"Nós traímos a sociedade"

Para Ciro Gomes, sucessao de erros do governo petista e tentativa de cooptaçao de forças progressistas e conservadoras determinaram destino de Dilma 

Na defesa da democracia e contra o golpe que afastou a presidente Dilma Rousseff do governo, Ciro Gomes vem galgando bons espaços, até mesmo tornando-se uma espécie de estrela das redes sociais, com declarações que marcam posição firme ao mesmo tempo que abrem caminho para mostrar-se como opção política para 2018, o que ele não esconde e faz questão de antecipar. Mas apesar do apoio ao governo, também busca manter certa distância ou evitar comparações com o Partido dos Trabalhadores (PT), ao menos por enquanto, nessa tentativa de mostrar-se como alternativa, tanto ao PT, quanto à direita.

Ciro acompanhou os bastidores do impeachment e do cercamento ao governo Dilma, deu conselhos e se diz irritado com a sucessão de erros políticos – e algumas fraquezas – da presidenta e sua equipe, principalmente na relação com o Legislativo, mas também com setores produtivos, como os ruralistas e a indústria. Parte desses bastidores e parte do que ele considera erros do governo estão na entrevista abaixo, na qual também é abordada a sucessão em 2018, a possível continuidade do golpe e como seria um governo com a marca Ciro Gomes, cuja personalidade, já conhecida, pode ser atestada nesses vários vídeos que circulam na internet, como aquele em que expulsa, “na mão”, jovens que estavam em frente ao prédio onde mora seu irmão, Cid Gomes, fazendo manifestação de direita.

Confira abaixo.

Wagner Nabuco – Os aumentos de tarifas solaparam a moral do governo Dilma, especialmente na classe média. Mas como manter o preço da gasolina?
Ciro Gomes –
Não tem isso, é mentira. Sabe quanto custa um barril de petróleo? Trinta dólares. Sabe quanto a Petrobras cobra aqui dentro, por ordem política nossa? Do seu bolso, do meu, do seu? Noventa e oito. Nós demos à Petrobras um preço político pra compensar as merdas que aconteceram, as perdas no balanço, o endividamento absurdo. E como ela é estatal, o investidor privado não reclama dessa ingerência absurda, chega até a fazer você acreditar que a gasolina brasileira estava mais barata do que devia.

Wagner Nabuco – Mas nós estávamos importando, pagando R$ 10 e vendendo a R$ 8… Por quê?

Porque abandonamos o programa de refino, de investimento da Petrobras. E você podia perfeitamente, eu sugeri a ela por escrito, entreguei a ela por escrito, ela me pedindo... Eu disse: “Vamos fazer coisas aqui que a gente pode reverter a expectativa. Não vai fazer milagre, mas reverte expectativas e desconstitui o consenso que vai dar no seu impedimento, só tem essa saída. Se não desconstituir o consenso, você tá no chão”. Óbvio, tudo obviedade, filme velho. E aquelas antas dos meus amigos Jacques Wagner, (Ricardo) Berzoini não estão vendo nada. Como é que o governo em um primeiro ano de mandato, com um presidencialismo à brasileira, não consegue arrumar um terço dos votos? (necessários para barrar o impeachment).

Wagner Nabuco – O isolamento é absurdo.

Repare bem. A tarifa de energia elétrica foi a grande besteira. E o erro é, de novo, a mentira. Por que que não faz diluído ao longo do tempo uma tarifa que seja pactuada. Vocês lembram, eu prefeito de Fortaleza, inflação 20% ao mês, 15% ao mês, imagina um negócio desses. O povo desorientado, assumo na sequência da Maria Luiza Fontenelle, aí confusão na tarifa de ônibus. Eu digo: “Meu irmão, não tem confusão comigo. Vai ser uma planilha de custos, vou pactuar com a população e o ônibus tem que ser não só barato, mas ser limpo, seguro e funcionar”. Então, a tarifa vai ser o que for, se precisar subsidiar, vai ser do tributo, mas não vou descontinuar serviço. Foi zero dia de greve. “Meu irmão, o seguinte: não pode faltar energia. Então, tem uma conta aqui a mais” e faz isso seletivo. Cacete, mandou 74% de aumento na tarifa de energia no dia seguinte da eleição. Eu digo: “Dilma, isso não se faz”. Então, você pega os 74% bota mais seis meses do que seria o ônus e dilui isso em 24 vezes com juros. E aí vou pingando, 2% num mês, 3% no outro, 5% no outro, tudo se faz.

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Deixem o funk em paz!

Por MC Leonardo

O funk foi acusado por todas as mídias e pela polícia de ser o causador de um arrastão que aconteceu em 1992 na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Mesmo sem ter uma única prova do que estavam afirmando, as polícias civil e militar sustentaram esta tese e se deu início a uma caça às bruxas em plena democracia recém-constituída. O ano de 1993 começava com o funk sem ter motivo pra comemorar.

Mesmo com muita perseguição, alguns produtores não desistiram, e eis que os festivais de galera descobrem os MCs, e os raps fazem o funk se reinventar. Tudo o que se falava no funk tinha que dar uma satisfação à sociedade, até a paz, por todos os MCs muito exaltada, de uma forma ou de outra tinha que ser explicada. Foi assim que o funk viveu seus melhores momentos nos anos 1990 no Rio de Janeiro.

Até que em 2002, com o assassinato do jornalista Tim Lopes, o funk volta a ser acusado por algo que nada tinha a ver com ele. Mesmo com os horários diferentes entre a filmagem que o jornalista queria fazer e a realização de um baile na Vila Cruzeiro, a Central Globo de Jornalismo insistiu em dizer que ele tinha ido filmar um baile funk. A polícia, dessa vez não embarcou. As investigações da polícia civil mostraram que não era a intenção de Tim Lopes filmar baile algum, mesmo assim, a mídia quando vai falar do caso insiste em culpar o funk.

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A luta geopolítica por trás do impeachment

por Luis Vignolo

O destino da América Latina está em jogo no Brasil. O gigante sulamericano é o centro da maior luta geopolítica continental desde o fim da Guerra Fria, batalha disfarçada de julgamento político e crise interna brasileira. O resultado do conflito é incerto. Ainda é possível que fracasse a manobra para destituir a presidente constitucional Dilma Rousseff e ela retome o exercício de seu cargo. Inclusive, se conseguirem derrubá-la em definitivo, a sorte do atual governo interino não estaria assegurada. A fragilidade de Temer se acentua devido à crise econômica e aos novos escândalos das gravações que revelam a trama oculta do impeachment.

