Para não esquecer os dias de Glauber Rocha em Sintra

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Para não esquecer os dias de Glauber Rocha em Sintra

Por Rodrigo Araújo

“Sintra é um belo lugar para morrer”

Glauber Rocha

Quem entra hoje na cidade de Sintra, em Portugal, e procura saber onde viveu Glauber Rocha corre o grande risco de sair de lá como se um dos mais importantes cineastas do século XX jamais estivesse passado por ali. Procura-se, procura-se e dificilmente se irá achar qualquer vestígio de sua memória, ao menos que se tenha em mãos o seu antigo endereço que leva até a bela e aconchegante Casa das Minas, erguida ao Caminho do Parque das Merendas, e, lá estando, puxe alguma conversa sobre o tema com Sergio Vinha, responsável pelo local, já que também pela casa não se nota qualquer rastro da passagem do cineasta. São muitos os viajantes brasileiros que param por lá para um café ou apenas para apreciar a bela vista e a calmaria da Casa que hoje abriga uma Centro de Artes e um Café, porém, Sergio se diz surpreso pelo fato de que, em regra, quando o assunto é arte brasileira, são raríssimos os que já ouviram falar de Glauber Rocha, o artista que, com a sua família, encheu a Casa das Minas de sonhos, angústias, projetos inacabados e uma violenta paixão pela vida entre os meses de fevereiro e agosto de 1981, quando de lá regressou ao Brasil apenas para transpor o seu limiar derradeiro em um hospital do Rio de Janeiro. Durante aqueles já distantes meses, o cineasta trabalhou em um novo roteiro, confraternizou com alguns velhos amigos da Bahia que estiveram em Sintra, com outros portugueses que o acolheram, cuidou de sua família e deixou-se cuidar por ela. Debilitado fisicamente, correspondeu-se com amigos e produtores em busca de recursos financeiros para viabilizar novos projetos e, ao mesmo tempo, sanar a escassez com que vinha sendo obrigado a conviver.

Antes de desembarcar em Sintra, Glauber percorreu diversos países, por onde semeou sua obra e também produziu parte dela, a exemplo da República do Congo, França, Cuba, Espanha, Itália e Portugal, na cidade de Lisboa, quando realizou coletivamente As armas e o povo durante os dias que antecederam a Revolução dos Cravos, em 1975. Foram viagens motivadas pelo seu prazer de viajar, por uma curiosidade nunca satisfeita e um intenso desejo de interferir no cursoda história dos vencidos, mas também pela impossibilidade de regressar aos seus, condenado a um exílio que não pareceu ter fim, conforme veio a demonstrar o relatório da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, em 2014, que denunciou a perseguição sofrida pelo cineasta durante os anos de chumbo por parte dos militares.

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Com exceção dos reduzidos ciclos de cinéfilos, especialistas na obra de Glauber Rocha e algumas das esforçadas e louváveis iniciativas que ocorrem eventualmente entre uma ou outra programação de festivais de cinema pelo país, o grosso da obra do autor ainda permanece desconhecida mesmo entre muitos daqueles que alcançam a mais privilegiada formação acadêmica no mundo das artes. Não seria exagero dizer que, apesar dos inúmeros prêmios que seus filmes arrebataram em alguns dos mais importantes festivais de cinema pelo mundo, do reconhecimento dos mais destacados pares brasileiros e estrangeiros, das volumosas críticas especializadas e referências estéticas de toda ordem nos mais diversos suplementos culturais pelo mundo, ações estas que incluem nomes como os de Pasolini, Godard, Scorsese, Bazin e Deleuze, o baiano de Vitória da Conquista, nascido em 1939, parece ainda à espera de melhor acolhida entre nós. Com algum otimismo e admitindo-se o reconhecimento mais geral de dois ou três de seus filmes como Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe, a maioria de sua obra ainda parece aguardar por quem dela possa retirar os melhores significadosali depositados. Claro, Câncer, A idade da terra e Cabeças cortadas, além dos seus curtas-metragens e documentários, só para citar alguns, ainda são filmes que pertencem ao porvir.

