Cineasta Marcelo Gomes protesta contra Temer no Festival de Berlim: "Temos que lutar contra esse governo ilegítimo"

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Diretor de Joaquim, único filme brasileiro que disputa Urso de Ouro na Berlinale, Gomes destacou avanços promovidos por governos Lula e Dilma e leu carta de cineastas brasileiros contra Temer

Do Opera Mundi

Diretor de Joaquim, único filme brasileiro que disputa Urso de Ouro na Berlinale, Gomes destacou avanços promovidos por governos Lula e Dilma e leu carta de cineastas brasileiros contra Temer.

O cineasta Marcelo Gomes, diretor do filme Joaquim, protestou nesta quinta-feira (16/02) em Berlim contra o governo em exercício durante a entrevista coletiva de divulgação do longa, em disputa pelo prêmio máximo do Festival Internacional de Cinema da capital alemã.

“Nos últimos 14 anos [de governos do PT], houve uma mudança radical de paradigmas, de inclusão social, feita pelo governo Lula”, disse Gomes a jornalistas de dezenas de países após a estreia do filme na 67ª edição da Berlinale. “Mas estamos num momento muito absurdo de nossa política, com retrocessos. Temos que lutar para que a inclusão social aumente, para que essas políticas voltem. Temos que lutar contra esse governo ilegítimo”, afirmou.

O diretor retomou o protesto de cineastas brasileiros contra o governo Temer e em defesa do cinema nacional durante evento na Embaixada do Brasil em Berlim na terça-feira (14/02). Ao fim da entrevista coletiva, Gomes leu, em inglês, uma versão estendida da carta-manifesto lida por seus colegas na ocasião e assinada pelos cineastas cujos filmes estão em disputa no festival, um dos mais importantes do mundo.

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A carta também é uma petição pública que já reuniu mais de 300 assinaturas de trabalhadores do audiovisual e da cultura brasileira.

"Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde, trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre sério risco de acabar", diz o trecho inicial do texto.

O cineasta ainda pediu a colaboração de instituições, produtores e colegas de todo o mundo para apoiar a indústria brasileira e sua luta contra o projeto de "um governo ilegítimo surgido de uma crise inconstitucional de eliminar direitos conseguidos nos campos sindicais, na educação, saúde pública e sobretudo na cultura e no cinema", acrescenta.

Além disso, Gomes destacou a necessidade de que o setor inclua vozes que reflitam a diversidade étnica, cultural, religiosa e de gênero do País. No texto, ele também pede que "qualquer mudança ou aperfeiçoamento nas políticas públicas do audiovisual brasileiro sejam amplamente debatidas com o conjunto do setor e com toda a sociedade".

O protesto do diretor não foi o único. Desde o início do festival, que conta com 12 filmes brasileiros, outros discursos contra o governo foram realizados como na exibição dos filmes Pendular, de Julia Murat, e Rifle, de Davi Pretto.

O filme "Joaquim" é o único que tem participação na principal disputa da Berlinale. O longa retrata o período de conscientização política de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e líder da Inconfidência Mineira.

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Tiradentes é interpretado pelo ator paulistano Julio Machado. A história tem inicio com a imagem de sua cabeça espetada diante de uma igreja. Na sequência, o filme retrocede ao tempo em que o líder fazia suas expedições pelo interior de Minas Gerais, em busca de contrabandistas de ouro.

Leia a seguir a íntegra da carta lida por Marcelo Gomes diante da imprensa internacional:

Para a comunidade cinematográfica internacional

Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde, trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre sério risco de acabar. A diretoria da Ancine (Agência Nacional de Cinema) está agora em processo de substituição de dois de seus quatro diretores, que serão anunciados pelo ministério do atual governo.

O Brasil é formado por uma diversidade étnica-racial-cultural-religiosa e de gênero gigantesca. E a consciência dessa pluralidade tem se mostrado peça-chave na hora de planejar os programas educacionais, econômicos, culturais e de saúde do nosso país.

Na política do audiovisual brasileiro, não foi diferente. Nos últimos anos, a Ancine tem direcionado suas diretrizes observando com atenção esses muitos Brasis. Ampliou o alcance dos mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos e formatos dos mais diversos, do cinema autoral ao videogame; das séries de TV aos filmes com perfil comercial: do desenvolvimento de roteiro à distribuição.

O resultado é visível. O ano de 2017 começou com a expressiva presença de filmes brasileiros nos três dos principais festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sundance, Rotterdam e Berlim. Não chegamos a esse patamar histórico sem planejamento, continuidade e diálogo entre Ancine e a classe realizadora, principalmente por meio de duas ações de fomento: a criação de uma lei que obriga os canais de TV a cabo a exibirem 3h30 de programação brasileira e a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que investe em várias linhas, em todos os tipos de audiovisual em qualquer fase de produção.

Entre as políticas do Fundo Setorial, gostaríamos de destacar, em especial, as políticas regionais, o edital de TV pública, o edital voltado para filmes de arte com perfil internacional, os editais e acordos de coprodução internacional.

As ações implementadas incidiram de forma positiva no setor audiovisual, que cresce 8,8% ao ano. Uma taxa superior à média do conjunto dos outros setores da economia brasileira, representando um valor adicionado de 0,54% na economia nacional. Esse percentual é maior do que o gerado pela indústria farmacêutica, de produtos eletrônicos e de informática, por exemplo.

O percurso trilhado nos últimos anos posiciona a Ancine e o Setor Audiovisual em possibilidade de aprimoramento de suas ações, com disposição para o diálogo e desenvolvimento de instrumentos capazes de proporcionar, em um curto espaço de tempo, um programa de ações afirmativas com recorte de raça e gênero em consonância com a pauta global que impõe a necessidade de aprimoramento e ajuste do setor audiovisual para garantia de maior representatividade e participação da população negra e das mulheres. E acreditamos, ainda, que deve ser incrementada uma política de formação de público, artística e técnica para que novas pessoas possam se qualificar e atuar em toda a cadeia da produção audiovisual. Além de uma política de acervo, para garantir condições para manutenção e acesso ao público da grande produção audiovisual brasileira, realizada ao longo de quase um século de atividade.

Tudo que se alcançou até aqui é fruto de um grande esforço do conjunto de agentes envolvidos entre Ancine, produtores, realizadores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas, lideranças, poder público, entre outros. Acima de tudo, queremos garantir que toda e qualquer mudança ou aperfeiçoamento nas políticas públicas do audiovisual brasileiro sejam amplamente debatidas com o conjunto do setor e com toda a sociedade.

Assim, pedimos às instituições, produtores e realizadores de todo o mundo que apoiem a luta e a manutenção de todos os tipos de audiovisual no Brasil. Defendemos aqui a continuidade e o incremento dessa política pública.

Assinam esta carta os diretores e produtores dos filmes:

As Duas Irenes (Fabio Meira, Diana Almeida e Daniel Ribeiro)
Como Nossos Pais (Laís Bondaznky e Luiz Bolognesi)
Em Busca da Terra Sem Males (Anna Azevedo)
Está Vendo Coisas (Barbara Wagner e Benjamin de Burca)
Joaquim (Marcelo Gomes e João Vieira Jr.)
Mulher do Pai (Cristiane Oliveira, Graziella Ferst e Gustavo Galvão)
Não Devore Meu Coração! (Felipe Bragança e Marina Meliande)
Pendular (Julia Murat e Tatiana Leite)
Rifle (Davi Pretto e Paola Wink)
Vazante (Daniela Thomas e Sara Silveira)
Vênus - Filó a Fadinha Lésbica (Sávio Leite)

 

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