Ainda que sua gestão deixasse de ser interina, dificilmente poderia eliminar a possibilidade de eleições antecipadas, única opção que devolveria legitimidade plena ao sistema. Se Dilma e Lula triunfam, seja porque dois ou três senadores mudem seu voto no julgamento político, ou através das eleições antecipadas, então o Brasil manterá sua vocação autonôma frente ao poder dos EUA, bem como sua liderança latino-americana e seu protagonismo nos Brics, rumo a uma nova multipolaridade global.

Por outro lado, se o governo interino tornar-se definitivo, teríamos como resultado um Brasil subordinado aos ditames estadunidenses, sem protagonismo latino-americano, nem nos Brics. Como consequência, a América Latina seria novamente balcanizada, fragmentada através dos tratados de livre comércio (TLC) de última geração, bilaterais ou plurilaterais como o Tratado Transpacífico (TPP), e os acordos militares com EUA e Otan. As transnacionais do complexo industrial-militar-financeiro localizadas em Washington fariam valer seus interesses. Em consequência, o desenvolvimento industrial, científico e tecnológico brasileiro latino-americano ficaria novamente estacionado.

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A direita avança

Por Vitor Taveira

No campo político das esquerdas, no início do século 21 os olhos do mundo se voltaram para a América Latina. Ao longo dos anos, novos governos progressistas, impulsionados por anos de organização e luta popular contra o neoliberalismo, assumiam o poder presidencial em diversos países, a chamada “onda progressista”. Ao longo do tempo, o subcontinente se tornara um verdadeiro “laboratório” de experiências renovadoras e inspiradoras enquanto a Europa se debatia atordoada diante do avanço de políticas de austeridade.

Porém, nos últimos anos, e mais intensamente nos últimos meses, a fragilidade do chamado “ciclo progressista” latino-americano vem sendo exposta, e a direita avança por vias eleitorais ou não em diversos países, incluindo os mais fortes econômica e geopoliticamente.Na Argentina, Mauricio Macri foi eleito democraticamente com uma plataforma à direita. No Brasil, Michel Temer tomou posse provisoriamente já adiantando câmbios significativos com direcionamento neoliberal. Em dezembro de 2015, depois de anos de hegemonia do chavismo, pela primeira vez a direita conseguiu maioria legislativa na Venezuela, gerando ainda mais dificuldades para o presidente Nicolás Maduro, que enfrenta graves problemas econômicos, políticos e sociais.

O governo de Evo sofreu uma derrota ao perder em fevereiro o referendo que possibilitaria mais uma tentativa de reeleição. Nas eleições municipais ainda em 2014, a Alianza País, partido de Rafael Correa, perdeu nas três maiores cidades do Equador, e o presidente governa enfrentando protestos tanto à esquerda como à direita. No Peru, o fujimorismo é favorito a voltar ao poder e, nas recentes eleições da Guatemala, também venceu a direita. Além das mudanças no tabuleiro político, há impressão de que os governos progressistas perderam sua capacidade e energia inspiradora e transformadora dos primeiros anos.

Diante dessa situação surgem diversas questões. O chamado “progressismo” está se esgotando? Quais seus avanços e limites? Por que a direita ganha força? O que tem de novo nessa direita? Para entender a atual conjuntura, Caros Amigos ouviu importantes pensadores do continente.

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Primavera secundarista

Por Fania Rodrigues

“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, preconizou Ernesto Che Guevara, símbolo máximo da juventude rebelde da América Latina. Foi com esse espírito que estudantes secundaristas do Rio de Janeiro se levantaram contra as más condições das escolas, baixos salários dos professores e precariedade na educação. Já em São Paulo, o estopim foi a chamada reorganização escolar proposta pelo governo de Geraldo Alckmin, que previa o fechamento de centenas de escolas, e, depois, em protesto contra o “ladrão da merenda” e pela abertura da CPI da Merenda na Assembleia Legislativa de São Paulo, com o objetivo de investigar o desvio de verbas na compra de merenda escolar.

As pautas são amplas, mas podem ser resumidas à vontade de maior participação nas escolhas da vida escolar e por uma educação pública de qualidade. No Rio de Janeiro, entre as reivindicações de todos os colégios ocupados estão as melhorias na estrutura da escola, eleição direta para diretores, reajuste salarial para os professores, diálogo aberto com as diferentes instâncias de poder ligadas à educação, participação dos alunos na escolha das disciplinas e matérias do currículo escolar, liberdade para criar grêmios – o que em algumas escolas é proibido.

Esses dois movimentos reacenderam o debate sobre o papel do jovem na política e inspirou escolas de outros estados. Atualmente, no Rio de Janeiro, mais de setenta escolas estão ocupadas há quase três meses. No Rio Grande do Sul, 150, 52 no Ceará, 27 em Goiás, quatro no Paraná, quatorze em Mato Grosso. Em São Paulo foram mais de duzentas escolas ocupadas e os secundaristas conseguiram refrear a reorganização escolar. A criação da CPI da Merenda foi resultado da pressão feita pelos estudantes ao ocuparem, por quatro dias, a Assembleia Legislativa de São Paulo.

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CAPA

A encruzilhada da esquerda

Por João Peres

Quais forças estão dispostas a se opor a Michel Temer e companhia? Radicalizar a ação ou moderar o discurso? Como estabelecer pontes com a classe média e a periferia? Lutar pelo retorno de Dilma Rousseff ou pela realização de novas eleições? Qual o novo projeto de sociedade que queremos? A esquerda em tempos de golpe tem mais perguntas do que respostas. E, certamente, sanar dúvidas depende mais dos desdobramentos conjunturais que da (im)possibilidade de comandar a agenda política.

A primeira pergunta do horizonte imediato é bastante óbvia: como reagir? As primeiras semanas do governo provisório de Michel Temer confirmaram as suspeitas de que o golpe não era contra o PT, unicamente, mas contra tudo o que possa representar a esquerda. Apesar da pregação sobre união nacional, o peemedebista disse, em seus discursos iniciais, que é preciso ficar de olho nos movimentos de rua e que, na condição de ex-secretário de Segurança Pública, sabe lidar com bandidos.

A fala veio em seguida à tentativa do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de montar um acampamento próximo à casa de Temer, em Pinheiros, bairro de classe alta de São Paulo. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), que permite que a calçada da Avenida Paulista seja ocupada há meses por manifestantes antipetistas e pró-impeachment, ordenou a repressão imediata dos contrários a seu aliado.