No delicado Diário de Sintra, lançado em 2008, a cineasta Paula Gaitán problematizou certa ausência de Glauber entre nós, para além do vácuo deixado por ele em sua vida privada. O completo desconhecimento do cineasta por parte daqueles com quem ela cruza e entrevista em Sintra, a vertigem de uma imagem fotográfica caseira do cineasta soprada por uma natureza surda, as sombras das mãos da diretora em busca de um amor já situado numa temporalidade distinta, tudo isso compõe o seu filme repleto de poesia e muita personalidade. E não pode ser à toa que o tema da memória atravesse o trabalho realizado por Gaitán. É que, segundo as especulações do próprio Glauber, a memória, assim como as demais dimensões de uma vida afirmativa, no mais radical sentido nietzscheano da expressão, estariam sob ameaça em uma sociedade dominada pela utopia da técnica.

Em O Leão de sete cabeças, de 1970, uma de suas personagens francamente reacionárias vaticina enquanto tortura um guerrilheiro latino: “Pela técnica chegaremos a uma sociedade perfeita, melhor que o capitalismo e muito melhor que o comunismo! Muito melhor mesmo!” A desconfiança de Glauber em relação a um mundo regido por uma crença cega na técnica e pelo seu uso desregrado encontra eco na obra de Walter Benjamin, autor que o cineasta descreveu em seu romance Riverão Sussuarana como “granditelectualjudeu”. Em 1935, o filósofo alemão anotou em seu famoso ensaio sobre A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica: “Se levarmos em conta as perigosas tensões que a tecnização (...) engendrou nas massas (...), perceberemos que essa mesma tecnização abriu a possibilidade de uma imunização (...) através de certos filmes”. À percepção benjaminiana de que seria possível uma imunização contra a técnica por meio dela própria, Glauber correspondeu com esmero ao levar tal tarefa ao limite em seus próprios filmes através de uma estética que fez da própria precariedade tecnológica “terceiromundista” o combustível de sua realização. Foi esta via decisiva que o autor brasileiro adotou para desmantelar os mais rigorosos aparatos formais da linguagem cinematográfica vigentes em sua época e expor a sua expressão ao mesmo tempo contundente e marcada de pleno frescor.

Quem hoje vai até Lisboa, cidade vizinha de Sintra, pode apreciar um grupo de fado e chorinho que se apresenta ao pé do castelo de São Jorge durante o pôr do sol de todas as sextas-feiras do verão europeu. É comum passar por lá e ver grupos de turistas brasileiros unirem-se a uma plateia já repleta de portugueses a entoar, aplenos pulmões, os versos de Fado Tropical (1973), canção composta pelo brasileiro Chico Buarque e o moçambicano Ruy Guerra: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Mas já não se pode notar qualquer vestígio de ironia presente nesta obra dos dois herdeiros das respectivas colônias portuguesas, não naquele coro ali entoado daquela canção que conseguiu a “proeza” de ser censurada em dois países vitimados por semelhantes regimes sanguinários: Portugal e Brasil (e como evitar ser lembrado das atrocidades impingidas a Moçambique?). Dois países que atentaram contra toda forma de liberdade e que, ainda hoje, a duras penas, agonizam em busca de suas memórias, seja dos vivos ou dos mortos, desaparecidos ou não. Em um cenário assim, somado à dificuldade inerente à própria estrutura formal da obra glauberiana, em tudo tão ambiciosa e arrojada, o autor não teria mesmo como encontrar vida fácil, seja em Portugal ou mesmo no Brasil.


 

 

 Rodrigo Araújo é professor de filosofia do IFBA, doutorando em filosofia pela UFBA e bolsista Capes PDSE-CAPES/Universidade Nova de Lisboa.

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