45 anos do LP Laércio de Freitas e o Som Roceiro

Cultura
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Confira entrevista exclusiva com Laércio de Freitas, um dos tantos músicos negros que espelham nossa cultura que começou a se formar em berço africano

Por Caeli Gobbato
Especial para Caros Amigos 

O primeiro a alertar Piki, esposa de Laércio, sobre o tamanho da importância deste LP para músicos, estudiosos e amantes da música instrumental pelo mundo, foi Max de Castro. Chegando de uma viagem pela Europa, Max conta sobre o valor do disco, custando algumas centenas de euros, pousado nas prateleiras das raridades. Então foram feitas as contas pra ver de quanto tempo estávamos de distância daquele novembro de 1972 em que Laércio se juntou com Luís Roberto e o produtor Durval Ferreira para desenharem esse disco após o grande sucesso da música Capim Gordura. 45 anos de muita história pra contar e que trouxeram ao disco uma espécie de retrato recheado de contexto, uma peça-chave pra entendermos os caminhos da nossa música.

Laércio é um dos músicos estruturais da história do País. Um dos tantos músicos negros que espelham nossa cultura que começou a se formar em berço africano. Com os olhos bem abertos para tudo o que era imposto como superior e, da essência de resistência vinda com a diáspora que nos formou, construímos aos solavancos a primeira música a ser chamada de nossa. Um dos precursores dessa revolução de busca pela brasilidade foi Pixinguinha. Ao jongo, ao semba, ao lundu, somaram-se instrumentos de orquestra vindos de uma Europa relutante e ao mesmo tempo impressionada com o que pudemos fazer com isso. Pixinguinha e os Batutas ganharam o país e não só, viajaram para mostrar com orgulho o filho admirável apesar de condenado como bastardo, mas mostrado e sentido como legítimo. Por ser. foi essa uma das vias por onde começamos a construção identitária do Brasil. E assim vamos embalados pelas genialidades de Moacir Santos, Esmeraldino Sales, Itamar Assunção, Luiz Gonzaga, Cartola, assim como nosso Hamilton de Holanda, as vozes de Jovelina, Milton, Filó Machado, Elza Soares... Gilberto Gil... são tantos e tantas! E, por mais que a música seja ainda campo privilegiado em detrimento de outros da arte e ainda fora dela, como os campos de ciências, justiça, educação, pensarmos juntos o que significa a consciência negra é também percebermos que é a consciência do que somos, é auto-valorização, é sermos gratos por tamanha riqueza e percebermos o quanto ainda precisamos abrir olhos, denunciar e fazer compreender que estas pessoas ainda são exceções.

Apesar de ter nascido em Campinas, última cidade a abolir a escravidão no país, Laércio de Freitas, filho de mãe violinista e pai tocador de bandolim, começou cedo a estudar música por intermédio da mãe e aos 16 anos saía do Conservatório formado em piano, arranjo e composição em 1957. Foi indo pra São Paulo aos poucos até começar a trabalhar na rádio Tupi e já na década de 60 estreava a carreira internacional.

Quando compôs a música Capim Gordura em 1970, Laércio estava no México substituindo Luís Eça no Tamba Quatro. Foi a sensação de exílio que trouxe a saudade do Brasil e essa saudade ganhou a forma da casa materna, dos primeiros passos numa Campinas ainda bastante interiorana, com hábitos e singelezas do campo. Falar do campo como nossa história é falar também de saudade, de migração constante para os grandes centros urbanos que marca o sujeito com a falta de alguma essência que só poderíamos resgatar voltando à fonte. História de nosso país, que da mata virgem nasceu. Deste sentimento comum a todos nasce a inspiração de ares campesinos em pleno anos 70, como forma de expressão cheia de juventude e o que vem atrelada a ela como a liberdade, inovação, vanguarda e um tanto de psicodelia da época. Que por sinal foi a época mais difícil e violenta da ditadura, pós AI5.