Sem se dar por satisfeitos em expor a contradição do tucano, os militantes do MTST foram à Paulista em 1o de junho e tentaram ocupar o prédio da Presidência da República situado na esquina com a Rua Augusta. Foram prontamente reprimidos e não puderam sequer ficar na calçada, a mesma ocupada pela turma verde-amarelo, sob a acusação de que portavam rojões. Ao menos seis pessoas foram detidas. Semanas antes, militantes do MTST haviam sido acusados pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, de promover “atitudes criminosas” ao fechar rodovias e atear fogo a pneus.

Moraes, não por acaso, foi secretário de Segurança Pública de Alckmin e, antes de deixar o cargo, tachou de “atos de guerrilha” os protestos contra o impeachment. Longe de serem atos guerrilheiros, foram o que de mais forte se viu até agora na luta para reverter o golpe.

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Lumpesinato no poder

José Arbex Jr. 

“Ouvi aqui: ‘O Temer está muito frágil, coitadinho, não sabe governar.’ Conversa! Fui secretário de Segurança Pública duas vezes em São Paulo e tratava com bandidos. Sei o que fazer no governo e saberei como conduzir”, declarou o presidente interino Michel Temer, em 24 de maio, ao cumprir os primeiros 12 dias de governo, logo após a renúncia de Romero Jucá da pasta do Planejamento.

Dando ênfase às suas palavras, Temer dá um murro na mesa, para mostrar que ele sabe, mesmo, governar. Estabelece, portanto, uma equiparação, um sinal de igualdade, uma identidade entre “governar” e “tratar com bandidos”. Nada e ninguém poderia definir de modo mais preciso e exato o que significa a entrada de Temer no Planalto. O bando que tomou o palácio, por ele chefiado, não tem um projeto de País ou, sequer, um plano de governo. Não tem qualquer estratégia endereçada a satisfazer as demandas de uma sociedade atingida por uma gravíssima crise econômica, com todas as suas consequências, incluindo a principal, o desemprego. Não tem nada a oferecer, a não ser mais miséria e repressão: ordem e progresso, nas palavras do próprio Temer.

As primeiras semanas de governo já mostraram que as suas ações cumprem, apenas, o propósito de revogar as poucas conquistas sociais asseguradas pelos governos petistas, com o objetivo de alcançar o superávit primário destinado a engordar os cofres de banqueiros, especuladores e financistas mafiosos, e garantir as condições políticas para o processo de contínuo saqueio das riquezas nacionais. As medidas incluem, em suas linhas gerais, corte de verbas para o sistema público de educação e saúde, ataque ao sistema previdenciário e trabalhista, privatizações aceleradas de estatais, e a permissão para a exploração irrefreada e sem controle do subsolo, da biodiversidade e das riquezas naturais (tudo devidamente assegurado pela medida provisória 727, de 13 de maio, que garante ao “mercado” o patrocínio de meios fornecidos pelo Estado, mediante o estabelecimento de “parceria de investimentos”). Este é o seu horizonte: não há mais nada além disso. Ponto final. Inútil tentar encontrar, por trás de suas ações governamentais, os ensinamentos de uma escola ou orientação filosófica qualquer, de uma doutrina econômica, de uma concepção sobre como deveriam ser estabelecidas as relações entre Estado e sociedade. Não há o que discutir, argumentar, raciocinar. A selvageria foi instalada. É simples assim.

O seu emblema bem poderia ser a foto do encontro, em 25 de maio, entre Alexandre Frota e o ministro da Educação Mendonça Filho, quando o estuprador confesso pediu o fim da ideologia política e de gênero nas escolas (no mesmo dia, aliás, em que, por uma ironia do destino, eclodia o escândalo de uma adolescente vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro). Os atos do presidente policial prenunciam um caos muito maior do que o deixado pela hedionda ditadura militar. O regime dos generais, ao menos, era portador de uma visão de País que implicava um projeto de industrialização capaz de gerar 10 milhões de empregos.

Os generais tinham uma visão de futuro, do lugar que o Brasil deveria ocupar entre as nações, independentemente, é claro, da opinião que se possa ter sobre a qualidade e a natureza de seu projeto. O “milagre brasileiro” aconteceu: entre 1969 e 1974, a economia cresceu a um ritmo de 10% ao ano. Quando os militares foram apeados do poder, em 1985, deixaram um País dotado de certa infraestrutura industrial, com uma classe média minimamente consolidada. A atual gangue no Planalto não tem nenhuma visão de futuro. Não tem compromisso com qualquer sistema ideológico, nem sequer com o neoliberalismo dos anos 1990, anunciado pelo Consenso de Washington, cujos profetas pretendiam articular um discurso supostamente civilizado, em defesa das “virtudes do mercado” e contra o autoritarismo do Estado (nada mais contrário ao pressuposto neoliberal do que, por exemplo, a já mencionada MP 727). Mas, tampouco se trata de um governo neoconservador, como o chefiado por George Bush, nos Estados Unidos. Não é neoconservador, por não pretender conservar coisa alguma. Ao contrário: não tem respeito por qualquer tradição, instituição ou costume característico da vida nacional (não por acaso, quis eliminar, logo de cara, o Ministério da Cultura, considerado um inútil consumidor de verbas). Nem desenvolvimentista, nem neoliberal, nem neoconservador: a gangue de mafiosos chefiada por Temer não está vinculada a qualquer sistema ideológico coerente, nem preocupada com a construção de coisa alguma. É formada por representantes da lumpemburguesia, disposta a rifar o País, se isso lhe render lucros.

Os principais integrantes da gangue são, todos, associados ao capital especulativo transnacional, seja por vínculos diretos com o mercado financeiro (banqueiros e especuladores), seja por associações ao agronegócio e ao mercado de títulos e commodities negociados em bolsas de valores de mercados futuros. A própria base de sustentação da camarilha que habita o Planalto ofereceu uma demonstração disso, no fatídico 17 de abril, quando foi votada pela Câmara dos Deputados a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Os deputados provocaram consternação mundial, mesmo entre aqueles que apoiaram o movimento pelo impeachment, ao mostrar a sua face patética, fundamentalista evangélica, crua e primária: até a “libertação de Jerusalém” foi invocada contra uma presidente legitimamente eleita. Mesmo o príncipe Fernando Henrique Cardoso reagiu com surpresa diante da falta de reação de seu próprio partido, o PSDB, à inacreditável apologia da tortura feita, na ocasião, por Jair Bolsonaro. Exatamente por não ter nada a oferecer, exceto mais miséria, fome e desemprego, Temer confunde “governar” com “reprimir”.

