Doação de livro para bibliotecas: será que é uma boa ideia?

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Doação de livro para bibliotecas: será que é uma boa ideia?

Por Haroldo Ceravolo Sereza
Do Publishnews

Antes de começar, um alerta: escrevi esse texto antes da polêmica entre Dória e Amazon, mais um show de entretenimento em que ninguém tem razão, se tiver alguma paciência volto a isso mais à frente.

Agora, uma explicação: não vou falar da administração Dória, vou falar da administração Kassab.

O secretário de Cultura da época havia sido meu professor na Escola de Comunicações e Artes. Ótimo professor, diga-se de passagem. Havia participado ativamente da gestão Marta Suplicy, dirigindo o Centro Cultural São Paulo. E coube a ele a tarefa de concluir uma reforma da Biblioteca Mário de Andrade.

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Um dia, abro um e-mail e uma editora solidária a essa trajetória respeitável solicita doação de livros para a nova Mário de Andrade. Sim: a prefeitura havia gasto alguns milhões de reais com a reforma da biblioteca e, na hora de inaugurá-la, não reservara nem alguns milhares de reais para a compra de novos livros. Me pergunto se as privadas do banheiro haviam sido doadas também; ou as janelas; ou as estantes. Mas livro, no Brasil, não tem valor: ou melhor, ele só tem valor simbólico. Como se seus produtores não gastassem com a sua produção e sua circulação.

Marcamos uma reunião com diversos pequenos e médios editores. O secretário entendeu a questão. Não desqualificou a demanda de uma política de coleções que fosse além do pedido de doação.

Sim, porque uma biblioteca pública, e uma biblioteca pública do porte da Mário de Andrade menos ainda, não pode se contentar com as doações que recebe. Não pode ter, como principal política de construção de sua coleção, o recebimento de livros cujos títulos não sabe de antemão, cujos sentido não seja orientado para um projeto cultural, cujo interesse na doação seja, talvez, apenas desovar o estoque de uma tiragem superdimensionada de um livro inútil.

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A política de construção de coleções é uma coisa séria. E os editores, em 2015, numa das 40 reuniões plenárias realizadas para discutir o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB-SP), deixaram bem claro um problema estrutural da cidade de São Paulo: a política de construção de coleções era errática e baseada, essencialmente, na seleção de livros que vão parar nas páginas dos jornais e revistas da grande imprensa.

Há muito tempo, a grande imprensa não dá conta de fazer uma boa cobertura do mercado editorial. O mercado cresceu, e o número de jornalistas dedicados a livros nos jornais, revistas e mesmo sites diminuiu muito. Era preciso redefinir um modo de construir os acervos do sistema – e doação não pode ser o principal meio de adquirir exemplares.

A prefeitura de São Paulo compra livros, mas não é uma grande compradora. Além disso, ela tradicionalmente compra de forma concentrada das editoras mais conhecidas ou que conhecem melhor a burocracia do sistema. Em 2016, foram comprados, segundo dados do próprio sistema, apenas 15.964 exemplares pela Secretaria da Cultura. É uma quantidade ínfima de livros, considerando o tamanho da rede e as necessidade de reposição e atualização das bibliotecas.

Não há dados muito precisos sobre a diversidade dessa compra, justamente porque essa questão ainda não foi inteiramente incorporada no dia a dia dos agentes do Estado na área: nesse sentido, o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de São Paulo é realmente inovador e pode mudar a relação do paulistano com suas bibliotecas públicas.

Um dos resultados concretos mais importantes do PMLLLB-SP foi a criação, ainda em 2016, de um grupo de trabalho para discutir políticas de desenvolvimento de coleções (é mais amplo que aquisição). Eu representei os editores na discussão, que envolveu escritores, bibliotecários e integrantes da secretaria de cultura. O relatório final desse grupo de trabalho está para ser concluído.

Ainda sobre doações, há um estudo interessante sobre as distorções que as doações de livros de países ricos causam nos mercados editoriais da África. A editora Marie Michèle Razafinstsalama, de Madagascar, integrante da Aliança Internacional dos Editores Independentes, fez um extenso relatório sobre como as doações europeias, sobretudo francesas no caso da ilha africana, enfraquecem a produção e a circulação das editoras locais, que não conseguem competir com livros doados pela ex-potência imperial.

O resultado das doações eram livros pouco úteis, portadores de ideologia e informações europeias e que dificultavam a produção e a circulação local de obras. As constantes críticas dos editores africanos às doações europeias e norte-americanos mudou a política de doações, que passou a ser mais seletiva e complementar à produção local, mas esse processo, herença de uma triste política colonial, ainda produz efeitos perversos nas políticas de leitura dos países africanos.

Quando a prefeitura quer transformar a política de doação numa política de construção de acervo, o resultado pode ser bibliotecas cheias de livros que espantam leitores. Em lugar da diversidade cultural, vamos ter a hegemonia cultural e ideológica do “bom gosto” das grandes editoras. O gosto, as necessidades e o interesse dos frequentadores atuais e potenciais das bibliotecas será colocado em segundo plano.

O resultado disso pode ser uma biblioteca morta.


Haroldo Ceravolo é jornalista e editor da Alameda Editorial. Possui doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e foi presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre) de 2011 a 2015.

 

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