Livro aborda o feminismo revolucionário da Rússia soviética

Cultura
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Ensaios, artigos e panfletos feministas inéditos estão reunidos na obra "A revolução das mulheres"  

Por Lu Sudré 
Caros Amigos

Com a proximidade dos cem anos da Revolução Russa, em outubro, os nomes de Lênin, Trotsky e Stálin passaram a ser ainda mais citados, enquanto os de Kalmánovitch, Pokróvskaia, Kollontai, por exemplo, entre outras mulheres da rússia soviética, permanecem no esquecimento. O que poucos conhecem ou ignoram - o que o machismo explica - é que a aclamada revolução teve importante participação de russas, que, além de protagonizarem ações políticas decisivas, produziram análises políticas e, principalmente, textos sobre o feminismo. Com o objetivo de dar luz a essa produção, Graziela Schneider, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) na área de Literatura e Cultura Russa, organizou o livro A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, lançado pela Boitempo. 

A obra reúne artigos, atas, panfletos e ensaios inéditos de russas soviéticas sobre a emancipação feminina, escritos em momentos determinantes da Revolução de 1917, em que a convulsão social e política do país impulsionou ricas produções de mulheres que, comparadas aos homens, permancem historicamente à margem dos holofotes. São elas: Aleksandra M. Kollontai, Anna A. Kalmánovitch, Ariadna V. Tirkóva-Williams, Ekaterina D. Kuskova, Elena A. Kuvchínskaia, Inessa F. Armand, Konkórdia N. Samóilova, Liubov I. Guriévitch, Maria I. Pokróvskaia, Nadiéjda K. Krúpskaia e Olga A. Chapír.

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"A proposta foi trazer um apanhado inicial de textos e autoras emblemáticas do período, sobre temas relacionados à questão feminina/das mulheres russas, à Rússia revolucionária, ao(s) feminismo(s) russo(s), e às demandas que pertenciam e pertencem às mulheres, da época, como o sufrágio universal e o direito ao divórcio. Ou, infelizmente, ainda atuais e necessárias, como a legalização do aborto, a maternidade, a igualdade de direitos, as condições de trabalho, a divisão de tarefas domésticas e o amor livre", afirma Graziela Schneider em entrevista à Caros Amigos.

A autora destaca alguns fragmentos importantes da obra como Algumas palavras sobre o feminismo e O movimento feminista e a relação dos partidos com ele, de Kalmánovitch; Lei e Vida, de Pokróvskaia; O que Outubro deu à mulher ocidental e As combatentes no dia do Grande Outubro, de Aleksandra Kollontai. "Esses textos históricos evidenciam a força e a capacidade das mulheres em todas as esferas, que sempre estiveram lá, mas que são abafadas, silenciadas", complementa Schneider. 

Confira a entrevista completa com a autora.

Caros Amigos - Como se deu o processo de organização do livro?

Graziela Schneider - Comecei a pesquisar a questão das mulheres na Rússia há anos, quando percebi que havia uma lacuna de textos, livros, e a própria inclusão de mulheres em coletâneas - não apenas de russas - era sempre mínima. Só pude pesquisar em bibliotecas russas, pois, até o momento, encontrei poucas publicações atuais ou coletâneas de fontes e, nas bibliotecas brasileiras, não localizei nada em russo. A proposta foi trazer um apanhado inicial de textos e autoras emblemáticas do período, sobre temas relacionados à questão feminina/das mulheres russa, à Rússia revolucionária, ao(s) feminismo(s) russo(s), e às demandas que pertenciam e pertencem às mulheres, da época, como o sufrágio universal e o direito ao divórcio, ou, infelizmente, ainda atuais e necessárias, como a legalização do aborto, a maternidade, a igualdade de direitos, as condições de trabalho, a divisão de tarefas domésticas, o amor livre e etc. Foi realizada uma seleção de tópicos, autoras e tipos de textos - atas, panfletos etc. - e também um recorte temporal, do início do século XX, dos momentos revolucionários - entre a Revolução de 1905 e as Revoluções de 1917 - até meados da década de 1930, e, finalmente, foi montada uma equipe de tradução.

O que motivou a auto-organização das mulheres na Rússia Soviética e qual a importância desta mobilização na Revolução de 1917?

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As mulheres, principalmente operárias e camponesas, trabalhavam em condições extremamente precárias, e a situação da miséria e da fome era calamitosa, insustentável. Uma de suas demandas fundamentais era o sufrágio universal, mas o que incitava mulheres a protestar eram essas terríveis condições, a fome e pelo fim da participação da Rússia na I Guerra Mundial. Além disso, a luta pela igualdade de direitos, equidade de salários e condições, e questões como licença-maternidade remunerada, divisão de tarefas domésticas, legalização do aborto, entre outras. Depois da participação na Revolução de 1905, a organização das mulheres em instituições, eventos e periódicos próprios foi se intensificando e o dia das mulheres de 1917 (na Rússia, 23 de fevereiro, no Ocidente, 8 de março), quando milhares de operárias e mulheres de soldados saíram às ruas de Petrogrado, foi um primeiro passo para a Revolução de Fevereiro e a Revolução de Outubro, na qual sua participação também se deu no batalhão de mulheres.