A polícia torna-se o grande eixo organizador da vida social. Mas, ao fazê-lo, Temer coloca-se em sintonia com o que está acontecendo no mundo em geral. Multiplicam-se movimentos neonazistas, fascistas, xenófobos e autoritários, em toda a Europa (onde o neonazista austríaco Norbert Hofer obteve 49,7% dos votos, no final de maio, quase abocanhando o cargo de primeiro-ministro) e nos Estados Unidos (onde são bem representados pelas duas faces da mesma moeda, Donald Trump e Hillary Clinton). Vivemos os desdobramentos bárbaros de uma situação caótica, exposta pela crise eclodida em 2007, que revela a fragilidade do edifício capitalista em agonia.

Os vários setores da burguesia mundial disputam entre si os espólios do que resta da economia mundial, e arrastam nessa disputa milhões de vidas ceifadas pela destruição de estados nacionais (como no caso da Líbia, Síria e Iraque), pela fome, por guerras e pestes. O mundo se parece, cada vez mais, com a descrição proposta por Margaret Thatcher: não há sociedades, há apenas indivíduos e suas famílias, que olham apenas por seus próprios interesses. Temer está em boa companhia. Resta apenas saber se ele conseguirá derrotar a resistência, cada vez mais ativa e maior, ao seu governo destruidor.

José Arbex Jr. é jornalista.

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DNA repressivo

Por Lúcia Rodrigues

O que parecia impossível, aconteceu. O Brasil sofreu novamente um golpe de Estado. Desta vez, os tanques não foram para as ruas. O ataque contra a democracia aparentemente se deu de maneira mais branda. Aparentemente, porque a contundência da agressão é bastante semelhante à das baionetas de 1964. Há quem diga que agora, de certa forma, é até pior, porque a derrubada da presidente se reveste com um manto de legalidade ao se escorar em decisões do Congresso om o respaldo do Judiciário. O ex-presidente da Comissão da Verdade de São Paulo, Adriano Diogo, é um dos que sustentam essa opinião. “Pra mim esse tipo de fechamento é pior, por- que diz que está dentro da lei, mas a gente sai na rua (para protestar), e apanha”, critica. 

A cada dia que passa, fica mais evidente que a demão de verniz que tentaram dar ao processo de impeachment em curso, se dissipa com as ações cotidianas do governo interino de Michel Temer. A retomada do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), agora com status de ministério, é uma das medidas que sinalizam o perfil ultraconservador que está sendo empreendido à gestão. Como se costuma dizer: “Já se vê na aragem quem vai na carruagem”. E quem está no comando da carruagem do GSI, que traz no porta-malas a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), responsável pelo setor de informações, leia-se monitoramento de ativistas políticos e movimentos sociais, é o general linha dura do Exército, Sérgio Etchegoyen. 

Temer já designou que ele coloque o Gabinete de Segurança Institucional para monitorar os movimentos do PT. Os tempos do velho estilo SNI, o Serviço Nacional de Informações da ditadura, parecem estar literalmente de volta. Etchegoyen não esconde que vê de esguelha organizações populares de sem-teto e sem-terra. A antipatia pela ideologia de esquerda se estende há quase um século pela  reditariedade militar dos membros da família. São três gerações de Etchegoyens no combate às lutas sociais. Seu avô, o general Alcides Gonçalves Etchegoyen, que nasceu em 31 de março, 63 anos antes do golpe militar, sucedeu o temido Filinto Müller, que comandou a polícia política no primeiro governo de Getúlio Vargas, na chefia de polícia do Distrito Federal.

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Festival Internacional da Utopia

Por João Pedro Stedile

No último final de semana de junho se realizou, na cidade de Maricá (RJ), o Festival Internacional da Utopia, fruto da parceria da Prefeitura Municipal com movimentos populares do Brasil e de todo mundo. A cidade tornou-se, durante estes dias, o centro internacional de debates, reflexões e cultura para pensar um novo mundo, não-capitalista, que ainda parece utópico, mas é mais do que necessário.

O município, sob a liderança do carismático prefeito Washington Quaquá, vem aplicando diversas políticas públicas revolucionárias a favor de sua população, que já tiveram reconhecimento nacional e internacional. É a primeira cidade a aplicar a tarifa zero no transporte público. Criou um programa de bolsa família próprio, com uma “moeda” local, que obriga os beneficiários a gastarem o benefício do crédito somente em estabelecimentos comerciais do município, incentivando a economia solidária. Construiu um enorme conjunto residencial para mais de 5 mil famílias e teve a coragem de homenagear ninguém menos do que Carlos Marighella. E está em construção um enorme hospital municipal, que já leva o nome de Hospital Doutor Ernesto Che Guevara.

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PMDB Michê: come no prato do Bank de Boston

Gilberto Felisberto Vasconcellos

Frederico Engels tinha razão: há labirinto na história. Os três presidentes da República que queriam limitar a remessa de lucros do capital estrangeiro foram apeados do poder: Vargas, Jango e, vá lá, Jânio. O Bank of Boston e mais trezentas empresas norte-americanas financiaram os golpistas em 1964.

A hora em que o presidente Lula convidou Henrique Meirelles, alto funcionário do Banco de Boston, para ser presidente do Banco Central, Leonel Brizola teve a certeza absoluta de que o líder metalúrgico não tinha constrangimento algum com a derrubada de Jango. O mesmo se diga de todo o PMDB e do PSDB inteirinho. Que se dane Jango. Haveremos de convir que nunca foi alvo do PT colocar o poder do Estado nas mãos da classe operária. Agora ouvimos a ladainha insuportável de que Temer vai salvar o Brasil. É isso o que propaga a mídia maliciosa e canalha, a paráfrase do capital estrangeiro sequioso por privatizar até os ossos dos santos e dos demônios com Moreira Franco, que foi o coveiro dos CIEPs no Rio de Janeiro.