Isso pode ter contribuído também para a formação do termo MPB, uma espécie de proteção pelo coletivo contra o peso da repressão enquanto as ondas definitivas da Bossa Nova e do Tropicalismo se sucedem e convivem atentas ao Rock´n Roll que levanta multidões pelo mundo e torna-se brasileiro tomando formas tão variadas como a Jovem Guarda, Os Mutantes, Raul Seixas, Tom Zé, Sá, Guarabira e Zé Rodrix que já desenhavam o início do chamado Rock Rural. Aliás, o sucesso Capim Gordura foi uma das primeiras músicas a dar início a esse movimento com que muitos dos músicos da época flertaram por carregar em si a essência de tantos saídos de seus interiores pelo Brasil e por ter tomado de assalto o amor da população que comprava discos aos montes e levou tantas vezes Laércio ao Chacrinha, grande palco televisivo da época. A música foi marco na carreira do maestro e estopim para a gravação do LP que mescla a vida do interior com a estrangeira Mammy Blue e o fervo da Bahia presente no Chuva, Suor e Cerveja de Caetano. O disco é uma panorama da época muito bem desenhado, falando sobre a explosão de liberdade, descobertas e fusões e se posicionando como disco de basilar de nossa história musical.

A volta de Laércio para o Brasil foi ao Rio de Janeiro onde integrou o sexteto de Radamés Gnattali, influência importante em sua carreira, assim como os anos que passou na Orquestra Tabajara. De formação erudita, entrou no mundo da música popular também como compositor e arranjador, com músicas gravadas por grandes nomes da música instrumental e arranjos para tantos outros como o disco Quem é quem de João Donato.

Conhecido no meio musical como Tio, sua presença carinhosa e vívida desperta admiração dos mais novos que sentam atentos a volta do piano para ouvi-lo tocar e contar suas histórias. Já perto dos 80, acumula muitas de diferentes vertentes, de quem conhece boa parte do mundo e já foi até ator em algumas novelas, uma delas no seu ambiente mais natural, fazendo papel de pianista.

Estas rodas de música e conversa acontecem muitas vezes na casa de Arismar do Espírito Santo, multiinstrumentista, dos mais importantes e criativos do cenário nacional, quem Laércio convidou para tocar em uma das duas faixas inéditas para completar a edição comemorativa do disco. Na outra faixa está Thalma de Freitas, sua filha atriz, compositora e cantora, em música feita para ela ainda na barriga de Piki. Este disco chegando renovado é um presente aos nossos dias, reunindo talentos e história, encabeçados pelo maestro que figura na capa original com seu formoso Black Power e olhar profundo rodeado pelo título em cores vivas. Poderia muito bem ter sido feito agora com seu verniz moderno-retrô super atual que conversa com a nova geração, mas é bem mais que isto, responde ao agora e aos buscadores do “bom som”, músicos, pesquisadores, apaixonados pela música instrumental que ainda não ouviram se juntarão aos apreciadores efusivos do disco para ouvir som tão vivo e memorável, com o selo da qualidade das boas obras que permanecem.

Entrevista meio cantada com Laércio de Freitas. (Recomenda-se ler ouvindo seu LP).

Como foi o processo de realização  do LP Laércio e o Som Roceiro?

O Capim Gordura eu compus no México, de saudade do Brasil. Estávamos lá já há um ano e pouco, tinha mandado passagem pra Piki, ela foi pra lá... Música de interior, né? Daí quando voltamos e nos instalamos no Rio eu fui trabalhar no grupo do Luis Carlos Vinhas, estavam inaugurando uma casa de nome Flag. E eu e o Bebeto fomos tocar com ele. Bebeto tocando contrabaixo e eu tocando piano e órgão. E aí nós começamos a tocar a música lá e pegou.

O Hélcio Milito, baterista do Tamba Trio ouviu isso e entrou em contato com o Manolo Camero que era o dono de uma gravadora do Rio e ele topou gravar um disco, um compacto simples. E gravamos de um lado o Capim Gordura e o outro, curiosamente, Chovendo na Roseira, do Jobim. Posteriormente esse compacto simples levou com que eu gravasse o Som Roceiro para a CID (Companhia Industrial do Disco), isso já produzido pelo Durval Ferreira. Foi interessante que lá no conjunto do Vinhas acabou entrando o Luis Roberto, mineiro, seresteiro, tocava muito bem violão... No disco ele tocou contrabaixo, muito bem, e nós compusemos algumas músicas juntos. Ele muito bom letrista, mineiro sabe das coisas de interior, né? Foi muito legal, foi muito tranqüilo. Ele escreveu letras, coisas maravilhosas, como por exemplo Pontão da Serra:

Canta: O sol avermelhou no pontão da serra, clareando a terra verde de esplendor, acordando a passarinhada (Olha que danado!) que de galho em galho brinca no orvalho que dormiu na flor – Abre um grande sorriso mudo como quem exclama sobre tamanha beleza, para em seguida continuar – E a poeira se levanta quando o vento canta revolvendo o chão e ondulando a água mansa que ao correr comprida vai levando a vida por esse meu sertão. Ô sertão!