A partir de quando a expressão e produção das mulheres se intensificou? Para além do feminismo, essas autoras versavam sobre quais assuntos?

A partir de 1830 e 1840. Entre 1860-1890, acentua-se a produção das russas com a criação, depois de muita luta por parte das mulheres pelo direito à educação superior, dos "cursos de educação superior”, de onde saíram muitas revolucionárias. Elas atingem um ápice entre a Revolução de 1905 e as de 1917. As autoras escreveram sobre os temas mais variados. Olga Chapír e Aleksandra Kollontai, por exemplo, escreveram ficção; Maria Pokróvskaia era médica e tratou de assuntos relacionados à saúde; outras eram historiadoras, professoras, pedagogas, editoras, jornalistas, culturólogas e publicaram sobre política, trabalho, legislação, teatro, literatura, memorialística etc…

Quais linhas do feminismo existiam neste contexto? A estrutura partidária da Rússia Soviética limitou de alguma forma a expansão do movimento?

A expansão dos movimentos de mulheres e da própria atuação política das mulheres se restringe mais a partir da década de 1930. Neste período, acho complicado falar em "linhas" de feminismos, mas sim em uma formação múltipla de movimentos (organizações, eventos/reuniões/congressos, periódicos) de mulheres naródnik (grosso modo, "populistas"), da intelligentsia, burguesas, liberais, radicais, camponesas, operárias, de partidos - do POSDR, bolcheviques, mencheviques, e do Partido Socialista Revolucionário, além de mulheres sem "filiação".

Qual foi o impacto do stalinismo para o movimento de mulheres na Rússia?

Costuma-se dizer que a questão da mulher na URSS foi tida como resolvida nesse período, porque Stálin assim declarou - quando obviamente a emancipação das mulheres, os direitos iguais e outras demandas nunca foram totalmente sanadas em lugar algum. Na prática, ainda havia dupla jornada e, entre 1936 e 1955, por exemplo, há a suspensão de direitos: a legalização do aborto é suspensa; a educação volta a ser separada, entre homens e mulheres; e dificulta-se novamente o acesso ao divórcio… Entretanto, as mulheres continuam lutando por suas questões e seu protagonismo fica ainda mais visível durante a intensa participação das mulheres soviéticas na Segunda Guerra Mundial e na Grande Guerra Patriótica.

Acredita que há uma tentativa de apagamento e desassociação da luta das russas à data do Dia Internacional da Mulher? Como essa data realmente se concretizou?

Sim, das russas e das mulheres da URSS. Já em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres, em Copenhague, Clara Zetkin propõe 8 de março como dia de luta pela emancipação das mulheres. Há apenas alguns anos fala-se um pouco mais do histórico do dia das mulheres na Rússia - a partir de 1913, quando foi realizado o I Dia Internacional das Trabalhadoras pelo Sufrágio Feminino, em Petrogrado, e as mulheres foram reprimidas; e da célebre manifestação de 1917, quando houve a segunda realização, por meio da manifestação e greve. É em outra Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, em 1921, que se propõe a data, com referência ao marco do dia 8 de março de 1917 (23 de fevereiro, no calendário da Rússia). A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher passa a ser realizado em 8 de março, mas somente em 1977 é reconhecido "oficialmente" pela ONU.

Qual o legado que essas mulheres deixaram para o movimento feminista atual, em que o fazer político ainda é esmagadoramente masculino e feminismo liberal se populariza?

As mulheres de todos os lugares épocas sempre lutaram, sejam com envolvimento direto em instituições ou em movimentos propriamente ditos ou não - negras, indígenas, mulheres de grupos minoritários - então não há um movimento feminista atual, mas movimentos feministas. 

É exatamente isso, esmagadas: não são as mulheres que não tomam parte do fazer político, mas são subtraídas. Esses textos históricos evidenciam a força e a capacidade das mulheres em todas as esferas, que sempre estiveram lá, mas que são abafadas, silenciadas. Dois dos principais legados são o de ser o primeiro país a legalizar o aborto, em 1920; a construção de creches, refeitórios e lavanderias públicas. Em relação a outras questões, como o sufrágio e divórcio, já bastante superadas na teoria, com poucas exceções, é necessário que não se tenha apenas o direito a serem votadas, mas que tenham igual representatividade nas esferas políticas; o mesmo vale para a igualdade de direitos, a equidade de salários e oportunidades etc., e, principalmente, a luta pelo fim da violência contra a mulher: que saiam das teorias, do discurso e das leis e sejam realidade.

Os textos das mulheres russas demonstram e avivam a capacidade de se organizar, de criar espaços próprios de expressão, de se (re)apropriar de suas lutas: que sejam feitas por mulheres, do ponto de vista da mulher, que suas pautas sejam pensadas e executadas por mulheres.

a revolução das mulheres capa alta

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