Resistência cultural em Joinville

Cultura
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Por Eduardo Campos Lima
Para Caros Amigos

Maior município de Santa Catarina, com 554 mil habitantes, Joinville é também um dos principais polos industriais da região Sul do Brasil. A importância da cidade, entretanto, contrasta com as dificuldades que enfrentam os produtores e trabalhadores da cultura da cidade – especialmente na esfera teatral. Políticas públicas insuficientes, ausência de escolas de formação nas diversas artes e escassez de espaços culturais são alguns dos principais problemas apontados por artistas da cidade. É nesse contexto que um coletivo de atores, o grupo de teatro Canto do Povo, fundou há alguns anos a Casa Iririu, abrindo uma nova perspectiva de atuação cultural na cidade.

Desde sua fundação, em 2011, a Casa Iririu – que se situa no bairro de mesmo nome – é um espaço marcado pelo compartilhamento e coletivismo. Não por acaso, o evento em que foi celebrada sua criação chamou-se Partilha Cultural. Realizado trimestralmente desde então, o encontro congrega artistas de diferentes linguagens e permite a livre participação do público. “A primeira Partilha Cultura foi um verdadeiro acontecimento na cidade. Passaram por lá mais de 200 pessoas, que demonstraram um interesse até então inédito por uma atividade daquele tipo”, lembra o ator Norberto Deschamps, um dos fundadores do Canto do Povo e da Casa.

Pouco a pouco, a Casa vem se consolidando como uma referência cultural na cidade, não apenas por sediar as atividades do grupo Canto do Povo, mas também por acolher apresentações dos diversos coletivos artísticos joinvilenses e oferecer ao público palestras, oficinas e encontros. Tudo que lá se realiza é gratuito ou tem preços populares.

Em pequena escala, a Casa vem suprindo algumas das principais necessidades do município. Funciona como centro de formação artística, dando oportunidade de aprendizagem (sem caráter profissionalizante) a interessados em teatro, dança e conhecimentos específicos, como maquiagem e figurino, por exemplo. Ao mesmo tempo, desempenha o papel de polo aglutinador de debates e reflexões sobre cultura, política e arte, possibilitando encontros entre intelectuais, artistas e ativistas políticos. Por fim, busca promover a participação da própria comunidade em que se situa, de forma a fomentar uma vivência crítica no bairro.

“Se tivéssemos mais cinco ou seis comunidades que tivessem um movimento como a Casa Iririu, a realidade da cultura em Joinville sofreria profundas transformações”, avalia Cristovão Petry, diretor teatral e coordenador cultural da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Itinga (Amorabi), organização comunitária joinvilense que, a exemplo da Casa Iririu, abriga atividades artísticas e formativas.

Autogestão

A Casa Iririu, conforme contam seus organizadores, é administrada inteiramente de forma coletiva, sem donos, patrões ou hierarquias. “Nossa tentativa é fazer com que o trabalho seja gerido pelas próprias pessoas que nela estão, de modo que cada um saiba o que tem que fazer. É uma experiência de autogestão”, define Hélio Muniz, diretor teatral do Canto do Povo e um dos fundadores da Casa. Esse modelo prevaleceu desde a constituição do centro cultural.

A ideia de estabelecer um centro cultural surgiu a partir do próprio trabalho do Canto do Povo. O grupo havia se instalado em uma casa pertencente a Andreia Russi, uma das atrizes, para realizar ensaios. Logo surgiu a vontade de abrir a casa para apresentações e foi realizada a primeira Partilha Cultural. Com o êxito da experiência, o coletivo decidiu transformar o espaço em um lugar permanente de trocas culturais.

Após dois anos de atividade, entretanto, a Casa foi objeto de vistoria da Prefeitura, que a considerou imprópria para sediar eventos abertos ao público. “Teríamos que fazer uma reforma que custaria cerca de R$ 40 mil e não tínhamos como fazer isso. Começamos a procurar outro lugar – até que achamos um espaço que estava meio abandonado e não tinha aluguel caro. É onde estamos hoje”, conta Muniz.

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O grupo fez uma reforma no imóvel e contou com diversos apoios para constituir o centro cultural. “Muita gente começou a desenvolver grande empatia com a Casa e a contribuir de diferentes maneiras. O grupo de uma escola técnica, por exemplo, doou linóleo, cortinas e cadeiras. Outros apoiadores doaram equipamentos, livros e figurinos. E muitas pessoas doam seu próprio tempo, ajudando na organização da Casa e das atividades”, explica Deschamps.

