Mariana: Candidatos a heróis e outras histórias

Especial Mariana
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Candidatos a heróis e outras histórias
 

Por Sávio Tarso
Fotos: Nilmar Lage
Especial para Caros Amigos

Passadas duas semanas do fatídico rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG), um sentimento transborda nas ruas, nas casas, nas mídias e nas redes sociais: a sensação de que o desastre é uma história com muitos vilões, quase nenhum herói. Executivos, políticos e autoridades são apontados como prováveis responsáveis pela tragédia. Moradores, comerciantes, ribeirinhos e a nação brasileira são as vítimas, mas onde estão os heróis? Eles existem? Quando surgirão para nos redimir à glória? Será esse um apocalipse em que só as figuras celestiais, todos os santos padroeiros e divindades, escapariam do julgamento final?

Mariana2 Ponte Perdida Nilmar Lage i2Pelo visto, essa indagação perturba-nos à medida em que não observamos com nitidez a capacidade da sociedade civil, dos movimentos ambientalistas e do próprio Estado de, no curto e médio prazo, esboçarem propostas claras e contundentes de recuperação do Rio Doce. Então, o que dizer deste momento estarrecedor diante de um rio praticamente morto. Ressuscitá-lo se apresenta como uma tarefa descomunal, digna dos grandes feitos da História da Humanidade. Quem se candidataria para liderar esse trabalho de Hércules?

Resistência

Nessa hora, o melhor é ter um olhar retrospectivo e buscar inspiração no passado de lutas da própria Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Palco de batalhas homéricas entre colonizadores europeus e povos indígenas dos séculos XVII e XIX, o nosso rio registrou num episódio mais recente, o sinal de uma vigorosa esperança. 

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Especial Mariana

Colunistas

À beira de um novo conflito global

Em 1973, políticos mineiros ensandecidos resolveram cindir a Mata Atlântida para construir uma ponte que ligaria Timóteo a Caratinga, ambas em Minas. A obra representaria uma ferida aberta e consequentemente deixaria a floresta sangrar até a morte com o desmatamento e a ocupação desordenada ao longo de suas margens. Seria o começo do fim do Parque Estadual do Rio Doce, fundado uma década antes. A unidade de conservação abriga a maior floresta tropical de Minas, segunda maior do país, em seus 35.970 hectares e foi a primeira unidade de conservação estadual criada em Minas Gerais. (mais aqui). 

Entidades mineiras, como o Centro de Conservação da Natureza e a Sociedade de Ornitologia, capitaneadas pelos ambientalistas Hugo Werneck, Mário Viégas, Angelo Machado e Célio Valle mobilizaram a sociedade e obtiveram uma das grandes vitórias do movimento ecologista no Brasil. Abandonada por desuso, hoje a velha ponte de concreto armado e ferro é um imenso troféu exposto sobre as águas do Rio Doce envolvida no manto da floresta. Conhecida como Ponte Perdida, a estrutura serve de entreposto para o trabalho de conservação e fiscalização do Parque. Esquecida como milhares de ruínas governamentais espalhadas pelo Brasil afora, tornou-se um símbolo de resistência que aponta caminhos para o futuro do Vale do Rio Doce.
 
Amadorismo e Anonimato
 
Uma das características marcantes dos heróis é sua capacidade de surpreender. Nossa incursão na Ponte Perdida não foi em vão. Após alguns cliques para relevar a imagem da destruição junto a esse totem sagrado da história do Rio Doce, um homem com uniforme camuflado e máquina fotográfica na mão surge no meio da mata como Rambo nas florestas tropicais do Vietnã. O esteriópico perfeito do redentor do 1º mundo contra as forças do mal.

Seu nome é Tiago Franco. Um vendedor de carros que aproveita as horas vagas para se embrenhar no mato em busca de sons de pássaros e da emoçãoMariana2 TiagoFranco Nilmar Lage i de estar perto da Mãe Natureza. Indignado com a tragédia, decidiu percorrer trechos do rio, fotografar peixes mortos, bancos de minério e o lamaçal. Divulga todos os dias seus depoimentos e seus registros visuais como forma de chamar o povo mineiro para a guerra. “Os capixabas estão muito mais revoltados e atuantes. Apesar do estrago ter sido maior aqui, é impressionante a passividade com que nós mineiros estamos reagindo. Temos que ser mais firmes com a Samarco e com os governos”, bradou.

O amadorismo e o anonimato do nosso candidato a herói inesperado não o esmorece. Ele não demonstra estar perdido como a ponte e até nos ensina novas trilhas para outras reportagens. Parece um lobo solitário farejando o seu alvo num ponto distante. Parece a onça desconfiada que visita, de vez em quando, o funcionário do Parque do Rio Doce, morador da ponte, que agora também é um centro de estudos da biodiversidade. Parece uma espécie em extinção. Esperamos que não. Sobre a condição dos legalmente e institucionalmente consagrados como defensores do Rio Doce, falaremos mais nas próximas matérias.

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