Uma voz para as mulheres no Mali

Cultura
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Oumou Sangaré divide o ativismo entre a música e ações de combate à fome e violência contra as mulheres

Por Aray Nabuco e Lu Sudré

Ativista no movimento feminista em Mali e embaixadora das Nações Unidas (ONU), a cantora e advogada Oumou Sangaré está no Brasil para uma série de shows do Mimo Festival, que abre nesta sexta (6), em Paraty, e segue no Rio de Janeiro e Olinda (PE). Em entrevista à Caros Amigos, contou das ações que promove em seu país, com o agravante do conflito político, e da condição da mulher em Mali.

Oumou utiliza a música para levar uma mensagem de consciência para as mulheres nos rincões dos esquecidos e sua fama para penetrar nas esferas políticas – seu trabalho contra a fome lhe rendeu o título de embaixadora da FAO. Conta que faz questão de lançar novas músicas com frequência, pois é a forma de abrir horizontes em um país arrasado por guerra civil e de cultura fortemente patriarcalista – o casamento forçado de meninas é uma das questões que enfrenta.

Oumou divide o palco do festival com outros nomes internacionais e nacionais ao longo da programação em Paraty. Os shows ocorrem em vários lugares – confira mais no site do festival.

Leia a seguir a entrevista.

Caros Amigos – Você conhece algo sobre a realidade da mulher no Brasil? Como você compararia Mali e Brasil nos problemas que afetam as mulheres?

Oumou Sangaré – Seria excepcional, para não dizer impossível, encontrar lugares onde as mulheres têm realmente o mesmo status que os homens na sociedade. Mas não estou familiarizada com as questões enfrentadas pelas mulheres no Brasil. Estive apenas uma vez no Brasil e posso dizer que vocês têm mulheres fortes, eu as vi dirigindo seu país e assumindo responsabilidades em muitas estruturas.

Caros Amigos – O que a levou a se engajar no combate ao casamento infantil?
Oumou – Casamento forçado é uma das maiores injustiças em nossa sociedade. Eu pessoalmente não enfrentei isso em minha família, mas temos a poligamia. No meu país, um homem pode casar com quatro mulheres. Meu pai casou com uma segunda esposa quando eu era criança e finalmente nos abandonou. Nós lutamos muito para sobreviver, mas ele não fez nada fora da lei. Hoje em dia, as pessoas no meu país estão mais e mais contrárias a algumas práticas, circuncisão feminina era uma prática comum há não muito tempo. Eu tento cantar sobre todas essas questões e encorajar mulheres e toda a sociedade para lutar contra essas enfermidades.

Caros Amigos – Mas o casamento infantil é uma relação informal da tradição?
Oumou – A realidade de nossos países é muito diferente do que países com condições apropriadas para o desenvolvimento. Nós estamos muito longe de ter um mínimo de estrutura para avançar e proteger a pessoa e fazer a lei funcionar. Muitos estão lutando para conseguir o que comer naquele dia.
A lei diz que 16 anos é a idade legal para garotas se casarem, mas não temos ferramentas para controlar isto. Existem muitas campanhas que buscam encorajar as famílias a deixar suas meninas crescerem, a ir para a escola, aprenderem por si mesmas e evitar o casamento na infância. Algumas coisas estão sendo feitas nesse sentido.

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Oumou cBenoit Peverelli 3Caros Amigos – E como é feito esse trabalho, por conscientização ou há alguma ação direta, por exemplo, do sistema judicial?
Oumou – Existem as campanhas de conscientização e há iniciativas para criar algumas novas leis, mas tudo é tão lento. nosso país é muito rural e é difícil criar uma estrutura de trabalho fora da capital, Bamako.

Caros Amigos – Como lidar com a tradição cultural própria de um grupo ou nação, com elementos que são considerados violações de direitos humanos, mas sem cair em uma imposição de uma visão colonialista?
Oumou – Isso é verdade, é difícil julgar nossos países com a mentalidade ocidental, nós precisamos ser entendidos dentro de nosso contexto social. As tradições têm um forte valor aqui, nós não achamos que são todas ruins, algumas delas são, em parte, responsáveis pelo nosso senso de comunidade. Mas outras, nós devemos deixar de lado.

Caros Amigos – Qual você diria ser o maior problema enfrentado pelas mulheres em Mali, por exemplo, no mercado de trabalho? Existe alguma particularidade em relação ao Brasil?
Oumou – Nossa economia é muito baseada na agricultura, nós estamos muito dependentes de ajuda internacional. Educação é muito necessária para nossas novas gerações. Um dos nossos maiores valores é a música, nosso país exporta muitos músicos e somos conhecidos no exterior por causa da música. Como no Brasil, imagino que as mulheres que trabalham nas mesmas funções que homens não recebem o mesmo salário. E em muitas outras questões nós temos semelhanças.

Caros Amigos – Como profissional e artista você pode dizer que é uma exceção entre as mulheres em Mali?
Oumou – Em um sentido sim, posso dizer que fui uma das primeiras a se envolver em denúncias de questões que me preocupam e usar minha música. Nesse sentido, encorajei outras a fazer isso e, obrigado Deus, nós somos agora mais e mais. Também decidi ajudar meu país a crescer e investir em desenvolvimento, criando empreendimentos dando oportunidade a outros.

Caros Amigos – Em meio a esse trabalho, como você vê a ascenção do discurso fascista que reafirma o machismo e o patriarcalismo?
Oumou – É um perigo real, nós precisamos olhar para nosso passado, a história da humanidade tem nos mostrado que esse não é o caminho. Estou preocupada sobre o quão rápido nós esquecemos nossos enganos. Nós somente avançaremos como uma humanidade saudável com uma perspectiva diferente, com mais democracia, mais colaboração. Não vamos parar a imigração criando muros, precisamos ajudar os países de origem desses imigrantes a se desenvolverem, esse caminho eles não podem deixar.

Caros Amigos – Como você avalia o trabalho das Nações Unidas em Mali? Existem outras entidades atuando no seu país?
Oumou – É vital para nós, não estamos enfrentando uma situação dura atualmente, nós não podemos arcar com ele sozinho e é um problema global, não somente nosso problema.

Caros Amigos – O discurso de empoderamento das mulheres tem se espalhado no mundo todo. Existem organizações ou grupos feministas em Mali?
Oumou – Sim, existem muitos grupos e associações de mulheres que tentam preservar os direitos femininos. Tem ainda um pequeno grupo de mulheres na política ou que exercem posições relevantes nos negócios. É um time que está crescendo.

Caros Amigos – Em 2012, Mali foi dividido em dois por grupos radicais islâmicos. Como está a situação atual?
Oumou – A situação continua muito complicada e frágil. Em Bamako, a capital, as coisas parecem ter voltado à normalidade porque as áreas rebeladas estão longe, mas isto não pode nos fazer esquecer o risco real e não devemos permitir que essas pessoas destruam nosso país.

Caros Amigos – Como você define sua música, uma “arma de combate” em favor da emancipação feminina?
Oumou – Na minha música sempre está uma mensagem direta para uma causa consciente. Sei que tenho chance de ser ouvida por muitos e a todo o tempo lanço um novo álbum. As pessoas em Mali querem ver o que eu tenho a dizer, a palavra é muito importante na minha música.

 

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