Em novo documentário, Silvio Tendler trata do poder homicida dos bancos no capitalismo de cassino

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Em novo documentário, Silvio Tendler trata do poder homicida dos bancos no capitalismo de cassino

Por Viomundo

O documentário, que tem como fio condutor a viagem de trabalho de um podólogo e depoimentos de economistas e pensadores renomados, será exibido dias  12 e 13 de outubro.

No momento em que o mundo se depara com a perda progressiva de direitos sociais, rendidos aos interesses do sistema financeiro, Silvio Tendler vai direto ao ponto que atinge toda a sociedade, independente de posicionamento político, com o lançamento de Dedo na Ferida.

O documentário, patrocinado pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros, selecionado para a mostra competitiva do Festival do Rio, traça um panorama do cenário contemporâneo com depoimentos de economistas que estão em ou que já estiveram em cargos importantes no mundo e pensadores respeitados.

O filme será exibido no dia 12, às 13h, no Cine Odeon Net Claro, onde haverá também um debate com Silvio Tendler e a economista Laura Carvalho, e no dia 13, às 19h, no Kinoplex São Luiz 1.

O novo documentário de Silvio Tendler, reconhecido por mais de 80 obras de cunho histórico e social, aborda a influência do capital na política.

“É uma crítica à política dominada pelo sistema financeiro. Você não discute mais o dinheiro a serviço da produção”, diz Tendler, lembrando que se trata de um fenômeno mundial.

“Acho que é a primeira vez que vamos discutir com profundidade a força do sistema financeiro na economia”, acrescenta.

Para traçar um paralelo entre essas análises e o cotidiano dos afetados pelos poderio econômico, Silvio usa como fio de ligação a viagem de trabalho de um podólogo que mora em Japeri — cidade que tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado do Rio de Janeiro — até Copacabana, onde exerce sua profissão.

“O tempo de deslocamento dele todo dia é o tempo de uma sessão de cinema. É o tempo que ele não vai ao cinema. Enquanto ele vai de Japeri à Copacabana poderia estar assistindo ao filme”, lembra o cineasta.

Dedo na Ferida discute uma sociedade na qual ele é um cidadão à margem, ele não tem uma conta no banco, ele não vai ao cinema, nem ao teatro. Não tem uma vida ativa, é um cara que trabalha para sustentar a família. Acredito que uma das reflexões para quem assiste ao documentário é as pessoas perceberem que está na hora delas terem uma vida interessante também, acredita Silvio Tendler.

Entre os depoimentos da obra estão os de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia; Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil; Paulo Nogueira Batista Jr, vice-presidente dos banco dos Brics; o cineasta Costa-Gavras; os intelectuais Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal), David Harvey (University of New York, Estados Unidos) e Maria José Fariñas Dulce (Universidade Carlos III, Espanha); os economistas Ladislau Dawbor (PUC-São Paulo), Guilherme Mello (Unicamp) e Laura Carvalho (USP), entre outros pensadores que interferem no mundo contemporâneo.

Renda de metade da população mundial está nas mãos de 65 famílias

O filme também é uma aula de economia que deixa claro que para 1% da população mundial, que detém o poderio econômico, uma crise não deve ser desperdiçada. É este pequeno grupo que, em nome dos interesses do grande capital internacional, comanda o destino dos recursos do planeta.

Quebras de bolsas de valores, estouro de bolhas especulativas e a bancarrota de países que levam famílias para linha da miséria são oportunidades para aumentar o capital, o poder e a influência deste grupo.

Eles são os donos do poder. 65 famílias têm, aproximadamente, a mesma riqueza que metade da população mundial.

Bancos, seguradoras, fundos de investimento e elites econômicas navegam em uma esfera onde taxas de juros e dívidas de governos são a moeda mais forte.

Dedo na Ferida discute o retrocesso ideológico a posições neoconservadoras pautado pelo empobrecimento da classe média, pela falência dos Estados e pelo desemprego.

Examina de que forma o capitalismo deixou de ser produtivo para se tornar meramente especulativo, motivado pela aposta na geração de dinheiro fácil.

