Mariana: Se a mídia se calar

Especial Mariana
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Se a grande mídia se calar, as Águas Passadas falarão

Por Sávio Tarso
Fotos: Nilmar Lage
 
Quanto tempo vai durar o interesse da grande mídia na tragédia de Mariana (MG)? O esquecimento dos meios de comunicação e a histórica falta de memória do povo brasileiro são fatores que podem resultar num fracasso das lutas pela reparação da destruição provocada pela Samarco e da recuperação total da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Daqui alguns meses, o silêncio da imprensa pode ser fatal e fazer essa pauta soar como águas passadas.
O risco disso acontecer é grande. Basta lembrarmos das quase mil mortes no deslizamentos de terra que assolaram diversos municípios na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, em 2011. Como estão as famílias das vítimas? As cidades se recuperaram? O que ocorreu com os recursos enviados pelo Governo Federal?

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Foz do Doce, em Regência

Uma provável repetição dessa ladainha de perguntas sem respostas levou os fotógrafos Nilmar Lage, Pedro Bastos e Rodrigo Zeferino, de Ipatinga (MG), cidade no Vale do Rio Doce, a empreenderem uma grande missão: percorrer toda a extensão do Rio Doce e, permanentemente, nos próximos dois ou três anos para manter a sociedade informada do que realmente se passa com esse complexo hídrico brasileiro. Surge então o projeto das expedições Águas Passadas. “Daqui a seis meses ou um ano, já vamos ter um material para estudos comparativos científicos, históricos, jornalísticos, da área humana e social com um volume de informação e imagens que reuniremos nesse período. Entretanto, o principal e, mais poderoso, será o nosso olhar artístico para amplificar a sensibilidade e chamar atenção para esse e para os próximos momentos. As fotografia terá o papel de tocar as pessoa e assim mobilizar em cada uma a vontade de fazer sua parte em defesa do Rio Doce”, afirmou Pedro Bastos.

Em pauta

Os artistas guerrilheiros acreditam que essa visão poderá conservar o interesse da população manifestado até aqui. Aliás, reivindicado como prioritário após veículos como a Rede Globo simplesmente terem abandonado essa pauta em função dos atentados terroristas na França. Bastos é enfático em dizer que fará de tudo para recuperar o significado da beleza de pertencer a um rio: “Esse rio passa na minha porta. Nasci e cresci com ele no fundo do meu quintal. Eu tenho uma ligação profunda com esse rio. Existem milhares no planeta Terra, esse é o meu. Tenho algo de especial a dizer sobre o Rio Doce”.

Da foz ao fato: Sonhos e pesadelos
 
Assessorada pela bióloga Natália Sant’ana, a expedição Águas Passadas já percorreu a foz do Rio Doce, em Regência (ES), dois dias após a lama ter atingido o mar. No período de 12 a 15 de novembro, Pedro Bastos e seus companheiros ouviram relatos de nativos e ambientalistas sobre a derrubada de oitis, árvore típica da Mata Atlântica, para a entrada de tratores na praia.

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Em casa atingida pela lama, ainda resta imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, considerada "padroeira da América Latina"

Depararam-se com  muitos animais mortos e buscaram aproximação com a população para entender como se comportavam após a chegada da lama tóxica. “Choveu, me escondi com dois nativos debaixo de um trator da Samarco. Eles pensaram que eu era um repórter e estavam prontos para dar entrevista”, testemunhou o fotógrafo.

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Colunistas

Mineração: E o chão se abriu

A segunda viagem ocorreu, entre os dias 2 e 5 de dezembro, rumo ao olho do furação ou da tragédia, nos distritos de Paracatu de Baixo e Bento Ribeiro, ambos de Mariana. Nessas comunidades, o olhar aguçado de quem pretende retratar com poesia uma realidade já saturada pela mídia foi guiado pela voz de Wilson Emiliano dos Santos, 75 anos, do Sítio de Perdigão. Ele é um sobrevivente da tragédia, morador de um lugarejo próximo a Paracatu de Baixo também devastado pelas águas e a lama venenosa. Como suas vaquinhas estão ilhadas num terreno mais alto e sua mula de estimação se foi com o restante dos pertences, o senhor Wilson parece ainda não entender realmente o que houve com o único lugar que chamou de sua casa. Sem jamais ter saído do sítio, a não ser por motivo de doença ou trabalho, ele aguarda algum sinal da Samarco ou dos governos para se reencontrar com seu passado.

A descrição que esse típico homem do interior faz do local atingindo nos remete a um dos símbolos da mineiridade: o sonho de ver o mar. “Hoje tudo virou praia, mas praia que não se pode brincar”, adverte Wilson se referindo à contaminação por substâncias tóxicas nas águas do Doce, no lamaçal e toda a área.

De fato, a paisagem nos lembra o litoral, nos ilude à primeira vista. Por alguns instantes, o pensamento se deixa levar pelo sonho de pisar na areia e experimentar o sal da água marinha, como muitos mineiros fazem um dia. Entretanto, o devaneio fugaz se dissipa na turbidês do barro. É quando percebemos que o fotógrafo Nilmar Lage foca objetos do cotidiano das pessoas: um diploma na parede, roupas no varal, um lençol de cama e uma imagem de Nossa Senhora. Coisas que não nos deixam dúvidas, os sonhos de milhares e milhares de mineiros viraram pesadelo nacional e planetário.

Maratona de imagens

Seguindo as curvas do rio, encontrando atalhos por entre os escombros, revelando o que não é do interesse dos veículos de comunicação, a expedição busca patrocínio para manter a prospecção de relatos e imagens sobre a tragédia do Rio Doce. Pedro e Nilmar acreditam que será fundamental estar na ativa até 2017, quando o interesse midiático terá diminuído drasticamente.

“O desastre se tornou um fato incrível que gera notícias e dinheiro para a grande mídia. Daí a loucura por busca de informações e imagens para o jornalismo. Isso não passa de imediatismo. Nós vamos para lá com outro ritmo, devagar, mas constante e, como um maratonista, queremos atingir longas distâncias. Queremos conhecer uma pessoa hoje e reencontrá-la seis meses depois”, explicou Pedro Bastos.

Além de postadas em sites, blogs e redes sociais, a fotografias da expedição poderão ser vistas em exposições itinerantes nos municípios atingidos e um livro em versão impressa e online.

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