Guia prático para destruir o ódio nas escolas

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Dentro do contexto de ódio às LGBTs no ambiente escolar, surge o livro O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente

Por Marcelo Hailer
Especial para Caros Amigos

Durante o ano de 2015 acompanhamos perplexos a campanha realizada por setores fundamentalistas da sociedade brasileira contra os Planos Municipais de Educação (PME), na verdade, contrários a uma parte muito específica: a abordagem da questão de gênero nas salas de aula. Para certos grupos religiosos e da extrema direita tratava-se de uma futura doutrinação para que os jovens estudantes abandonassem a heterossexualidade e aderissem à homossexualidade. Parece cômico e retrógrado, mas é a barbárie, visto que, em praticamente todo o território brasileiro a questão de gênero foi excluída dos Planos Municipais de Educação.

O saber tanto pode ser uma ferramenta libertadora como pode ser fiadora de inúmeros dispositivos repressores. Por exemplo, de que maneira a educação tem sido utilizada para desconstruir os discursos de ódio? Como o ambiente escolar tem sido pensado a partir da realidade de inúmeros alunos que não se enquadram nos clássicos papéis de gêneros normativos? Diante do crescente número de estudantes que cometem suicídio por conta do bullying proveniente do ódio à diferença, apostamos que o silêncio tem sido uma das ferramentas. Mas não só. O avanço do fundamentalismo religioso sobre todas as esferas da sociedade, e especialmente na educação e na política institucional, tem sido uma das principais armas contra a desconstrução dos preconceitos presentes no ambiente escolar. Se não falar já é um problema grave, imaginemos agora que se fala muito sobre a sexualidade, mas de maneira a reforçar ou até mesmo criar novos pré-conceitos e reforçar o discurso dos normais e saudáveis.

 

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É dentro deste contexto de ódio às LGBTs no ambiente escolar que surge o livro O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente, organizado pela professora e antropóloga da PUC-SP, Carla Cristina Garcia. Um dos principais objetivos da obra é que ele sirva de instrumento à formação docente no que diz respeito à sexualidade e os gêneros, e que estes tenham um lugar específico na formação docente. Pois, a questão da homofobia, do racismo e do machismo ainda não estão presentes na formação docente. O que deve ser encarado com espanto, visto que o Brasil, infelizmente, configura uma das piores posições no ranking de países que matam os corpos não padronizados e não brancos.

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O único caminho possível para a desconstrução do sistema heteronormativo é na formação de pedagogos e educadores que pensem o sistema escolar de maneira libertária e fora do sistema binário do gênero. “O verdadeiro sentido da pedagogia transgressora ou queer, radica em aplicá-la nas estruturas gerais dos sistemas educativos (formais, não formais e informais) para repensar as classificações e estruturações que fazemos dos sujeitos. Desse modo ela serve para repensarmos as atitudes racistas, as discriminações contra as mulheres, os deficientes, o esquecimento ou superproteção das crianças superdotadas. Unicamente aplicando uma pedagogia geral que sirva para repensar os corpos dos sujeitos pedagógicos, poderemos escapar da estrutura binária que nós mesmos criticamos”, dizem os autores na abertura do livro.

O corpo, o público e o privado

Corre uma forte lenda de que as questões sobre sexualidades são do espaço privado, porém, se assim fosse os corpos não seriam alvos de escrutínio constante do poder público, das igrejas, da polícia, da política e da comunicação de massas. Tal assunto é tratado como privado quando trata-se de demandar política pública aos historicamente marginalizados, no caso, as LGBTs. Fatos recentes comprovam que tal assunto é qualquer coisa, menos privado; basta lembrarmos da cruzada contra a criminalização da homofobia, da já citada perseguição à presença da questão de gênero nos PME. Enfim, tudo aquilo que resolve ir de encontro a estrutura normativa dos corpos é qualquer coisa, menos “assunto privado”.

Mas, ainda que as orientações sexuais e identidades de gênero não hegemônicas não estejam presentes de forma oficial nos planos de educação, há educadores que ousam enfrentar o sistema normativo e desconstruir nas mentes dos jovens estudantes os ódios que parte da sociedade lhes ensina sobre as LGBTs. Muito provavelmente, o programa “Transcidadania”, da gestão do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), e do qual os autores do livro participaram de sua fase piloto, seja a política mais ousada em termos educacionais de que temos notícia. Pois, travestis e transexuais são hoje as principais vítimas do preconceito existente nas escolas e, por conta disso, evadem do ensino e são alocadas à margem da sociedade. Só uma educação libertadora e crítica será capaz de erradicar tal mazela social: oferecendo entradas, saídas e acolhimento aos estudantes que não se encaixam nos clássicos papéis de gênero, visto que estes não permitem outras vias além daquela que está programada e que é tratada como “natural”, a saber: heterossexual e reprodutiva.

É dentro, e não fora do sistema educacional que poderemos questionar todo o sistema de gênero e sexual hegemônico e construir novas mentes (ou salvar gerações) a respeito de uma questão que parece simples, mas não é: de que as possibilidades em torno das sexualidades, orientações sexuais e identidades de gêneros são múltiplas, de que o convívio com a diferença – ao contrário do que pregam os obscurantistas – é saudável e libertador. Mostrar aos jovens estudantes que tudo bem se, em determinada fase de suas respectivas vidas, eles entenderem que se encaixam em algumas das letras da sigla LGBT e que não há nada de errado ou “doentio” nisso.

É fato, porém, que tal tarefa não é nada simples, pois, antes de alcançarmos as mentes dos estudantes é preciso munir de ferramentas os educadores; é necessário cada vez mais defendermos uma educação laica e, temos consciência, de que os tempos políticos atuais são de trevas, mas, ainda assim, é preciso fazer algo, iniciar uma ação e traçar um caminho rumo à uma educação libertadora e livre de dogmas religiosos e ultraconservadores. 

Marcelo Hailer é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutorando em Ciências Sociais (PUC-SP); membro do Inanna - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Sexualidades, Feminismos, Gênero e Diferenças (NIP-PUC-SP) e um dos autores que participam da obra; atualmente desenvolve pesquisa sobre a revolução moçambicana

Serviço:

O rosa  o azul e as mil cores do arco iris

 

“O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente"
Organizadora: Carla Cristina Garcia
Autores: Carla Cristina Garcia, Daniel Françoli Yago, Fabio Mariano da Silva e Marcelo Hailer Sanchez
Editora: AnnaBlume

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