Na política não há inocentes. Voluntária ou involuntariamente, o PT protagonizou o impiti de Dilma. A burocracia partidária petista adentrou-se no Estado, acumpliciou-se com o pior da direita e jogou no lixo o que se pensou acerca do imperialismo. De repente irrompeu na cena petista o manager do Banco de Boston, um mameluco cipaio parecido fisicamente com o mato-grossense Roberto Campos, que desembarcou por aqui todo coquete a fim de cuidar da autonomia do Banco Central. O gênio de Boston foi apresentado a Lula sem que nunca tivesse jogado com ele uma partidinha de sinuca em São Bernardo do Campo. É dispensável para os futuros historiadores indagar se foi ou não amor este primeiro encontro. Antes de ser o presidente do Banco Central do governo Lula, operou Meirelles a desastrosa privatização feita por Menem na Argentina.

O velho Brizola, que sabia das coisas, rompeu então com o governo Lula e expulsou do PDT o ministro Miro Teixeira, que votaria a favor do impiti de Dilma.Com Henrique Meirelles a finança comanda as perdas internacionais, o processo de intercâmbio desigual que perpetua a miséria do povo e o atraso do País. O impiti de Dilma teve o seu ponto de partida com a chegada de Henrique Meirelles from Boston. Tanto isso é verdade que estará dando as diretrizes, vindas do império, no Ministério da Fazenda do jurista Temer. O senador José Serra queria essa função e, seguramente entrará em atrito cordial com o homem de Boston. Mais do que um indivíduo, Henrique Meirelles é uma categoria econômica. Repita-se: Leonel Brizola sacou isso no momento exato em que Lula o nomeou para chefiar o Banco Central. Avisou a Lula, então todo pimpão como se fosse um novo Getúlio Vargas, que isso era palmilhar o caminho do partido capitalista dos trabalhadores.

Em 1989, com a sinistra vitória do caçador de marajás, Leonel Brizola inteirou-se de que Lula seria o agente do capitalismo videofinanceiro. Agente e, ao mesmo tempo, sua vítima. Daí a equação que hoje está vindo a lume: TV Globo e Boston – tudo a ver. La mierda, dizia Hegel, o autor preferido do juiz Sérgio Moro, é que a Minerva só alça voo ao entardecer. Karl Marx, a quem o PT nunca erigiu uma está- tua em praça pública, preferindo antes citar amiúde Ulysses Guimarães, adorava o aforismo do filósofo Spinoza: nem rir, nem chorar, e sim compreender. Estarrecidos e atoleimados, os deputados e senadores do PT não conseguem atinar para as causas da caquexia política e posterior derrubada de Dilma.

Eles ficam borboleteando em torno da mera aparência das coisas. Aécio Neves não aceitou a derrota nas urnas, Eduardo Cunha partiu para a vingança, os tubarões tucanos repudiaram o capitalismo filantró- pico, a Fiesp machista não suportou uma mulher na presidência da República. Fato é que a linguagem do PT reverberou as metáforas de mau gosto da Polícia Federal, e não compreendeu que a Lava Jato, em lato sensu, não era senão para desmoralizar a Petrobrás com o objetivo de internacionalizar a produção de energia.

Nenhum deputado ou senador petista percebeu a irracionalidade da expressão “pedalada fiscal”. Da insciência linguística sobreveio a inópia conceitual: todos os governos pedalaram, não houve “culpa de responsabilidade”. A linguagem forense é sempre de direita. Sem entender nada, o povo ficou boiando. A linguagem dominante é a da classe economicamente dominante. Perguntar não faz mal: por que essa classe, que é constituída pela burguesia bandeirante, resolveu tirar o PT do poder? Por que só agora o douto Bicudo deu as caras? Em um de seus manifestos da década de 20, Oswald de Andrade abriu o jogo: cuidado com as galimatias do Judiciário.

A Semana de Arte Moderna foi concebida para eliminar a linguagem bacharel da literatura. Oswald de Andrade estava por dentro dessa trapaça linguístico-jesuítica. Estudou Direito no Largo São Francisco. A reacionária e reprimida estudantada dessa faculdade de Direito quase linchou o casal Oswald-Pagu por dirigir o jornal O Homem do Povo. Eis os dois cancros de São Paulo que denunciaram o jornal: a faculdade de Direito e o café. Nessa época, no ano de 1931, não existia ainda o câncer PMDB. É triste ouvir Dilma falar em democracia republicana, que é um truque semântico usado por quem a derrubou. Democracia tucana é coisa do Iuperj. O advogado José Eduardo Cardozo é um petista incauto com cabeça liberal: a política, meu caro doutor, é movida por interesses, e não por argumentos.

Estamos vivendo em meio a signos telenovelizados. O código da política é telenovela ou programa de auditório. A peste telenovela está no ar há meio século. Ao se despedir do poder, Dilma desabafou: “Eu me sinto injustiçada”. Passemos ao próximo capítulo chamado a toalete de Marcela. A vida é bela na telenovela.

Gilberto Vasconcellos é jornalista, sociólogo e escritor.

 

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Lógica do governo golpista

Por Frei Betto

Na feliz expressão de Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Data Popular, “perder dói mais do que deixar de ganhar”. De fato, ninguém se queixa de viajar de ônibus de São Paulo a Belo Horizonte até o dia em que se vê em condições de cobrir o percurso em avião. Logo vê-se impossibilitado de voar e obrigado a viajar de novo por terra. Isso dói.

Essa dor da perda faz milhões de brasileiros se decepcionarem com o governo golpista de Temer. De cara, ele passou o rodo nos ministérios e secretarias especiais que, em treze anos de governo do PT, trouxeram avanços significativos em suas respectivas áreas: Cultura, Direitos Humanos, Mulheres, Juventude e Igualdade Racial. O ministro da Saúde ameaçou ignorar a Constituição e restringir o acesso dos brasileiros ao SUS.

Tentou ainda erradicar o programa Mais Médicos e enviar os profissionais cubanos de retorno à ilha. Teve de recuar. Quantos doutores brasileiros estão dispostos a atuar em regiões remotas do País junto à população mais pobre?

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Democracia e financiamento eleitoral

Por Otavio Helene 

A legislação que regulamenta o financiamento político no Brasil, de 1997, permitia, até setembro de 2015, que empresas fizessem doações para candidatos e partidos que poderiam chegar a 2% de seu faturamento anual. Eram vários os absurdos de tal norma. Primeiro, e antes de tudo, uma empresa não é um ente que possa ter poder político e jamais poderia ter influência eleitoral.