Um dos grandes impulsionadores da iniciativa foi o diretor Hélio Muniz. Antes de mudar-se para Joinville, no começo da década de 1990, Muniz morava em São Paulo, onde trabalhou com teatro desde os anos 1960. Uma de suas primeiras experiências teatrais, naquele tempo, foi como ator do núcleo experimental do Teatro de Arena de São Paulo, sob direção do teatrólogo Augusto Boal. No Teatro de Arena, Hélio Muniz foi um dos criadores do Teatro Jornal, forma de teatralização de notícias que marcou época na luta contra a repressão, em 1970, sendo praticada por dezenas de coletivos em São Paulo e outras regiões do País.

“A experiência no Teatro de Arena, baseada na busca por um teatro que dialogue diretamente com as questões sociais e políticas brasileiras, é um dos fundamentos do meu trabalho até hoje”, explica Muniz.

Outra experiência importante do diretor foi com o movimento de teatro independente de São Paulo, na década de 1970. Ele foi um dos fundadores do coletivo Truques, Traquejo e Teatro (TTT), sediado no bairro do Ipiranga, que percorreu as periferias da cidade durante vários anos, levando teatro e formação cultural para fora do centro.

É dessa época que vem sua amizade com a professora e atriz Beatriz Tragtenberg, que impulsionou, nesse período, outro coletivo importante, o Teatro Circo Alegria dos Pobres. “Não encontrava o Hélio havia quase 20 anos, mas soube da criação da Casa Iririu e fui a Joinville para reencontrá-lo”, conta Beatriz. Há três anos, ela tornou-se uma das principais apoiadoras da Casa, contribuindo com a reflexão sobre os rumos que ela pode trilhar.

“De um lado, há a perspectiva de funcionar como um ponto de difusão cultural. Mas, evidentemente, não se trata de buscar o conhecimento pelo conhecimento, simplesmente. Há no horizonte a proposta de uma sociedade melhor. De outro lado, a Casa Iririu permite o desenvolvimento do trabalho artístico do Canto do Povo, possibilitando uma pesquisa estética aprofundada”, define Beatriz. De sua parceria com o coletivo, resultou a montagem da peça Memórias de Louise, sobre a revolucionária da Comuna de Paris Louise Michel. Atualmente, Beatriz e o Canto do Povo se preparam para encenar a peça O Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen.

A Casa Iririu aos poucos vai gerando novos frutos. Há três anos, por exempo, o centro sediou a leitura dramática da peça Os Palhaços, de Miraci Dereti. “Dali surgiu o grupo Abismo, formado por jovens da Amorabi”, conta Cristovão Petry, diretor do grupo. 

Lutas teatrais

O entusiasmo de público e artistas com a Casa Iririu deve-se ao panorama desfavorável que se desdobra para quem quer atuar na esfera cultural de Joinville. Há uma série de desafios a enfrentar, muitos deles com raízes históricas. “Tradicionalmente, a cidade configurou-se como polo industrial e encara a cultura como luxo, entretenimento ou lazer, não como aspecto necessário à formação e à vida em sociedade”, analisa Amarildo de Almeida, professor de teatro na Casa da Cultura, entidade municipal vinculada à Fundação Cultural, e diretor do grupo La Trama.

Conforme lembra Almeida, ao longo das décadas consolidou-se na cidade a visão de que aos operários cabiam, nas horas vagas, apenas atividades recreativas – e por isso diversas empresas criaram suas sociedades recreativas, sobretudo nos anos 1970 e 1980. “De resto, a cidade não oferecia mais nada – e ainda não oferece. Por isso só há dois espaços teatrais em Joinville hoje em dia, o Teatro Juarez Machado e o galpão da Associação Joinvilense de Teatro (Ajote)”, explica. “Trata-se de uma ideologia designada para manter o operariado dentro de determinados limites. Os coronéis ditavam e ditam até hoje que tipo de vida as pessoas devem ter”, completa.

O resultado é que produtores e trabalhadores da cultura sempre encontraram muitos obstáculos para se organizar e articular um movimento artístico sólido. “Os grupos de teatro se fortaleceram basicamente a partir da década de 1980, em função da abertura política. Mas sempre houve muita instabilidade: coletivos surgiam aqui e ali, depois desapareciam. De maneira que o movimento teatral joinvilense sempre foi marcado pela descontinuidade. Além disso, não existia nenhum mecanismo de fomento, só o pires na mão”, aponta Almeida.