Dessa saudade quando você morou no México te veio a música do interior. Tem a ver com pensar no Brasil e ser levado pra sua tera, Campinas, a música da infância?

É, o caráter da música é de interior, música caipira, né? A tonada campeira, né? Mas o que vale é a intenção da composição.

Começa a cantar: O verde da minha roça inté dá gosto ver, é pura mansidão, vai lá da porta da minha tapera até lá pras bandas do ribeirão. Mas tem um tal de capim gordura, Oi lá! Que é danado de ruim, praga pra crescer eu nunca vi assim. Nesse tal de capim gordura Oi lá! Tem preá pra merréis, cada touceirão tem pra mais de dez – risada comprida – é tudo uma coisa alusiva... E curiosamente, depois do capim gordura nós fizemos várias vezes o Chacrinha. O pessoal da banda do Chacrinha tocava junto, improvisava junto, virava uma farra maluca! Eu acredito que essa coisa que depois rolou aqui em São Paulo, o Rock Rural... Eu quero uma casa no campo... Zé Rodrigues. As pessoas passaram a olhar um pouco esse lado. Aconteceu muita música nesse sentido. Inclusive eu tenho uma música que diz: (RECITA) Agora todo mundo fala da roça, mas ninguém quer ir pra lá levantar de madrugada pra ver o sol raiar ouvindo o cantar dos pássaros e o murmúrio do rio amigo correndo manso e sereno em direção ao mar. Ninguém parou pra ver um pé de taquara quando está para brotar e nem ouviu o som que vem de um vale em noite de luar. Não viu a braquiária se espalhando colina acima, da banda lá do serrado até o Riachão. Pode crer! É tanta coisa que não dá pra contar, só quero cantar as coisas lindas da natureza. Como é que pode tanta beleza ser parte da gente e não se notar?

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Isso faz parte de um outro ciclo que eu quero um dia gravar, é um ciclo de canções que se chama queixa roceira, isso vai pro futuro, tá no forno. É algo que eu quero um dia realizar. Mas o capim gordura veio dessa época, 1971, 72, e o Som Roceiro é dessa época também, com Luis Roberto...

O disco é bem cantado, tem um ambiente de festa, de amizade e descontração... Como foi organizado o coro?

No coro está o Emílio Santiago, o Durval Ferreira, que foi o produtor, o Jaime Alem, e todos os músicos. O Esdras era o diretor de clima do estúdio, gravamos uma vez um disco, ficamos o dia inteiro gravando e o Esdras chegou com empadinhas e muitas garrafas de Cidra Cereser quente e sacos de gelo. Não tinha champagne e ele trouxe cidra. E a gente trabalhando e gravando e tomando cidra. Com gelo!

Mas é sempre uma grande alegria. Esse talvez tenha sido mais. A escolha do repertório foi tão natural, tão fluida... Eu e o Luis Roberto fomos escolhendo juntos e o Durval entrou com Mammy Blue, Chuva, Suor e Cerveja... Quando ele falou Mammy Blue o Luis falou logo: Ô mamãe azul!

E uma das músicas extas do CD, Laranjeira, parceria sua com Luis Ceará composta logo em seguida ao Som Roceiro, tem participação da sua filha Thalma de Freitas.

(CANTANDO) Já rocei o mato compadre, a terra tá tão boa, tão pronta pra gente cultivar. Já plantei semente e agora que a chuva cai bonita vão crescer as árvores pra gente se alegrar. Passou o tempo e aquele arvoredo, regado com muito amor, virou laranjeira, ô laranjeira! Tão formosa que só, apanhada de flor!