Um segundo absurdo é que quem faz a doação é a empresa e, portanto, os custos vão para o preço de seus produtos ou serviços, juntamente com as demais despesas, como salários, impostos, aluguéis, insumos e tudo o mais. Portanto, segundo aquela lei, quem de fato deveria arcar com todas as despesas das campanhas políticas seriam os consumidores, clientes, usuários, hóspedes, pacientes, passageiros etc., ou, caso a empresa em questão recebesse de órgãos públicos, os contribuintes. Ou seja, nós pagamos as despesas eleitorais de muitos candidatos e sustentamos muitos partidos políticos sem saber quais. 

Um terceiro absurdo: aqueles 2% do faturamento anual das empresas correspondem a valores altíssimos, na casa das dezenas de bilhões de reais. Isso levou, de um lado, a um encarecimento enorme das campanhas eleitorais e, de outro lado, transformou-as em uma disputa quase apenas publicitária: quanto mais eficientes os marqueteiros, maiores as chances de vitória de um candidato. A combinação desses fatores inviabilizou, com raras exceções, a eleição de quem não dispusesse dos necessários recursos para a campanha e reduziu a capacidade de se conquistar eleitores com base em militância e na disputa de projetos e propostas políticas. Com aquele limite de 2% do faturamento, as empresas podem eleger quantos legisladores quiserem: se não elegem mais, não é porque não podem, mas porque não precisam.

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O império no espaço

Por Aray Nabuco

Há uma virada na exploração do espaço sendo configurada a passos largos, sob a regência interesseira de grandes capitais, que esticam os olhos para o gigantesco horizonte cósmico. As tecnologias estão em pesquisas aceleradas, seja para vilas na Lua, viagens a Marte, guerras, pousos em asteroides, novas gerações de aeronaves e motores, sob o impulso de governos associados a grandes corporações, que sonham com as cifras de possível mineração espacial.

É o capitalismo ampliando seus negócios em escala astronômica e cada vez mais viável. Todo esse movimento tenta criar outra geopolítica do espaço exterior ao atropelo da comunidade internacional e dos interesses da humanidade, conforme estabelecido em acordos como o Tratado do Espaço, de 1967, e o Tratado da Lua, de 1979, que regem a relação dos países com os corpos celestes.

No fim do ano passado, os Estados Unidos aprovaram extensa lei que busca regular e tornar “competitivas”, leia-se lucrativas, as atividades espaciais nesse novo cenário de ambições, principalmente o transporte. Mas, de quebra, legisla sobre a exploração de corpos celes- tes na base, grosso modo, do “quem chegar primeiro é dono”.

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Cidadão do mundo

Por Laís Modelli 

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, de pais professores primários. O baiano sempre esteve muito ligado aos estudos e ao olhar político, tendo sido vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) na década de 1940, quando ingressou em direito da Universidade Federal da Bahia. Na década de 1950, atuou como professor de geografia na Universidade Católica de Salvador e na Universidade Federal da Bahia, época em que escreveu seu primeiro livro, A Zona do Cacau, criticando a monocultura. Paralelo à academia, era jornalista do A Tarde, onde chegou a editorialista; em 1959, tornou-se diretor da Imprensa Oficial da Bahia.

Em 1956, a convite do professor Jean Tricart, realizou seu doutorado em Estrasburgo, na França, um dos centros mais renomados de Geografia do mundo. Neste período também dedicou-se à África, região que lhe causava grande interesse. Dividido entre a Europa e a África, publicou o livro Marianne em preto e branco, em 1960, sendo a personagem uma figura feminina representando a França. Este era o primeiro passo para a carreira internacional. Do doutorado, publicou a tese “O Centro da Cidade do Salvador”, que tornou-se um clássico da geografia no Brasil.

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Céu imprevisível

Por Alexandre Matias

Encontrei com a Céu logo depois de ela ter terminado seu quarto disco e ela quase não cabia em si. Queria falar sobre o disco, queria mostrar o disco, queria dizer o nome do disco, dizer o que estava experimentando, o que havia inventado, quem havia participado. Mas sabia o quanto o sigilo era importante naquele estágio de gestação do álbum, que ainda estava tendo seu cronograma de lançamento agendado. A obra já estava terminada, o produto ainda não. Mas a vontade para mostrar o disco novo era tanta que ela preferiu trabalhar no campo subliminar, indo me encontrar vestida com uma camiseta do grupo paulistano Fellini. Confesso que a visão dela com a camiseta de uma banda tão importante para a cena independente brasileira quanto desconhecida do grande público me causou certo estranhamento, tanto que perguntei logo depois de nos cumprimentarmos. “Conheci faz pouco tempo”, ela me contou, empolgada, dizendo que estava escutando todos os discos da banda. Por mais que pudesse ter traçado uma conexão entre a banda paulistana e o novo disco dela (Céu lo-fi?) a dica invisível nunca me diria que ela estivesse prestes a lançar uma versão para uma das músicas do grupo. “Foi difícil escolher uma das músicas pra regravar”, ela me contou num outro encontro, quando já podia falar sobre o assunto.

Tropix, o disco que Céu revelou ao mundo no final de março, no entanto, passa longe das gravações de baixa fidelidade do Velvet Underground paulistano. O quarto disco da cantora é seu salto mais ousado, um mergulho na disco music e na pista de dança, na eletrônica e na vida noturna, no mundo digital e nos beats e loops. Um universo completamente avesso à aura rústica que ela carregava em seus ombros musicais, uma ambiência que cruzava a singularidade do reggae mais roots com a aspereza do samba mais cru, a tonalidade mais sépia da música latina e a candura da canção brasileira. Depois de discos de cores neutras, ela veio com um álbum preto, branco e prata, brincando com timbres sintéticos e com a linguagem digital.

E é tudo Céu. O disco foi produzido pela dupla Pupilo, o pulso preciso da Nação Zumbi, e Hervé Salters, o mago francês dos timbres eletrônicos por trás de projetos como General Elektriks e Honeycut. Conta com participações do guitarrista carioca Pedro Sá e da cantora paulista Tulipa Ruiz, tem canções coescritas com o goiano Dinho da banda psicodélica Boogarins e o pernambucano Jorge Du Peixe, vocalista da mesma Nação de Pupilo. Mas é tudo Céu.

