Antropóloga Betty Mindlin mergulha na cultura indígena em novo livro

Cultura
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Crônicas Despias e Vestidas narra parte da vida da antropóloga ao lado de indígenas de várias tribos

Por Eduardo Sá
Especial para Caros Amigos

Livro-MindlinUma viagem à cultura e história indígena, além de diversas outras manifestações artísticas mundo afora, é o que a antropóloga Betty Mindlin nos oferece na sua mais recente obra. Crônicas Despidas e Vestidas nos leva às lutas e riquezas que envolviam os povos nativos no fim do século passado e a diversas expressões culturais do universo do homem branco: literatura, cinema, música e pintura. É uma boa oportunidade para a nova geração se apropriar um pouco mais dessa história que lhe é omitida pelos meios tradicionais de comunicação e educação, e ao público que vivenciou essa época refletir sobre seus efeitos atuais. O que passou está vivo até hoje, sobretudo no cenário atual do País.

Ao reunir uma série de artigos publicados nas décadas de 1970 e 80, a corajosa e aventureira pesquisadora nos conta lembranças de sua trajetória em convívio com os índios em plena ditadura militar e com artistas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo em que resgata as lutas travadas em defesa da demarcação de terras de povos originários no Mato Grosso e toda a Amazônia, além de outras histórias de indígenas na América Latina, relembra suas experiências ao lado de personalidades como o escritor mexicano Octavio Paz e os lutadores religiosos dom Pedro Casaldáliga e dom Tomás Balduíno.

Costumes

Não se trata de um olhar somente apaixonado e romântico, já que traz aspectos inter-étnicos de guerras e costumes entre os índioss também praticados por toda a humanidade. A sexualidade é outro assunto forte em vários trechos da sua obra, nos revelando temas tabus em nossa sociedade como o incesto, o aborto e os diversos papéis exercidos pela mulher nessas aldeias. Tudo com base não só nas suas impressões pessoais, mas também nas centenas de relatos acumulados ao longo da sua imersão ao lado dos povos visitados.

O primeiro curso oferecido pelo Conselho Missionário Indigenista (Cimi), um dos principais órgãos em defesa da luta indígena hoje; a lembrança de figuras históricas como de Apoena Meirelles, que foi assassinado e participou de forma determinante no indigenismo até chegar a presidir a Funai; a tentativa de criação de uma Universidade da Selva com o mestre Paulo Freire, e o relato de lideranças dos povos Arara Karo e Gavião Ikolen no período de contato com o branco quando ocorreu a trágica chacina que ficou conhecida por Massacre do Paralelo 11, no Mato Grosso, são alguns dos episódios riquíssimos relatados nas crônicas reunidas nesta obra.

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Diversidade

As relações sociais apresentadas remontam a um cenário rico em diversidade, repleto de contradições ao olhar preconceituoso de todos nós. Daí a sua riqueza ao quebrar estereótipos ainda profundamente arraigados no senso comum da sociedade brasileira. Mitos, ritos, costumes, tradições, hábitos alimentares, religiosos e artísticos, dentre outros dessas culturas milenares, reivindicam uma identidade que merece e deve ser integrada de forma respeitosa à nossa nação. Uma raiz nossa umbilical ainda misteriosa para a maioria, mas que vem se mostrando cada vez mais universal e necessária diante dos embates ambientais e culturais do mundo contemporâneo.

Se há anos atrás Betty Mindlin estava no meio da floresta defendendo esses povos dos madeireiros, latifundiários, mineradores e outros setores que perpetuam o genocídio indígena, hoje ela continua a luta política por meio de mais esse livro. É mais um esforço de manter viva a memória de um povo que sempre cultuou sua vida através da oralidade, e foi obrigado a registrá-la para que não se perca frente a tanta matança e opressão. Muitos indígenas já estão nessa frente de luta há algumas décadas, e a respeitada antropóloga caminha junto a eles.

Beleza e horror

Isso fica muito claro quando ela diz: “É assim mesmo estar entre os índios: a qualidade de erotismo, leveza, desejo de prazer é o que mais toma quem tem o privilégio de conhecer o convívio na floresta. É trágico pensar que a humanidade, ao entrar em contato com um modo de ser poético, artístico, inusitado e desconhecido, se oriente para consumir e se apropriar, destruindo, em vez de fruir, preservar, participar. O quadro é magistral, percorre a beleza e horror máximo”.

Dentre os muitos filmes e livros indicados nas crônicas, está o Adanggaman, do diretor costa-marfinense Roger Gnoan M’Bala. Após contar a trama da película, ela interpreta: “Para nós que amamos os povos com fortes laços comunitários, sem propriedade privada, mais ligados à natureza, com tecnologia pré-industrial, uma lição: há tiranos e monstros em todas as sociedades, e gritos de liberdade e coragem em toda parte”. É com esse estado de espírito que Mindlin nos traz mais esse livro, pois em suas próprias palavras noutro trecho ressalta a importância de que “é preciso ensinar o que é injustiça, despertar a indignação e dar lugar ao amor”.

Betty Mindlin é antropóloga e economista, dedicou a maior parte da sua vida aos estudos e lutas indígenas e é autora de diversos livros, dentre eles Moqueca de Maridos (1997) e Diários da floresta (2006), traduzidos em várias línguas.

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