Os estilhaços da violência de Estado

Cultura
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Livro Memória Ocular retrata a violência policial e a vida do fotógrafo Sérgio Silva, três anos após perder a visão

Por Lu Sudré
Caros Amigos

“Meu principal instrumento de trabalho foi arrancado de mim pela violência policial. Como fotógrafo, o olho é o que tenho de mais importante, muito mais do que a câmera. Eu perdi a visão do olho esquerdo e carrego comigo uma grande sequela daquela noite, que interfere desde coisas banais até na minha profissão. Depois de ser atingido minha vida mudou radicalmente”, conta Sérgio Silva, atingido por uma bala de borracha no dia 13 de junho de 2013, durante as manifestações do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo.

Bombas de gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, spray de pimenta, cassetete, bala de borracha, prisões arbitrárias. Sérgio é só mais um entre as inúmeras vítimas da violência policial durante as mobilizações de junho de 2013, quando movimentos sociais ocuparam as ruas em diversos estados do País contra o aumento na tarifa do transporte público.  

O livro Memória Ocular, do jornalista Tadeu Breda, conta a história da vida de Sérgio após ter perdido a visão do olho esquerdo. Publicado pela Editora Elefante, o livro foi lançado no dia 13 de junho deste 2016, exatamente três anos após o ocorrido. “Esse livro começou a ser escrito em 2013 mesmo, enquanto cobria as Jornadas de Junho como repórter. Me sensibilizei muito com a história do Sérgio e de outras vítimas da Polícia Militar. Quando completaram dois anos, decidi escrever novamente para tentar entender como essa violência do Estado se perpetua na vida da vítima. Ela não acaba no momento em que, por exemplo, o Sérgio perdeu a visão. Ela começa ali e não tem fim, não tem data pra terminar. Isso se desdobra em consequências psicológicas e materiais. Escrevi novamente este ano. São textos escritos em três momentos distintos de uma mesma violência”, explica Tadeu Breda, em entrevista à Caros Amigos.

Além de mergulhar na história de Sérgio Silva, Memória Ocular também conta a história de outras vítimas do Estado. Entre elas, a do fotojornalista Alex Silveira, que perdeu o olho em 2000, no mesmo contexto que Sérgio, e a de Douglas Santana, de doze anos, que perdeu o olho em abril deste ano, também vítima de bala de borracha durante repressão da PM a um baile funk na Favela do Marcone, zona Norte de São Paulo. Segundo Breda, é preciso falar sobre a violência policial enquanto ela não acabar. “As vítimas da Polícia Militar são diárias. A ideia desse livro é mostrar que as vítimas continuam acontecendo. Falar dessas pessoas não é só falar do passado e sim ressaltar que isso acontece no presente”.

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Com o campo de visão reduzido, Sérgio demorou para voltar à atividade de repórter fotográfico na rua ou em locais com aglomerações de pessoas e precisou de um tempo para se adaptar à sua nova realidade. Para ele, evidenciar histórias como a sua, a de Alex Silveira e de Douglas Santana é mostrar o quanto estamos à mercê de práticas violentas da PM e como elas são acobertadas pelo Estado. Até hoje nenhum policial foi punido. “O Estado de exceção sempre existiu contra as minorias. Minha história é só mais um exemplo de como um cidadão comum, trabalhador, sofre com a violência do Estado e como o próprio Estado não dá nenhum amparo para este cidadão”, comenta Sérgio.

Para ele, a repressão das manifestações de junho de 2013 conseguiram ser amplamente divulgadas devido ao uso de imagens captadas pela população por meio de câmeras e celulares, que explicitou algo que sempre existiu fora do centro da cidade. “Precisamos linkar o que acontece nas manifestações com o que acontece cotidianamente nas periferias. É a mesma polícia que bate, mesma polícia que mata. Mas na periferia as balas não são de borracha.”

Sérgio acredita que a ação policial de violação dos direitos humanos se perpetua por meio do Judiciário. O fotógrafo entrou com processo de indenização por dano moral e dano físico, mas até hoje, três anos depois, não houve nenhuma resposta. Nem mesmo notificação do juiz, para uma primeira audiência. “Há um descaso. Não existe apuração da violência. O processo se encaminha no Judiciário até hoje e a resposta que eu tive do Estado, que deveria proteger, mas faz o contrário, é essa: nenhuma”.

Mídia

Como profissional de comunicação, Sérgio ressalta que a imprensa deveria fazer uma autocrítica de sua atuação. Ele relembra que antes de ser atingido, os jornais  Folha de S. Paulo e  Estado de São Paulo, publicaram editoriais pedindo que as forças policias “retomassem” as ruas. “A imprensa é tão violenta quanto a conduta policial. Eles condenaram os manifestantes de vândalos e baderneiros. Com essa chamada que a imprensa fez, a polícia foi pra rua armada. Sou um dos personagens dessa memória que ainda está viva. São reais tentativas de homicídio. Nada justifica a PM usar aquela quantidade abusiva de munições”, pontua o fotógrafo.

 

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