A tradição do canto feminino no Brasil nos acostumou a tratar cantoras como intérpretes – que vão da simples definição do termo (em que basicamente cantam músicas compostas, arranjadas e produzidas por outros – quase sempre homens) ao limite da canção com o teatro (quando cantoras como Elis Regina e Maria Bethânia se entregam corporalmente à música). Mais uma das inúmeras facetas do secular machismo enraizado em nossas entranhas (e isso, de forma alguma, é demérito exclusivo do Brasil), sempre que pensamos em mulheres fazendo música, as vemos como musas escolhidas por homens talentosos ou controladores. Céu vira esse jogo. Porque seu disco é todo seu. Foi ela quem começou rascunhando as canções no computador, foi ela quem escolheu músicos e produtores, foi ela quem determinou o rumo a ser seguido, quem compôs as canções e deu o tom do novo álbum. Como em todos seus álbuns.

Ela é o João Gilberto de vestido que inventou essa nova bossa nova que gosto de chamar de música brasileira do século 21. Foi ela que mostrou para diferentes novas cantoras que não era preciso ter homens nos bastidores para determinar seu rumo. Foi ela também quem estabeleceu o parâmetro musical que não é preciso sublinhar forte os gêneros musicais em formação para se determinar pertencente a um clube A ou B de estilo musical, misturando tudo numa mesma sonoridade indefinível, ousada, mas, principalmente, pop. Tropix não é a nova joia em sua coroa de rainha da música brasileira: é o farol que determina o rumo daqui pra frente. Em seus três primeiros discos (Céu, Vagarosa e Caravana Sereia Bloom) ela traçou um perfil que ajudou a moldar a cena musical brasileira atual. Tal como João Gilberto cinquenta anos antes, não o fez de forma consciente, apenas deixou sua sensibilidade guiar o rumo. Mas acertou um nervo artístico que ecoou por diferentes artistas, cenas musicais, discos e shows. Injetou autoestima em uma cena musical que vivia sob a sombra de um cânone que parecia imutável. E mudou a cara da música brasileira.

Tanto que Tropix parece-se com outros dois discos de cantoras e compositoras que vieram depois dela. Tanto o Dancê de Tulipa Ruiz e Frou Frou de Bárbara Eugenia, ambos lançados no ano passado, disfar- çam-se de fúteis para passar mensagens bem fortes. Cada um apresenta uma sonoridade específica, todos os três fundados em cima de uma musicalidade brasileira que sucedeu a MPB dos anos 1970 e antecedeu o rock dos anos 1980. Uma atmosfera de pista de dança que ecoa a discoteca e os arranjos de Lincoln Olivetti, a carreira de Rita Lee após o grupo Tutti Frutti e os anos dance music de Gilberto Gil, a frugalidade de uma sonoridade de fácil absorção e com alto astral. Cada um deles chega dançando do seu jeito para revelar verdades mais difíceis de ser assimiladas do que o simples pop: Tulipa traz mestres como João Donato, Lanny Gordin e novos titãs como Felipe Cordeiro e o trio Metá Metá; Barbara entrega-se a mantras de autoconhecimento e às baladas intensas de Fernando Catatau e Tatá Aeroplano.

A superfície sintética e dance de Tropix guarda segredos densos e realidades flutuantes, como a própria versão que ela fez para “Chico Buarque Song”, dos acima citados Fellini, a latinidade teatral de “Sangria” e as três músicas que fecham o disco “Camadas”, “A Nave Vai” e “Rapsodia Brasilis”, cheias de cordas deslumbrantes, que apontam para um rumo completamente diferente da pista de dança (embora as duas últimas façam dançar). O que ela fará a seguir? Uma viagem à África? Um disco de música baiana? Uma visita ao Caribe? Uma busca pela canção interiorizada? Nem ela sabe. E assim ela consagra a imprevisibilidade não apenas como uma de suas principais características, como a de toda essa nova geração.

Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e dono do site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br) e também mantém um blog no Uol (www.matias.blogosfera.com.br).

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O teatro dos exilados

Fugindo das ditaduras do Cone Sul, atores e diretores buscaram o Brasil para reconstruir suas vidas – e acabaram transformando o teatro do País

por Eduardo Campos Lima

Nas décadas de 1960 e 1970, boa parte dos países da América do Sul sofria com regimes ditatoriais. Em todos eles, a perseguição política se estendeu à repressão de atividades culturais, fazendo com que uma geração de jovens artistas precisasse viver na clandestinidade ou partir para o exílio. Apesar do estabelecimento de uma política conjunta de inteligência, perseguição, prisão e assassinatos pelos países sul-americanos naqueles anos, a Operação Condor, muitos exilados acabaram vindo para o Brasil, buscando dar continuidade à sua atuação artística e reconstruir a vida em um novo País. “Na segunda metade da década de 1970, havia milhares de sul-americanos em cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Boa parte deles eram pessoas com nível universitário, intelectuais e artistas. Acredito que eles deram uma contribuição muito importante para o Brasil – o que foi um efeito inesperado da instalação das ditaduras em seus países”, analisa Reynaldo Puebla, diretor teatral argentino radicado em São Paulo desde 1979. 

O jornalista e crítico teatral, Valmir Santos, se dedicou a remontar a trajetória de um deles: o diretor de teatro peruano Lino Rojas. Vindo do Peru após a queda do presidente nacionalista Juan Velasco Alvarado, Rojas trouxe consigo a tradição do  teatro latino-americano independente. “Ainda jovem, participei do grupo de Lino Rojas na zona leste de São Paulo. Foi a primeira vez, por exemplo, que escutei falar de Enrique Buenaventura, teatrólogo colombiano disseminador da criação coletiva”, lembra. 

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Pampulha como exemplo

Por Gershon Knispel

Dias de crises profundas nos esperam. Aqui também, no Brasil, vai florescer uma nova vanguarda, que tem se mostrado muito curiosa sobre os vestígios dos movimentos de vanguarda mais importantes no século 20. Justo nos tempos de gravíssimas crises, choques sociais profundos, que pioram as condições da vida da população, seja aonde for, quanto mais deprimida e angustiada, mais louca fica a população dos marginais. São eles que levantam os movimentos da alta vanguarda a contribuir para o progresso profundo da humanidade.

Imagine a história da arte sem mencionar a vanguarda russa. O florescimento dela simultaneamente nos conflitos que se agravaram. A subida das multidões russas em cima das barricadas contra o fogo vivo das metralhadoras do exército czarista, preferem a morte em vez dessa humilhação, que pisa e acaba com os direitos humanos dos habitantes.

