-se um dos dois interessados, a que ia fazer o hotel, famosa empresária teatral, e disse: “Ah, depois disso que o professor Aziz acaba de falar, vou ser sincera: a Pedra Grande é da gente de Atibaia e eu retiro o meu projeto”. O outro a acompanhou: “Eu também retiro”. Foi a cena mais dramática da minha vida em termos de defender algo, ecológica e ambientalmente. Atibaia deve isso a muitos de nós.

Aziz-i3Verena Glass - E o Projeto Floran, professor?
Aziz AbʼSaber - No Projeto Floran, o que aconteceu foi o seguinte, o Werner Zulauf, que era uma pessoa da área ambiental mais técnica, técnico de lixo... Um parênteses: estou furioso com as pessoas que me dão cartãozinho, “técnico de lixo”, eu digo para eles: “Por que você não põe ʻtécnico do metabolismo urbanoʼ? Fica muito mais bonito”. E porque é muito mais do que lixo, a cidade recebe coisas de fora, tem trânsitos fantásticos, emite para cima, e emite para os rios, isso se chama metabolismo urbano, moderna-mente. E não se fala em metabolismo urbano neste país, a cidade dotada da maior complexidade desse metabolismo no mundo talvez seja São Paulo, e não tem um estudo a respeito. Tem que existir uma equipe para fazer isso, e repetir o estudo de cinco em cinco anos, no mínimo, para ver se a conjuntura melhorou ou piorou. Mas, voltando ao Floran: o Werner foi para a Alemanha e, num congresso lá, um cientista alemão, daqueles que não conhecem bem os trópicos, nem o Brasil, virou para ele e disse: “Vocês têm um país de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, por que não plantam árvores por toda parte, para captar o gás carbônico acumulado na atmosfera? Isso atuaria na recuperação da sanidade ambiental a favor de toda a população”. Quando o Werner voltou da Europa, foi falar com o reitor da USP, que era o professor Goldenberg, ele gostou da idéia, chamou o diretor do Instituto de Estudos Avançados e disse: “Se vocês conseguissem fazer um trabalho no sentido de captação do gás carbônico que está na atmosfera, à custa de florestas plantadas de qualquer tipo, não sei qual, seria uma coisa muito boa para o país e para o prestígio do Instituto”. O diretor do Instituto, o professor Jacques Marcovitch, me chamou e começamos a trabalhar: Aziz, Werner e um cientista catalão, Leopoldo Rodês. Foram 34 dias sem parar, sábado, domingo, feriado, e as coisas foram acontecendo. De repente, eu digo: “Peraí. Aquele alemão, que disse isso, disse em termos gerais, mas como indicaremos espaços adequados para o plantio das árvores? O nosso problema número um é onde plantar tantas árvores”. Aí fizemos uma reunião com os empresários de papel e celulose e um deles disse: “Olha, esse projeto é muito bom, desde que vocês nos indiquem quais as áreas que poderiam receber grandes massas de florestas”. Bateu com o que eu já tinha percebido – eu não vou plantar árvore na propriedade de quem não quer a árvore, não vou plantar árvore na rua, no cantinho, não vai dar nenhuma massa suficiente para poder capturar gás carbônico. Aí a gente procurou ver todos os lugares do país que poderiam receber árvores em quantidade e também distinguimos, no trabalho, florestamento de reflorestamento. Florestamento seria plantio de árvores de qualquer parte formando grandes bosques e grandes plantações, e reflorestar é reintroduzir as espécies nativas em pontos críticos do espaço ecológico, esse é o conceito. E o Projeto Floran adquiriu outra conotação, de social forests, tornando-se mais racional e aceitável. O Werner gostou do projeto e foi falar com o Lutzenberger, que dirigia a Sema, Secretaria de Meio Ambiente, em Brasília, no governo Collor: “Trago aqui para você uma coisa muito importante para o país”. Infelizmente, o Lutzenberger não gostou de receber tal tipo de projeto logo no início da gestão. Pouco tempo depois, vários repórteres foram falar comigo, dei uma idéia do que era o Floran, saíram umas notinhas assim, de três quartos de coluna, nos jornais paulistas. O Werner foi mostrar para o Lutzenberger, mas ele manteve sua posição inicial desfavorável. Resultado: o Projeto Floran foi abortado logo de início em termos de governo. Depois, os nordestinos vieram para mim: “Professor, o senhor conhece o Nordeste, já provou isso nos seus trabalhos, vai fazer o favor de projetar um Floran Nordeste seco”. E tive que elaborar o projeto em poucos dias, para agradar os nordestinos, porque já tinha lido trabalhos sobre o papel da cobertura vegetal para evitar força de vento e, sobretudo, a evaporação no domínio das caatingas. Foi um dos melhores trabalhos da minha vida o Floran Nordeste seco, no qual ninguém reparou, a não ser algumas pessoas do Nordeste mesmo. Mas, como sempre, eles não têm recursos. Nessa hora é que entra o poder. Não temos poder nenhum para fazer isso. Isso tem que ser incentivado e implantado por autoridades federais, estaduais e municipais. O Floran ficou lá, resguardado, esperando o momento em que autoridades sensíveis, razoáveis, decidam implantá-lo. Recentemente fiz um adendo ao projeto defendendo a implantação imediata de hortos municipais para respaldar, em um prazo oportuno, o deslanche do projeto nas diferentes áreas estudadas. Claro que a Amazônia, o Pantanal e as áreas de agricultura comprovadamente econômicas e bem-sucedidas não fazem parte dos espaços preferenciais de implantação do Floran.

