“Cine Splendid”: Ficções reais de uma história em comum

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“Cine Splendid”: Ficções reais de uma história em comum

Por Natalia Santos

“Vocês sabem onde fica o Cine Splendid?  Na rua Estrella, aproximadamente a 1771 quilômetros do centro de Belo Horizonte…” e 56 anos atrás!  Cabe a mim explicar isso durante o espetáculo teatral “Cine Splendid”, apoiado pelo Fundo Iberescena (1) e o prêmio Funarte Myriam Muniz, em  cartaz de 16 a 27 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. Talvez, alguns paraguaios (dois atores, duas atrizes, um diretor, uma produtora e uma assistente de direção) e alguns brasileiros (uma dramaturga, outro diretor, outra produtora, além de toda uma equipe técnico-criativo) possam fazer que o Cine Splendid - hoje, um estacionamento-, não esteja tão distante...

Talvez, esse lugar em Assunção, capital do Paraguai, possa ser/estar aqui-agora, em Minas Gerais, Brasil, frente à Praça da Liberdade, em um teatro, através da construção de uma ficção.

Estamos em 1961.  É uma tarde tranquila, calma.   Um homem solitário sintoniza uma rádio.  Algumas vizinhas olham as crianças brincar.  Uma mãe fala com seu filho.  Um pai discute com a filha, que está com problemas na escola.  Alguns amigos estão em um bar, contando histórias de filmes, cantando e dançando.  Um homem vende bolos.  Todos vão ao cinema, ao Splendid, assistir a “Bomba na Selva do Terror”.

O jogo espaço/tempo pode trazer risos durante o pacto teatral.  Entretanto, o projeto (que incluiu várias etapas tanto no Paraguai como no Brasil) busca ir além.  Quer se converter em um diálogo entre dois povos.  Tenta ter os “olhos muito abertos” tanto para a realidade histórica como para a atual.  Tenta fazer com que a arte transcenda até o social, sem se transformar em panfleto político.

A mineira Sara Pinheiro (2) toma como ponto de partida o livro “O Crime do Cine Splendid: Stroessner, os nazis e o Paraguai da década de 60”, do paraguaio Juan Marcos González García (3).  Aos dados históricos extraídos daí e de outras fontes tanto documentais como testemunhais, a autora soma a sua visão: a América Latina teve (e ainda tem) uma história em comum, sobrevoada pelo “Plano Cóndor”, um voo rasante que para muitos foi silencioso e invisível.  

Cinquenta mil pessoas assassinadas, trinta mil “desaparecidas” e quatrocentos mil presos são algumas das cifras confirmadas pelo “Arquivo do Terror” (4) – uma série de documentos redatados durante a ditadura de Stroessner, que somente foram encontrados em 1992.  As descobertas realizadas nesse ano e as de anos posteriores sustentam a sistematização de dados e análises de investigadores (5).

No Paraguai, a Comissão de Verdade, Justiça e Reparação -criada em 2002 com o reconhecimento de entes internacionais- se faz realidade desde a sanção e promulgação da Lei 2225/03 por parte do Congresso Nacional e se converte em Direção Geral da Verdade, Justiça e Reparação, dependente da Defensoria Pública (6).  

No Brasil, uma comissão similar vê a luz recentemente em 2012, quase 30 anos despois do fim do regime militar (7). “Ao instalar a Comissão de Verdade não nos move o revanchismo, ódio ou desejo de reescrever a historia de uma forma diferente do que aconteceu, mas nos move a necessidade imperiosa de conhecê-la em plenitude, sem ocultamentos, sem camuflagem, sem vetos e sem proibições ”, diz o discurso da então presidenta Dilma Rousseff. (8)

MITOS REAIS

A sociedade paraguaia conserva (até hoje) muitas de suas características rurais e crenças ancestrais.  À mitologia local oriunda do guarani -com gênios da natureza e criaturas monstruosas- se somam novos personagens: os Pyragues, seres de pés peludos, aqueles que têm o caminhar silencioso, aqueles que não vemos chegar; mas que veem tudo, registram tudo, delatam tudo.  

No dia 20 de setembro de 2008, o jornal ABC color publicou uma lista certificando que o aparato que sustentou o terrorismo de Estado tinha mais de 2800 colaboradores. (9)  Nessa sequência de nomes qualquer um podia reconhecer uma pessoa pública respeitada, um vizinho, um professor, um juiz, um médico, um ministro, um amigo… um parente!

A “Chapeuzinho Vermelho” –mais conhecida pelos contos infantis de tradição europeia- entra no imaginário paraguaio não como vítima, senão como o algoz.  É a denominação que se popularizou da caminhoneta Crevrolet Custom 10 utilizada para levar aos detidos aos lugares de sequestro, reclusão e tortura (10).

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Stroessner (Paraguay-1954), Castelo Branco (Brasil-1964), Bordaberry (Uruguay-1973), Videla (Argentina-1976) são os nomes que soam na rádio que perde a sintonia em cena.  

É um dia qualquer (para a ficção). Um homem é assassinado… um polaco… um informante da polícia.  Outros iguais a eles são mortos, outros elementos da ditadura.  

A notícia (na realidade) não é tão comentada.  Poucas linhas são dedicadas ao caso nos jornais, algumas caricaturas, alguma avó conta uma anedota sussurrada; décadas depois, aparece um livro… mais tarde, um texto teatral e posteriormente um espetáculo teatral.

HISTÓRIA EM COMUM

“Suponhamos que o Cine Splendid é ainda o Cine Splendid e está… aqui”, repito na peça.

Estamos em 1961, em Assunção (para a ficção); mas poderia ser 1964 no Brasil, ou em 2017 na Argentina…  Pode ser (em um descuido) também em 2020 em outro país sul-americano, pode ser inclusive agora mesmo em qualquer lugar do mundo…  

Então, neste momento, a jornalista faz um corte, como os muitos cortes que há durante a peça de teatro que encena, e se observa (já em primeira pessoa) em seu papel de atriz: “Sara olha para o seu país através do meu, e eu me aproprio disso para entender meu próprio lugar”, me digo.

“Cine Splendid” (11) é isso, um compartilhamento de visões, opiniões, conhecimentos, incertezas… traçar novos caminhos sobre temas que outros já percorreram, discutiram,  representaram.  Talvez essa trilha seja ainda muito pequena: um espetáculo de pouco mais de uma hora que revisa a história desde o cotidiano, desde essa família que janta, desde esse homem que reclama pelo telefone, desde essas mulheres que criam seus filhos.  Ainda assim, Brasil e Paraguai decidiram dar as mãos e através da arte caminhar juntos, construir realidades culturais que transpassam as fronteiras imaginárias.

Natalia Santos é Atriz, dramaturga, diretora e periodista paraguaia.  Atua na peça teatral Cine Splendid, de Sara Pinheiro, com a direção de Pablo Lamar e Ricardo Alves Jr.

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DADOS Y ENLACES:

(1) Com dois apoios do Fundo de Ajudas para as Artes Cénicas Ibero-americanas. Ajuda ao processo de Criação Dramatúrgica e Coreográfica em Residência para Sara Pinheiro Brasil (2015). Ajuda para Coprodução de Espetáculos de Teatro e Danza Ibero-americanos para Edith Correa Huerta. Paraguai-Brasil Espacio E- Entrefilmes. (2016/2017). www.iberescena.org

(2) Foi uma das idealizadoras, curadoras e organizadoras do Janela de Dramaturgia. 

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