Tijolaços: Livro reúne artigos escritos por Leonel Brizola

Cultura
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Obra reafirma a atualidade das reflexões de Brizola

Da Redação

Após 21 anos de ditadura civil-militar, a alternativa que Leonel Brizola encontrou para divulgar suas contundentes opiniões e discussões sobre a conjuntura política, e em meio às perseguições das Organizações Globo, que detinham 85% da audiência, foi comprar espaço em jornais para publicar seus artigos. Foi então que, mesmo implacavelmente criticado pela esquerda dos anos 70 e pela direita herdeira do legado lacerdista, que Brizola concretizou os chamados Tijolaços, como ficaram conhecidos os textos. As ainda atuais análises de Brizola estão reunidas no livro Tijolaços, uma seleção de artigos escritos por ele entre os anos 1980 e 2000. A obra é organizada pelo Galpão de Ideias Leonel Brizola – saiba mais sobre a obra aqui.

Era nestes espaços que o político denunciava o PMDB, combatia as manipulações da Globo e propunha políticas para o desenvolvimento social do País. Várias de suas análises continuam atuais, assim como as manipulações da Globo.

Leia excerto disponibilizado com exclusividade à Caros Amigos.

 

Independência é desenvolvimento

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Por Leonel Brizola

publicado em 7 de setembro 1998

"Talvez em época alguma de sua existência como nação soberana o Brasil tenha estado tão distante quanto hoje do verdadeiro significado da palavra independência. É deprimente vermos os destinos de nosso País, da nossa economia e a vida do povo brasileiro estarem sendo decididos, como há dois séculos, numa nova metrópole, numa Corte, agora, financeira. Governa-nos apenas um vice-rei, com direito a pompa e autoridade, mas com a única preocupação de manter em ordem a colônia, exportando agora já não mais ouro ou açúcar, mas o próprio capital, líquido e desembaraçado.

Alguns podem considerar amargos estes meus pensamentos, mas faço parte de uma geração que viu o Brasil desenvolver-se afirmando sua soberania e a capacidade de seu povo. Assisti o nosso País incorporar milhões e milhões de pessoas, vindos do interior, como eu, e de todas as partes do mundo, ao universo de trabalho, dos direitos sociais, da previdência, da educação, enfim, à condição de cidadãos brasileiros. O Brasil tinha trabalho para seus filhos, tinha salários - mesmo pequenos, muito maiores que os de hoje - que permitiam a um trabalhador criar seus filhos com a esperança que estes tivessem uma vida melhor. Não que não houvesse pobreza ou miséria. Havia, muita, ainda que nem de longe a situação degradante de hoje. Mas havia também uma convicção nacional que, através do nosso próprio trabalho, da afirmação do Brasil como nação independente, iríamos superar o atraso e as carências. E com que orgulho cantávamos os nossos hinos! As grandes conquistas nacionais, como o petróleo, o aço, a energia - que o Estado assumiu apenas pela incapacidade financeira do empresariado nacional e pela oposição, que por vezes chegava à sabotagem, dos interesses estrangeiros - representaram não apenas pilares para o desenvolvimento autônomo de nossa economia mas elementos de elevação da auto-estima e da confiança do povo brasileiro.

Nosso País, hoje, é muito mais desenvolvido, muito mais rico, que conta com mais recursos científicos e tecnológicos. Como pode, então, oferecer menos aos seus filhos. As riquezas que se produzem aqui são muito maiores, os sacrifícios que se impõem ao povo são muito mais dramáticos. Mas nossas perdas são incomensuravelmente maiores. O Brasil vem abastecendo a especulação internacional com montanhas de dólares. Quando saem do Brasil, em vinte dias, vinte bilhões de dólares, não é possível imaginar que este dinheiro estivesse aplicado em atividades produtivas, mas apenas no jogo da especulação.

Numa hora difícil como esta, a nossa história aí está nos oferecendo suas lições. É possível uma vida diferente, com progresso e justiça. Está em nossas mãos proclamar, pelo voto, pacífica e democraticamente, a independência que o Brasil não mais tem. Independência que não significa nos fecharmos ao mundo, mas dizer a ele: somos brasileiros, o povo mais solidário do planeta; mas não para sermos explorados por ninguém. Temos direito de sermos livres e felizes."

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