Mariana: Samarco faz teatro para “inglês” ver

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Samarco faz teatro para “inglês” ver

Por Sávio Tardo
Fotos: Nilmar Lage 

 

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Boias da Samarco na foz do Rio Doce: ação tardia

Resgatar espécies de peixes, lançar bóias para conter a lama, enviar tratores para tentar desobstruir o leito assoreado do rio no seu caminho para o mar. Essas são as ações que a Samarco empreendeu desde a chegada da mancha de sujeita e barro ao pequeno povoado de Regência (ES), foz do Rio Doce. Atitudes que seriam nobres se não fossem apenas para encenar uma falsa reação positiva da empresa diante do ocorrido. “Parece um grande circo”, garante o geógrafo Miguél Saldanha que reside na comunidade e, também é pesquisador do Observatório de Conflitos no Campo (Occa), instituição ligada à Ufes.

As medidas aconteceram 48h antes da lama atingir o litoral no último dia 10 de novembro. Um enorme aparato com funcionários, caminhões, maquinários e até um helicóptero foram descolocados para a localidade no mesmo dia em que centenas de jornalistas do Brasil e do mundo também se apressaram para chegar até lá afim de registrar o evento.

“Tudo foi um teatro, algo próximo ao desespero. Do ponto de vista técnico e, sobretudo em relação ao prazo, as ações foram descabidas. A Samarco teve tempo suficiente para se antecipar e chegar dois dias antes da lama, mas se atrasou e entrou de forma totalmente vertical nas relações sócio-ambientais tendo em vista a fragilidade socioculturais do povoado”, assegurou o cientista.

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Colunistas

À beira de um novo conflito global

Ocupações: Luta da periferia? 

Santuário ecológico e refúgio de surfistas de todo o País, Regência era só tranquilidade absoluta. Em menos de dois dias, passou a atrair os olhares curiosos do mundo e viu sua rotina mudar completamente. Da aldeia à globalização. Os cerca de 1.500 moradores transformaram-se em figurantes de um longa-metragem no qual o objetivo era mostrar para o mundo que a Samarco não estava de braços cruzados.

“A instalação das boias, quando a lama já está dissolvida na água, é inútil. Elas servem de contenção de óleo para efeito de estritamente de superfície. Portanto, a medida foi muito paliativa, unicamente para efeito visual”, complementou Saldanha.

Peojeto Tamar

Na luta pela preservação de tartarugas marinhas, as areias de Regência é território sagrado para os ecologistas. O também surfista Miguel Saldanha Miguel lamenta a invasão dos tratores, balsas, motos e carros 4x4 nas praias restritivas onde funciona uma unidade de conservação do Projeto Tamar: Ttínhamos atitudes regradas no local. Não podíamos acampar, fazer fogueira, permanecer de noite e levar animais. O que não podia ser feito durante décadas, está ocorrendo agora”.

Cooptação e balcão de contratação

Miguel denuncia a cooptação dos nativos para forjar toda a cena: “Contrataram todos os pescadores para evitar uma revolta de toda comunidade. Um verdadeiro balcão de contratação foi montado para dar ocupação para uma população que vivia de pesca e turismo. O desastre retirou os empregos formais e informais, mas em nenhum momento a comunidade foi chamada para discutir uma plano de recuperação ambiental e econômica. Ao invés disso, estranhamente, muita gente também foi paga para enterrar os peixes mortos, sob ordens da Samarco. Ou seja, uma nova versão para o lixo jogado para debaixo do tapete”. 


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Pescadores em Regência (ES) são contratados pela Samarco para enterrar peixes: cooptação financeira

O pesquisador entende que todas as ações realizadas até o momento foram a partir de uma tomada de decisão “vertical e desrespeitosa”, uma vez que não foi negociada e sim imposta à comunidade. Berço de pescadores e indígenas, Regência representa um grande patrimônio da biodiversidade brasileira. É o ponto de encontro dos ecossistemas do Nordeste e Sudeste brasileiros e a porta de entrada para o Parque Nacional de Abrolhos.

“Utilizaram de desinformação e não valorizaram o conhecimento do povo da terra. Coletar peixes, dois dias antes, para tentar salvar espécies da extinção é questionável. Se fosse para realmente resgatar a fauna marinha e também garantir o estoque de peixes para abastecer a comunidade até tudo voltar ao seu normal, a ação deveria ter iniciado há mais tempo. Pedimos para as autoridades represarem a lama em Aimorés. Nada foi feito, o resultado foi a degradação socioambiental ao longo de todo médio e baixo curso do Rio Doce. Por fim, chegou inevitavelmente até aqui”, sentenciou Miguel.

A pesca foi proibida e toda a população agora sobrevive dos serviços que a Samarco oferta. Até quando vai durar esse espetáculo de imagens para a mídia global, não sabemos. Só aguardamos o desfecho final, instante em que as tramas se relevam e as máscaras caem para que o público e a crítica possam julgar os heróis e os vilões desse roteiro de mortes, destruição, mentiras e armações dentro do enredo dramático da maior tragédia ambiental do País.

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