E o mais maravilhoso é que a Thalma está cantando uma música que foi feita pra ela, quando ela estava na barriga da Piki. Esse disco traz uma sensação familiar, de sentimentos profundos, também por conta da alusão à minha terra natal. Mas quando eu falo de Campinas eu falo de coisas de antes, não de agora. Aliás, Campinas tem um bosque, o Bosque dos Jequitibás. Eu nasci no bairro do Bosque. E no bosque havia piquenique, passava a tarde lá... E eu compus uma música que a orquestra sinfônica de Campinas tocou, se chama justamente Bosque do Jequitibá.

Que é a outra música extra do CD.

Não, essa é outra, tem duas músicas com esse nome: uma que é música sinfônica e a outra que é um choro, que é essa que entrou no disco como faixa-bônus, tem um solo do Arismar (do Espírito Santo). Eu tocava na casa dela e ele se encantou com o choro. Aí quando surgiu a idéia de gravar pensei logo nele.

Quais são as suas referências de músicos negros?

Tem o Pixinguinha, né? Mas a minha referência mesmo é esse senhor aqui (Mostra a capa de um de seus discos): São Paulo no balanço do Choro: ao nosso amigo Esmê) Esmeraldino Sales. Ele tocava cavaquinho na Tupi. Aliás, uma coisa curiosa é que, no disco da Elza Soares, quando estávamos preparando o repertório com ela, eu perguntei: Elza, você cantaria duas músicas do Regional do Esmeraldino? E ela disse: Claro! Então escolhemos as músicas. Aí estávamos no estúdio já, na Odeon, eu passando o Regional e o Nivaldo, operador de áudio, falou: maestro, a Elza está indo aí e ela quer falar com o senhor, pode? Claro, vem. E ela chegou, eu perguntei: O que é, filha? Tio, deixa eu cantar com eles? Aí o Nivaldo montou o microfone e ela cantou junto com o pessoal.

Com o Esmeraldino eu aprendi muito sobre compor introduções para as músicas. Ele compunha introduções de 4 compassos só, não precisava mais. Eu o conheci em São Paulo, na Rádio Tupi. Eu era moleque, estava tocando piano no auditório, com tudo apagado, aí ele passou e disse: Toca moleque!

Amigo, muito amigo... o Erlon Chaves era o maestro da rádio e pediu pra eu montar um trio. Aí eu montei com o Esmeraldino e o Fuminho.

E o porquê deste apelido Tio?

Isso começou lá em Campinas, eu já tocava. Eu comecei a tocar piano aos 7 anos de idade. Entrei no conservatório com 7 e saí com 16, 9 anos de conservatório. Depois eu pedi 1 ano de repasse técnico de todos os 9 anos. Eu sentia que precisava. E foi concedido. Na realidade foram 10 anos. Foi muito bom! Muito bom. Eu era CDF, não repetia de ano, estudava. A partir dos 9 anos começou o meu interesse em escrever para orquestra. Eu estava muito apaixonado! Tinha uma vitrola grande no centro espírita onde meu pai era diretor e tinha muitos discos. Aí um dia eu perguntei se ele me ensinava a mexer nos discos. E ele me ensinou e eu ia pra lá e ficava... me alimentando. Meu interesse já era permanentemente voltado para esse propósito. Eu ia procurar compêndios sobre música. O primeiro deles foi um livro sobre orquestração para bandas.

Mas você tinha perguntado sobre esse apelido de Tio, né? Eu não sei bem, mas descobri que ser tio é bom. Tio é aquele que deixa fazer o que a mãe e os pais não deixam.

E como é fazer música pra cinema (Laércio ganhou o Kikito de melhor trilha sonora pelo filme A massa que elas gostam em 1999)?

Há um roteiro, né? Procura-se fazer uma música que tem a ver com o fluxo do roteiro. Música pra cinema é um belo exercício na área de composição, mais composição do que propriamente arranjo. Porque o arranjo é a roupa da música, a composição não, ela corrobora com o texto e com a história. Eu tenho uma definição que me satisfez e que veio intuitivamente: quando eu escrevo um arranjo eu escrevo para a Música. Ela é uma mulher. Eu Procuro trabalhar de uma forma tal que para portar essa roupa que eu faço pra ela, ela não tenha que mudar o jeito de caminhar. E aí, depois que ela passa é que ela incomoda. É o perfume dela que fica.

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