José Arbex Jr. - Professor, queria que o senhor fizesse um balanço da Universidade de São Paulo hoje, à luz da política do governo Fernando Henrique para a educação.
Aziz AbʼSaber - Quando falo que há uma dicotomia entre o poder e o conhecimento, estou pensando no conhecimento seletivo, da melhor qualidade, que é produzido nas universidades. Mas a universidade tem um grande problema, ela não é uma máquina de produção em nível de qualidade sempre elevado. Tem gente que produz razoavelmente, sincopadamente, tem outros que se dedicam mais ao ensino, recorrendo à recuperação do conhecimento, e tem outros que estão preocupados apenas com sua carreira e projeção de seu próprio nome. Mas as universidades todas têm uma mocidade fantástica. Quando falo com o pessoal da Faculdade de Direito, fico boquiaberto com a reação deles. Um dia desses, a turma do Centro Acadêmico XI de Agosto foi lá em casa para conversar sobre o problema em que estou trabalhando – populações da periferia, para entender comparativamente os espaços públicos abertos de São Paulo. Tem parques metropolitanos, parques distritais, jardins e parques de bairros, parques geriátricos, parques para adolescentes, parques para crianças, todo um rol feito por Garret Eckbo, um dos maiores paisagistas da América. Resolvi entender o que precisaria existir como parque em lugares onde não há nada, e comecei a estudar a geografia dos pequenos espaços onde as crianças não têm água limpa para beber, não se alimentam direito, não têm roupas, mas jogam bola da manhã à noite. E estou propondo um projeto de minivilas olímpicas/Clube da Comunidade, mas com muitas estratégias. A estratégia principal aprendi com o motorista que me levou num desses bairros e me disse: “O senhor sabe uma coisa, o narcotráfico se desenvolve muito entre as crianças da periferia porque as mães não estão próximas. Se houvesse um jeito de aproximar as mães do lugar onde as crianças estão brincando, jogando, atrapalharia aqueles que estão querendo encontrar passadores de crack, de droga. E as mães, inclusive, poderiam falar na segurança sem ser juradas de morte”.

Sérgio de Souza - O senhor está percorrendo todas as periferias?
Aziz AbʼSaber - Primeiro, propus um projeto piloto na chamada Cohab adventista. Em segundo lugar, a gente tem feito incursões na zona leste, Itapevi, Carapicuíba etc., falando disso. Não entrei ainda na favela. A favela eu considero o próximo passo para ter minivilas olímpicas desse tipo, mas é um desafio pelos problemas sociais e pela exigüidade do espaço. Nos bairros carentes, a resposta é muito boa. Consegui descobrir as líderes da Cohab adventista que falam melhor e pensam melhor que presidente e governador. A educação é uma preocupação antiga para mim e, através de minhas viagens e reflexões, consegui estabelecer um sistema de educação no Brasil. Considero a educação a recuperação do conhecimento acumulado em todos os espaços culturais do mundo. Mas é preciso ser seletivo e aí entra o segundo ponto: dadas as características do território brasileiro, é essencial conhecer a regiona-lidade das crianças, adolescentes e de suas famílias. Eles já conhecem muito, mas a escola tem de trabalhar para integrar e organizar esse conhecimento. É isso que vai evitar soluções cômodas para os que não querem resolver os problemas como a imigração ou a rotina improdutiva nas cidades, campos e florestas. Por fim, o terceiro bloco, indispensável, é o da criação de oficinas, para integrar também na tecnologia o conhecimento regional e o universal, convidando especialistas quando possível. Então, por exemplo, na beira do Amazonas, se aprenderiam as várias maneiras de construir embarcações, consertar motores. E poderia haver algumas atividades específicas para as meninas, ao lado dessas que são para todos, como a recuperação do artesanato, da medicina tradicional. Esse sistema educacional desmonta a idéia de que a educação tem de ser igual no mundo inteiro, sendo útil para todas as comunidades em que esses jovens estão integrados.