Enfim, a revolução de outubro levou à mais importante revolução do século 20. Foram as criações de Kazimir Malevich que abriram a era dos construtivistas, ou a vanguarda russa. Por exemplo, a Torre de Tatlin subindo ao espaço vazio. O mesmo Kazimir Malevich, que trocou Marc Chagal, então comissário da academia de arte na cidade russa de Vitebsk. Chagal era figurativo demais para Malevich, e se asilou voluntariamente em Paris. David Burliuk, Alexander Rodchenko, todos estão expostos na maravilhosa exposição Virada Russa no Centro Cultural do Brasil, em Brasília, Rio e São Paulo.

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Depois de nós

Sérgio Vaz

TE AMO
e sabendo que um dia
eu e você não estaremos mais respirando,
te amo mais ainda.

Porque a morte é um fato,
um dia levará nossos corpos
para além do que compreendemos
de outras dimensões.

Mas nossos beijos e abraços
que experimentaram o céu e o inferno,
entre saliva e suor
não cabem em nenhum outro espírito.

Te amo hoje
e nós que já morremos tantas vezes entre idas e vindas,
entre o silêncio e o ruído da despedida,
aprendemos a juntar os cacos de nossos corações partidos.

Te amo
porque quando não tinha pernas
você me deu seus braços
e quando você não tinha braços
caminhei por você.

Quando cuspi relâmpagos e trovão
lembro do seu sol no café quente pela manhã
e sempre que você chovia
estava ali drenando a tristeza para que você não afogasse em lágrimas.

Quem tem medo da morte
é porque não conhece seu adeus,
é morrer mil vezes em mil cruzes de saudade
estancadas no peito.

Mas quando volta, estendo minha alma cheia de pecado
no cabide do guarda-roupa
enquanto as roupas se estranham no chão,
sem tempo para preces ou oração.

Te amo
nesse minuto
enquanto um sorriso queima em sua face
e tua pele esfrega em minhas mãos.

Tiro fotografias porque gosto de ficar te olhando,
sei que nada é capaz de captar tua beleza,
você só se revela nas minhas retinas
e entre suas estrias e meus dentes cariados tudo é belo, encardido e não cabe no olhar de mais ninguém.

Te amo agora
acima da terra sob o azul do céu sem adiantos nem atrasos
porque sabe que não sou de chorar em cemitérios, (flores mortas para quem viveu tanto?!)

E para quem já experimentou a eternidade sabe que o amor não morre.
Depois de nós o mundo simplesmente acaba.

*Do livro Flores de Alvenaria (Global Editora)

Sérgio Vaz é poeta e fundador da Cooperifa.

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É golpe! É golpe! É golpe!

Por Marcos Bagno

É golpe, sim. O mundo inteiro reconhece, todas as forças políticas progressistas internacionais já aplicaram o rótulo certo e preciso a esse pesadelo que estamos vivendo no Brasil: é golpe. Um golpe muito bem analisado por Chomsky: o imperialismo estadunidense quer retomar o seu quintal, já se cansou de uma América do Sul querendo andar com as próprias pernas. Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia – é preciso golpear com força, com marreta pesada, aniquilar qualquer tentativa minimamente reformista que possa comprometer os mesmos e eternos interesses dos donos do mundo. A Argentina foi entregue a um governo que em poucos dias já mostrou a que veio: o número de cidadãos pobres e miseráveis aumentou exponencialmente. A Venezuela, atingida pela queda do preço internacional do petróleo, está a ponto de desabar, tanto por causa de um governo destrambelhado quanto, principalmente, pela conspiração das oligarquias, ansiosas por voltar a lamber as botas dos capatazes que falam inglês. Agora é o Brasil, onde uma presidenta legitimamente eleita é afastada pelo que há de mais abjeto, podre, corrupto, infame, reacionário no espectro social.

Nem é possível falar em “espectro político conservador”, porque não se trata de diferenças políticas, de diversidade de opiniões. Como declarou Dilma Rousseff numa entrevista, o termo “conservador” não cabe neste momento: “na realidade, são golpistas de direita”. Existem partidos conservadores honestos, que defendem suas posições ideológicas respeitando o jogo democrático. No Brasil, nada disso: temos uma máfia parlamentar, dominada por assassinos profissionais (a bancada da bala), por latifundiários escravocratas (a bancada do boi) e por sugadores da ignorância maciça da nossa população pobre (a bancada da bíblia). E agora um presidente interino notório informante da CIA.

Um governo de perdedores, em todos os sentidos. Perdedores. Mas o homem branco da oligarquia não suporta perder. Não admite ninguém mais no jogo. Só ele e seus iguais. Mulheres, já pro gineceu. Índios, pra debaixo da terra. Negros, na senzala. Gays, lésbicas e transexuais, no cemitério. Pobres, pra debaixo da ponte ou pra cima dos morros. Perderam quatro eleições. Não suportaram. Perder duas vezes para um ex-operário, nordestino sem curso superior que “fala tudo errado”? Perder duas vezes para uma mulher? Para uma MULHER? Horror dos horrores. Nada, nada, nada é pior neste mundo do que a vaidade ferida do homem branco oligarca. Nada. Ele mata por isso. Estrangula a mãe, eletrocuta o irmão, tortura o filho, estupra a filha. Enquanto o mundo estiver nas mãos dessa raça escrota, nojenta, imperialista, escravocrata, poluidora, hematófaga, não existirá liberdade nem igualdade nem democracia. Enquanto eles exercerem seus podres poderes, enquanto essa minoria mandar com um chicote na mão e o fuzil na outra, o resto da humanidade nunca encontrará a paz.

Pois são eles que estão aí de novo. Aliás, nunca deixaram de estar. O pacto conservador que os governos do PT estabeleceram não foi suficiente para apaziguar a avidez insaciável das eternas sanguessugas que há meio milênio controlam todas as estruturas sociais, políticas, econômicas do Brasil. Nunca o provérbio espanhol “Cría cuervos y te sacarán los ojos” me pareceu tão cabível numa situação. Nunca o perigo de “dormir com o inimigo” esteve tão evidente. E o resultado está aí: um golpe, sem mais nem menos. Um golpe contra tudo e contra todos, menos contra quem sempre esteve por cima da carniça do povo.

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB.
www.marcosbagno.org

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BOTECO BOLIVARIANO "O jornalismo brasileiro vive um dos mais ignóbeis períodos de sua história. Não só se transformou, em pouquíssimo tempo, em uma imprensa adesista, como se mostra disposta a omitir, escamotear e falsear fatos no intuito de defender os golpistas." Por Cynara Menezes

Correio Caros Amigos

 
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