Após críticas e protestos, uma Flip mais diversa

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Com centro na obra de Lima Barreto, 15ª edição da Festa Literária de Paraty alcança paridade de gênero e inclui 30% de autores negros em sua programação

Por Tory Oliveira
Da Carta Capital 

Após pressão dos movimentos negros, de protestos e de ser acusada de ser um “arraial da branquitude” na edição de 2016, a Flip (Festa Literária de Paraty) muda o script e, pela primeira vez, preocupa-se com uma composição mais igualitária e representativa da sociedade brasileira em sua programação.

Colocando no centro o escritor Lima Barreto, o evento literário agregará 22 mesas de discussão com 46 autores, entre eles, 24 mulheres. A literatura negra também obteve uma melhor representação: entre os autores convidados, 30% são negros. A 15ª edição da Flip começa na quarta 26 e vai até o dia 30 de julho. 

Para a historiadora Giovana Xavier, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras na UFRJ, trata-se de uma grande vitória para os movimentos sociais, em especial, os movimentos de afirmação das mulheres negras.

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“É uma mudança significativa e que merece comemoração, pois mostra a nossa força e a nossa capacidade de organização. Ao mesmo tempo, isso não pode ser visto como um ponto final, mas como um começo”, afirma Xavier, que foi uma das autoras da carta aberta, intitulada Arraial da Branquitude, que pedia mais escritoras negras na programação do evento literário mais importante do País.

Para a filósofa e colunista de CartaCapital Djamila Ribeiro, a mudança na programação mostra justamente a força da pressão dos movimentos sociais, em especial, daqueles ligados à questão da mulher e dos direitos da população negra.

“Até a inclusão de Lima Barreto, que é um escritor que por ser negro não tem o reconhecimento devido, mostra a força dessa cobrança, de movimentos que não vão mais aceitar ser representados de forma que não seja digna”. Ela também aponta que as mudanças precisam ir além da Flip passar pelo mercado editorial brasileiro como um todo.

“Aqui no Brasil ainda há o olhar racista, de ver a literatura negra como algo menor. É um olhar ainda muito eurocêntrico e masculino, que decreta o que é e o que não é literatura. É preciso também mudar a visão de quem está nos espaços de poder no mundo literário”, afirma. 

Para a curadora desta edição, a jornalista especializada em literatura e escritora Joselia Aguiar, a inclusão não se trata de ativismo puro e simples, uma vez que o foco permaneceu na literatura. "É uma mudança de visão. As pessoas precisam se acostumar a ter uma programação mais diversa", defende. 

Apesar do apelo por uma festa literária mais diversa, Anderson França, um dos escritores negros da programação, relatou nas redes sociais que foi ameaçado de morte. O anúncio de cunho racista, ironizado pelo autor de Rio em Shamas, prometia pagar R$15 mil para quem o assassinasse durante sua fala na Flip, no dia 28. 

Resistência à diversidade 

 

O quadro da produção literária publicada no Brasil ainda é branco, masculino e focado na região sudeste. Pesquisa realizada em 2012 revelou que 93,9% dos autores são brancos, 72,7% são brancos e 47% deles sediados em São Paulo.

 

Nos romances brasileiros contemporâneos analisados pela pesquisa, o perfil médio dos personagens assemelha-se ao dos escritores. Em sua maioria, os personagens são homens (62%) e heterossexuais (81%). No que diz respeito à questão racial, os personagens negros são 7,9%, só 5,8% são protagonistas e 2,7%, narradores.

 

Nas obras de ficção analisadas, 20% dos personagens negros são bandidos, 12% empregados domésticos e, 9%, escravos. Os dados estão publicados no estudo Literatura Brasileira Contemporânea — Um Território Contestado. 

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Discussões recentes, como a travada na Academia Carioca de Letras sobre se a obra da escritora Maria Carolina de Jesus deveria ser classificada como “literatura” também revela a resistência diante de uma diversidade maior.

 

Sua obra mais conhecida, Quarto de Despejo - Diário de Uma Favelada, foi best-seller na década de 1960 e traduzida em 25 países. Membro da Academia Carioca, Ivan Cavalcanti Proença questionou, porém, classificar a obra como literária durante uma sessão da nata literária carioca.

 

“Não é literatura, é um documento importante, extraordinário e de significado sócio-econômico e cultural muito sério, mas não é literatura”, reafirmou, posteriormente, ao jornal O Globo.

 

Presente na sessão, a poeta Elisa Lucinda defendeu a escritora. E também declarou ao jornal: “A arrogante fala do Ivan Cavalcanti Proença revela o racismo e o classicismo acadêmico que não conseguem engolir que uma ex-catadora de papel, publicada em 25 países, ovacionada por críticos do mundo inteiro, tenha seu lugar nobre na literatura brasileira. O senhor Ivan Proença em sua arrogância desrespeitou, ofendeu e desprezou a memória e a obra da homenageada, única razão pela qual ele foi chamado a falar naquela tarde. Uma gafe.”

 

Em 2017, o livro foi adotado como leitura obrigatória para duas universidades públicas, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Unicamp.

 

Maria Carolina de Jesus foi também uma das mais importantes leituras para Conceição Evaristo, autora negra que será uma das convidadas da Flip deste ano.

 

Evaristo conta que o contato com autores negros sob a perspectiva teórica de movimentos sociais começou com Quarto de Despejo em meados dos anos 60, quando já na faculdade começou tardiamente a estudar a autoria negra dentro da literatura.

 

“Isso é sobre a invisibilidade que paira sobre nós. Todas as autoras negras que eu tive contato na minha juventude eu conheci por meio do movimento social, e não por meio da crítica literária”, conta a escritora de 70 anos que foi uma das apoiadoras do manifesto apresentado na Feira de 2016, que reivindicava maior representatividade negra no evento.

 

Evaristo explica que embora a postura da Flip seja corajosa, se trata de algo “justo e necessário”. “Quando falamos em literatura, quando pensamos nela como uma forma de explicitação da identidade nacional, colocar negros e índios é apenas nos colocar em nosso lugar de direito.”

 

A autora diz que a representatividade negra e indígena nestes espaços ainda é muito pequena, e atribui isso a um processo histórico que subjuga cada vez mais grupos minorizados.

 

“Por outro lado, estamos cada vez mais reclamando nossos espaços, e se isso for uma solução somente em nível de aparência não nos interessa”, conclui.

 

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