José Arbex Jr. - Mas e a USP, professor, o senhor estava falando...
Aziz AbʼSaber - Pois é, a USP tem seus problemas. O último surgido é a proliferação de fundações. Os professores não concordam com os ordenados que têm e isso levou a alguns da área econômica a fazer fundações que concentram dinheiro e depois o distribuem, não para muitos. Mas os alunos descobriram que eles aplicam dinheiro e cobram. Greve geral. Invadiram o Conselho Universitário. E os alunos estão sofrendo um processo tremendo, mas são inteligentíssimos. Eles quebraram a porta do Conselho Universitário e pagaram. Se cotizaram e pagaram o conserto. O que mostra que o Brasil tem umas coisas aí... A polícia de Salvador me impressionou. Aquilo foi um motim fantástico. Minha mulher, que eu digo que é muito política, outro dia me disse: “No tempo da escravidão tinha os feitores. Os feitores do capitalismo selvagem são os policiais, controlando toda a situação dessa pirâmide disforme que temos. E eles resolveram dizer não: ʻSe vocês querem que a gente seja feitor, têm que pagar maisʼ ”.

Sérgio de Souza - Para encerrar, é hora de almoçar, dizem que o senhor gosta de cozinhar, é verdade?
Aziz AbʼSaber - Não, eu não sou cozinheiro, sou incentivador da cozinha. Nessas minhas tarefas na periferia aos sábados e domingos, às vezes incentivei as líderes a fazer um sopão. Eu brinco com elas: “Mas um sopão de rico, o mais gostoso possível para todos vocês”. Depois incentivei a fazer a feijoada, só que os meninos que conhecem feijoada diziam: “Professor, tá muito pobre, tem pouca carne, é uma feijoada muito light, mas é gostosa, nós comemos”. Em outra ocasião, ensinei a fazer o arroz de carreteiro, lá do Rio Grande do Sul, e aí comecei a explicar por que surgiu essa diversificação de culinárias, e um dia estava explicando para meninos e mocinhas, virou-se uma delas e disse: “Professor, eu quero fazer nutrição na faculdade e o senhor já me deu a primeira aula”. Achei engraçadíssimo isso, mas observei que tem uns efeitos. Tratei culturalmente da culinária tradicional, e agora, quando estive em Portugal, vi o arroz ao tomate, e é muito fácil de fazer, vamos ensinar o arroz ao tomate. Um dia, a líder de lá disse: “Pois é, o senhor ensinou uma porção de coisas, mas não ensinou da minha terra, eu sou mineira, e o tutu de feijão não foi feito ainda”. Eu digo: “Agora é bom pra vocês inventar isso, porque aí fica quase completo. Sopão, arroz de carreteiro, feijoada, arroz ao tomate, e tutu à mineira”. Voltando ao sopão, vocês sabem como eu idealizei o sopão? Eu era menino de 4, 5 anos, meu pai, em São Luís do Paraitinga, me levou até o largo, perto da igreja matriz, num dia de eleição, e estavam enormes caldeirões – do tipo das fazendas de escravo – na praça, alinhados, com uma sopa desde a manhã, aquela água enorme, meia dúzia de pedacinhos de carne de terceira, sem um condimento, sem uma salsinha, sem um coentro, nada, e sem uma coisa para engrossar a água, aguado demais. Perguntei ao meu pai: “O que é isso, pai?” Ele disse: “Filho, isso é coisa muito séria, eles chamam isso de afogado. E o que é afogado? É a sopa que eles dão em dia de eleição pro pessoal que vem da roça votar neles”. Foi a primeira vez em que vi o problema da discriminação feita pelas elites políticas da cidade.

 

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