Para Belluzzo e Delfim, política de ajuste de Temer é insana e Brasil voltou a ser colônia

Economia
Typography

Em vez de investimentos, cortes e privatizações em setores estratégicos, como energia e inovação, levam o país de volta a dependência externa

Por Eduardo Maretti
Da Rede Brasil Atual

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP reuniu, na noite de ontem (11), os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto para debater a crise brasileira, em mais um painel do seminário internacional "As Razões do Agir: universidade e sociedade na crise da globalização", iniciado em agosto. No módulo "A agenda brasileira: superando a miséria da crítica", os economistas concordaram ao apontar que as perspectivas para o Brasil estão longe de permitir análises otimistas.

Para Belluzzo, a atual política econômica de ajuste fiscal do governo Michel Temer é "uma coisa de insensatez". "Não entra na minha cabeça fazer um ajuste fiscal e cortar o investimento desse jeito. Isso não existe. É uma coisa insana."

Leia mais:

Um novo modelo de ditadura

Há 44 anos, golpe militar no Chile derrubava o presidente socialista Salvador Allende

Taxa de juros e reforma monetária

"Voltamos a ser colônia. Os economistas que estiveram no poder conseguiram", disse Delfim.  "Não adianta discutir. Se o Brasil não voltar a se pensar 25 anos à frente, não vamos sair desse enrosco."

Belluzzo voltou a criticar a repetição dos conceitos macroeconômicos por economistas e as citações intermináveis desses conceitos pela mídia, citando particularmente a GloboNews, como se fossem verdade absoluta. "O que chamamos de macroeconomia é de um nível de abstração e incapacidade de se comunicar com o mundo concreto que é assustador." Segundo ele, alguns autores consideram que a macroeconomia "virou uma forma de controle da sociedade, e não (serve para) explicá-la."

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Na opinião de Belluzzo, sem investimento, situação agravada com a Emenda Constitucional 95/2016 (conhecida como a emenda do teto dos gastos), no longo prazo, a economia não tem mecanismos que a façam avançar. Para piorar a situação, "a composição da carga tributária é muito iníqua e injusta, e repousa sobre impostos indiretos, mais ou menos 55% da carga, o que reforça a má distribuição da renda", disse.

Belluzzo-Delfim

Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Neto debatem na USP conjuntura econômica do país sob o governo de Michel Temer

Segundo Belluzzo, o Brasil conseguiu chegar a ser um país industrializado porque tinha "desenho institucional". Para se desenvolver, a indústria do país se beneficiou da "sinergia" que funcionou entre Estado, empresa pública, empresa privada e estrangeira, que vem desde os anos 30. "Tínhamos uma organização que não era perfeita, mas suficiente para garantir a expansão. Nos anos 90, destruímos esse arranjo. O que assistimos hoje é a tentativa desesperada de se achar uma fórmula para encontrar um mercado que não existe", disse Belluzzo, sobre as políticas adotadas a partir do chamado Consenso de Washington.

Delfim Netto afirmou que os valores necessários à "sociedade que queremos" estão na Constituição Federal de 1988: plena liberdade individual, igualdade de oportunidades e eficiência produtiva. Para isso, defendeu, "precisamos de um Estado forte, regulado pela Constituição."

Para Delfim, a atual conjuntura mais uma vez comprova que, quando o sistema financeiro se apropria da economia real, o investimento acaba. "Criou-se uma sociedade de rentistas. Começou com Reagan imitando a Thatcher. Convenceram o Reagan que o mercado era um mecanismo perfeito", disse, em referência ao ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1981-1989) e à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990).

Apesar de tudo, disse Delfim, "o Brasil não é um fracasso: com toda essa confusão, somos a sexta economia do mundo". Em sua avaliação, "a maior desgraça que nos aconteceu foi usar o câmbio para combater a inflação. Não é possível manter o câmbio flutuante, foi isso que destruiu a indústria. Câmbio, salário e juros são coisas muito sérias para deixar na mão do mercado", afirmou.

Belluzzo concordou. "Eles estão deixando o câmbio valorizar de novo. Isso significa um desastre para a indústria brasileira." Para ele, a ex-presidente Dilma Rousseff cometeu "um desatino", ao nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda após ganhar as eleições em 2014. "Joaquim Levy é uma boa pessoa. Meu tio também é, mas eu não o chamaria para ser ministro da Fazenda", brincou. Depois do choque de tarifas, a inflação explodiu e "a economia capotou".

Na opinião de Belluzzo, no percurso após a crise mundial de 2008 e 2009, a reação brasileira foi positiva. Depois do agravamento da crise na Europa em 2011, "começamos a reagir de maneira imprópria, começaram a correr atrás do crescimento de maneira inadequada", disse. Segundo ele, as desonerações exemplificam essa situação.

Artigos Relacionados

China, Venezuela... Quem se afirma mais? Hegemonia do dólar pode estar com dias contados China, Venezuela... Quem se afirma mais? Hegemonia do dólar pode estar com dias contados
ECONOMIA O tempo do dólar como meio de pagamento universal parece está chegando ao fim....
IBGE: Serviços caem 0,8% em julho. No ano, queda é de 4% IBGE: Serviços caem 0,8% em julho. No ano, queda é de 4%
RECUPERAÇÃO? Cinco dos seis segmentos do setor apresentaram queda no volume. Apenas serviços...
Nova taxa do BNDES pode travar investimento e geração de emprego Nova taxa do BNDES pode travar investimento e geração de emprego
JUROS Caso seja aprovada — o que, pelo andar da carruagem, será — a taxa de juros cobrada...

Leia mais
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend