Juca Ferreira: "Funcionaria melhor se trabalhassem numa empresa de demolição"

Cultura
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"Fomos nós, no governo Lula e depois Dilma, que desenvolvemos uma politica pública de apoio ao cinema"

Por Eduardo Maretti
Da Rede Brasil Atual

Ministro da Cultura dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2008-2010) e de Dilma Rousseff (2015-2016), o sociólogo baiano Juca Ferreira diz que não acompanha as informações sobre o filme Polícia Federal - A Lei é Para Todos (direção de Marcelo Antunez), que "revelará" a Operação Lava Jato sob a ótica da PF, previsto para estrear em julho.

Mas, sabendo da orientação do filme, e que, segundo divulgado na mídia, a PF teria dado consultoria para produção e direção, ele diz: "Qualquer filme que sustente a tese inicial (da Lava Jato) é um filme equivocado, porque a realidade já avançou muito. O que já se sabe pelas revelações é que a prática sistemática para a aprovação de projetos era o processo de corrupção".

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Para Juca Ferreira, a operação não tem isenção e "partiu de uma tese equivocada de que a corrupção é um problema do PT, quando na verdade é o modus operandi da política brasileira, e hoje todo o comando do governo oriundo do afastamento de Dilma, todos estão delatados, incluindo o Temer".

Sobre o "projeto cultural" do governo Temer, o ex-ministro afirma que os atuais mandatários do país não estão "devastando" apenas a cultura. "Eles vêm de novo ceifando tudo o que foi construído, não só na área de cultura, mas nos direitos conquistados, leis trabalhistas, aposentadoria, direitos das mulheres, avanços na relação entre negros e brancos no Brasil. Eles são devastadores."

Para não se dizer que se esqueceu do humor ou ironia baianas, acrescenta: "Acho que funcionaria melhor se trabalhassem numa empresa de demolição".

Sobre o ator  Ary Fontoura, crítico de Dilma e defensor do impeachment, escalado para representar Lula no filme, Ferreira diz que "é muito magrinho para fazer o Lula".

Como vê a tentativa do filme de abordar a Operação Lava Jato, centrando o enredo na figura do Lula e que, segundo se diz, teve até consultoria da Polícia Federal?

Não tenho informação sobre esse filme, mas eu acho que é um tema que desperta interesse, que ainda não revelou completamente seus componentes. A operação (Lava Jato) não tem mostrado a isenção que a justiça precisa ter. Partiu de uma tese equivocada de que a corrupção é um problema do PT, quando na verdade é o modus operandi da política brasileira, e hoje todo o comando do governo oriundo do afastamento de Dilma estão delatados, incluindo o Temer.

Qualquer filme que sustente a tese inicial é um filme equivocado, porque a realidade já avançou muito. O que já se sabe pelas revelações é que a prática sistemática para a aprovação de projetos era o processo de corrupção. 

Tendo a achar que, se for baseado na versão inicial, vai ser um desastre, um equívoco, não vai contribuir em nada. Se o filme partir disso é um instrumento político, de intervenção na realidade para tentar reforçar uma tese que a realidade mostra que foi um equívoco, que gerou parcialidade a tal ponto que tentam condenar pessoas sem provas a partir da convicção que tiveram.  

Como ex-ministro da Cultura, você pode dizer se é comum financiador de um projeto cultural não ser identificado, como aparentemente acontece com o filme em questão?

Não, não é comum. Deve ser um financiamento privado, mas não sei. Mas é estranho que não se saiba das motivações dos que patrocinam um filme desse tipo.

Coincidência e ironia que Ary Fontoura fez críticas a Dilma, defendeu o impeachment, e interpreta Lula no filme?

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Os artistas têm opinião política. Alguns poucos apoiaram o golpe. Ele é um deles. Como têm os a favor, o que também não é estranho. Tentaram criminalizar os que estavam a favor da Dilma, dizendo que estavam "recebendo"... Montaram até uma CPI para tentar criminalizá-los. Mas artista é como qualquer cidadão, tem direito a ter opinião política. Alguns têm opinião equivocada, outros têm uma compreensão melhor, mas faz parte da realidade. E o Ary Fontoura é muito magrinho para fazer o Lula. Mas isso é secundário, é quase uma piada. 

Qual sua opinião sobre o "projeto cultural" do governo Temer?

Eles não têm projeto cultural. Tentaram acabar com o Ministério da Cultura, houve uma reação enorme no meio cultural, artístico e na opinião pública, e mantiveram. Mas estão destruindo por dentro. O Marcelo Calero começou o processo de demolição das políticas e programas que funcionavam bem e estavam se alargando.

O atual ministro (Roberto Freire) está dando continuidade. Tudo indica que vão pra cima agora de uma das políticas mais bem sucedidas, que é a do cinema. Só não foram ainda porque a Ancine tem mandato e eles foram obrigados a respeitar o mandato. Mas estão se preparando para atacar também. 

Só para você ter uma ideia, quando o Lula assumiu, em 2003, eram produzidos menos de dez filmes por ano. Com a política desenvolvida pelo Estado brasileiro – Minc e Ancine –, hoje são 150 filmes por ano. Já conquistamos uma parte do público brasileiro, ainda menor do que pode ser, mas estamos evoluindo. E o cinema brasileiro é superavitário, gera mais recursos por meio do público e da bilheteria do que o governo investe

O ministro não tem o que dizer e tem dito que "é um projeto de poder", mas não explica que diabo de projeto de poder é esse. Eles não têm projeto e querem destruir tudo o que foi construído, como aliás em outras áreas que não a cultura. Acho que funcionaria melhor se trabalhassem numa empresa de demolição.

Mas o cinema brasileiro já passou por momentos muito difíceis antes e sobreviveu...

O Collor extinguiu a Embrafilme e depois os tucanos não fizeram nada, pelo contrário, partiram da tese de que isso é monopólio dos americanos, que o Brasil não tinha que se meter nesse assunto. Fomos nós, no governo Lula e depois Dilma, que desenvolvemos toda uma política pública de apoio ao cinema, aos artistas, empresas, em todo o território brasileiro.

Hoje tem produtora em todo o Brasil, não só nas capitais. Mas esses caras reduzem tudo a moeda e a mercadoria, não conseguem compreender que uma nação é um processo mais complexo. Os neoliberais têm uma dificuldade enorme de compreender isso.

Mas por ter passado por situações como na era Collor, o cinema brasileiro não pode ser comparado ao mito da Fênix, que sempre ressurge das cinzas?

A cultura brasileira vive disso. Desde que foi proclamada a República a gente tem mais períodos de instabilidade, ditadura, do que de estabilidade. Acabamos de sair do período mais longo de estabilidade e a democracia mostrou que é um ambiente favorável para o desenvolvimento da cultura brasileira e nós representamos isso, construímos políticas públicas no Estado democrático.

Eles agora vêm de novo ceifando tudo o que foi construído, não só na área da cultura, mas nos direitos conquistados, leis trabalhistas, aposentadoria, direitos das mulheres, avanços na relação entre negros e brancos. Eles são devastadores. Como se quisessem nos reduzir a uma republiqueta de banana. 

Eles conseguem sobreviver como governo?

Tenho minhas dúvidas. Acabaram de sair pesquisas. Está caindo vertiginosamente a avaliação do governo. Eles perderam quatro eleições. O povo brasileiro não aprova esse projeto. Precisaram dar um golpe para tentar encaminhar. Mas acho que vai ter problema. O Brasil está caminhando para uma situação falimentar, tipo Espírito Santo, a economia caindo, por mais que a imprensa tente incensar um otimismo artificial, e a situação social se agravando.

O único componente que falta aí são as manifestações. Mas caminhamos para uma situação falimentar desse governo. Estamos vivendo um momento em que reina a mediocridade e a boçalidade. Agora, a reação da área cultural é enorme, a consciência do negativo. São poucos artistas que apoiam o processo de golpe, e muitos que apoiaram inicialmente estão tomando consciência de que entraram num barco furado.

Tirando a Regina Duarte, que é renitente...

Não sei, nem tenho visto manifestação dela. Tem cinco ou seis, que são reacionários estruturais. Nasceram pra isso.

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