No final da década de 1970, o município recebeu um novo ciclo migratório, e muitos jovens de outras regiões do País, interessados em teatro, começaram a organizar atividades na cidade. Assim surgiu, na década seguinte, a Associação Joinvilense de Teatro Amador (Ajota), que congregava esses novos coletivos.

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Esse movimento procurou estabelecer formas de subsistir, abrindo debates sobre mercado cultural e políticas públicas para a cultura. No começo da década de 1990 houve um novo descenso da cultura na cidade, mas foram figuras daquela geração que, a partir de 1997, deram início a um movimento mais forte de teatro em Joinville. “Na virada para os anos 2000 constituem-se diversos grupos de teatro, que passam a buscar espaços de interlocução entre si”, lembra Maikon Jean Duarte, professor de história e artista de teatro.

No ano 2001, a principal figura política da região, Luiz Henrique da Silveira, que foi prefeito de Joinville, governador de Santa Catarina e senador (e faleceu em maio), definiu por iniciativa própria que aquele seria o ano do teatro na cidade. Aproveitando o mote, os grupos da cidade criaram um fórum de discussão e resolveram ocupar um galpão público com atividades teatrais. Nascia ali a Associação Joinvilense de Teatro (Ajote), que brigaria por políticas públicas inéditas para o setor.

Em 2005, surge o primeiro instrumento de incentivo à cultura, o Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), que estabeleceu duas ferramentas de financiamento às artes – uma custeada pelo fundo municipal e a outra fundamentada em isenção fiscal. Por pressão da Ajote, também seriam criados o Plano Municipal de Cultura, o conselho de políticas culturais e as conferências, alguns anos depois.

Embora o fortalecimento da categoria e as conquistas decorrentes tenham possibilitado a consolidação das atividades de cerca de duas dezenas de grupos, as fontes ouvidas pela reportagem são unânimes em afirmar que não se obtiveram novas conquistas. “Após a criação desses instrumentos, não houve mais nenhum avanço”, avalia Maikon Duarte. O desenvolvimento da cultura em Joinville nos últimos 15 anos não foi suficiente para transformar radicalmente o panorama da cidade, de modo que os artistas ainda precisam lidar com uma falta crônica de público em suas apresentações. “O Estado do bem-estar social não chegou ao nosso teatro ainda”, define Duarte.

Canto do Povo, teatro popular em Joinville

Desde que se instalou em Joinville, o diretor teatral Hélio Muniz realizou oficinas de teatro em bairros e comunidades, como forma de contribuir para o desenvolvimento cultural da cidade e, eventualmente, estimular a formação de novos grupos. Em 2009, finalmente, seu trabalho frutificou: a partir de um curso que deu com Norberto Deschamps no bairro Profipo, formou-se um núcleo de interessados em manter as atividades.

“Até então, eu nunca havia pensado em fazer teatro – isso não fazia parte do meu mundo”, conta Silvia Russi Vieira. O grupo encenou, no encerramento da oficina, a peça O canto do povo de um lugar, uma adaptação livre do texto Os meninos cantores de Ping Pong, de Pasqual Lourenço. No ano seguinte, o coletivo foi contemplado em um edital municipal e realizou diversas apresentações da peça nos bairros periféricos da cidade. A experiência gerou a vontade de continuar atuando – surgia assim o grupo Canto do Povo.

Desde então, o grupo trabalhou na montagem de peças baseadas em textos de Artur de Azevedo, Maria Clara Machado, Rachel de Queiroz e Anton Tchekhov. “Em cada uma delas, há um trabalho criativo do grupo inteiro. As peças são concebidas em conjunto”, conta a atriz Andreia Russi. Contando desde o início com o músico Afonso Vieira, o grupo foi definindo uma linguagem marcadamente musical.

“Outra coisa que sempre nos uniu foi a vontade de fazer um teatro comunitário, muito diferente do comercial”, define Marlon Zé, figurinista e maquiador. Desde que deu início à Casa Iririu, a história do grupo passou a se confundir com a da própria casa, firmando parcerias com diversos artistas e grupos joinvilenses que resultaram em trabalhos paralelos.