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O sistema financeiro, que deveria servir ao propósito de levar recursos dos setores superavitários para os deficitários interessados em investir em produção, abandonou o papel de “atravessador” e se assumiu como fim principal das transações econômicas.

Os governos nacionais perdem autonomia e passam a lutar contra massas de capital que circulam livremente pelo globo. Grécia, Espanha, Portugal, Brasil e tantas outras nações veem seus destinos definidos pelos interesses da esfera financeira.

Grandes corporações, que, por vezes, detém orçamentos mais robustos do que o de alguns Estados, atuam como um “governo sombra”, guiando políticas públicas que favorecem à maximização de seus lucros.

Consideradas importantes demais para falir, grandes corporações envolvidas diretamente na crise que atingiu o sistema econômico internacional em 2008 não foram responsabilizadas pelo estrago causado na economia produtiva.

Operando dentro da lei e socorridas com dinheiro público, seguem acumulando um capital volátil, transnacional, pouco produtivo e guardado em paraísos fiscais. E elas estão prontas para lucrar na próxima crise.

Novos frutos na parceria com o movimento sindical

Ampliar o debate com a sociedade brasileira sobre os crimes cometidos pelo sistema financeiro internacional em sua trajetória de semear a miséria em todos os continentes foi um dos principais motivos para que nascesse mais uma parceria do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) e da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) com Silvio Tendler.

Juntos, em 2014, produziram o documentário Privatizações – A Distopia do Capital. Em 2017 assinam o Dedo na Ferida.

“Fundamentalmente quando pensamos no filme Dedo na ferida, o que nos moveu foi a necessidade de promover o debate no Brasil sobre um tema tão árido e tão distante da população. A captura dos governos nacionais pelo capital financeiro internacional é algo concreto, é algo evidente, mas que poucas pessoas enxergam. Queremos discutir isso com a população”, afirma Clovis Nascimento, presidente da Fisenge.

“É urgente popularizar, levar as informações da situação que o Estado brasileiro vive para a maioria das pessoas. O cinema, sua narrativa didática, permite isso. A proposta é que a exibição do Dedona Ferida abra portas para debates em amplos segmentos sociais, para que seja apropriado por todos. As pessoas têm que ter consciência do que está ocorrendo. Para que, a partir da consciência, tenham capacidade de se indignar, de se mobilizar, de se rebelar e, talvez, fazer ecoar o grito de ‘BASTA’ nisso tudo que vivem hoje”, defende Olímpio Alves dos Santos, presidente do Senge-RJ.

Sinopse:

Dedo na Ferida trata do fim do estado de bem‐estar social e da interrupção dos sonhos de uma vida melhor para todos em um cenário onde a lógica homicida do capital financeiro inviabiliza qualquer alternativa de justiça social. Milhões de pessoas peregrinam em busca de melhores condições de vida enquanto o capital só aspira a concentração da riqueza em poucas mãos.

Neste cenário de tensões sociais, intelectuais lutam para transformar o mundo levantando temas como os fim dos direitos sociais, o desemprego, o mercado e o ressurgimento de movimentos extremistas.

Biografia:

Em 48 anos de carreira, Silvio Tendler produziu e dirigiu cerca de 80 obras de cunho histórico e social entre curtas, médias e longas-metragens e séries.

Licenciado em História pela Université de Paris VII, é mestre em Cinema e História pela École des Hautes-Études/Sorbonne.

Desde 1979 é professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Tem mais de sessenta prêmios, entre eles seis Margaridas de Prata, da CNBB.

Filmografia:

Silvio Tendler fez as três maiores bilheterias do documentário brasileiro. Jango recebeu o Margarida de Prata e o melhor filme do Júri Popular do Festival de Gramado. Glauber–O filme, labirinto do Brasil foi eleito melhor filme pelo júri popular e a crítica do Festival de Brasília e participou da Seleção Oficial Hors concours do Festival de Cannes. Encontro com Milton Santos venceu o Festival de Brasília e levou o prêmio de melhor filme no Festival de Documentários Santiago Álvarez.

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