“Todas as experiências de montagem e leituras que temos feito vão contribuindo para o desenvolvimento dos membros do grupo, com a descoberta de novas possibilidades artísticas”, aponta Hélio Muniz. Mas, conforme aponta Deschamps, algumas opções já foram feitas. “Acabamos nos definindo com uma estética popular.” Atualmente, o grupo trabalha na encenação Canto canta Zumbi, uma adaptação livre de Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, e prepara-se para trabalhar com a peça O Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen.

Hélio Muniz, um veterano do Teatro de Arena em Joinville

Na entrevista a seguir, Hélio Muniz fala sobre o teatro na cidade catarinense e sua busca por uma atuação artística comunitária

Qual era o panorama do teatro em Joinville, quando você mudou para a cidade?

Quando cheguei só havia duas experiências de teatro. O TEU (Teatro de Expressão Universitária), que pouco tempo depois acabou, e outro trabalho, feito por um artista chamado Lucas David em seu espaço cultural. Além disso, um ou outro espetáculo vinha para cá. Não tinha associação teatral nem política pública alguma. E não havia espaços de teatro na cidade.

Quando o teatro joinvilense começou a ganhar força?

A partir de 1996 começaram a surgir alguns grupos. Foi quando voltei a atuar com teatro – até então, trabalhava em uma organização não-governamental. Conheci algumas pessoas interessadas em teatro – entre elas o Norberto Deschamps – e criamos um grupo chamado Os Navegantes da Utopia, que fazia teatro de rua. Fizemos uma peça chamada Os Comilões, e, depois, montamos esquetes de Karl Valentin, artista alemão e um dos precursores do teatrólogo Bertolt Brecht. Pouco depois surgiu o grupo Dionisos Teatro, que é atuante até hoje, e no qual fiquei por 10 anos.

Como foi a fundação da Associação Joinvilense de Teatro (Ajote)?

Luiz Henrique da Silveira instituiu em 2001, como fruto de sua própria cabeça e sem consultar ninguém, o ano do teatro em Joinville. Isso acabou gerando uma mobilização. Constituiu-se um fórum dos grupos e artistas para debater cultura. Pouco depois, do fórum surgiu a Ajote. O movimento se fortaleceu e conseguimos fazer a primeira mostra de teatro da cidade, com 28 apresentações.

Foi com a pressão da Ajote que surgiram as primeiras ferramentas públicas municipais de incentivo ao teatro?

Sim. Foi estabelecido o Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), uma lei que prevê verba direta e financiamento via mecenato. A partir daí foi criado o conselho de cultura, foram realizadas diversas reuniões e encontros e criou-se o Plano Municipal de Cultura, que estabelece diversas metas, inclusive relativas a financiamento. O plano, diga-se de passagem, é totalmente ignorado pelo atual prefeito.

A situação dos grupos hoje é mais confortável?

A verba não é grande, mas a maioria dos grupos conta com algum recurso. Vale destacar, entretanto, que nesse momento a cultura no País todo está sofrendo um momento de baixa muito grande, sem apoio nenhum. Aqui estamos com ameaça do fechamento da Fundação Cultural. Existe um movimento organizado para que o teatro não tenha apoio no Brasil inteiro.

Em relação à formação para as artes, qual é o panorama de Joinville hoje?

Muitos grupos oferecem cursos livres, como a Dionisos e nós mesmos, na Casa Iririu. Além disso, há o curso livre da Casa da Cultura e as oficinas e cursos oferecidos pela Ajote. Se houvesse um curso de graduação em Artes Cênicas em Joinville, haveria gente interessada. Mas o problema das escolas é que elas oferecem cursos, mas não garantem que os formandos entrem no mercado de trabalho. Em Joinville, existe uma ideologia de que se deve formar as pessoas para trabalharem em fábrica. Isso muitas vezes limita as perspectivas.

Quais são suas inspirações para sua atuação teatral hoje?

Entendo que a sociedade está muito pobre no que diz respeito ao debate, reflexão e discussão. Por isso queremos que a Casa Iririu seja um espaço para isso. Descobrimos o teatro dos vizinhos, experiência argentina de caráter comunitário, que nos interessa muito. Além disso, outro referencial forte é o francês Le Théâtre du Soleil, sobre o qual aprendemos muito com a Beatriz Tragtenberg. Interessa-nos muito a questão ética, a não hierarquização do trabalho, a autogestão. Além, é claro, do Teatro de Arena e do dramaturgo e poeta Bertolt Brecht, que defino como um companheiro de viagem.

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