Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária marca 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás

Cotidiano
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Militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam terrenos e realizaram atos em todo País nesta segunda-feira (17)

Por Lu Sudré
Caros Amigos

Há 21 anos, em 17 de abril de 1996, 19 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que ocupavam um trecho da rodovia PA-275, na cidade de Eldorado dos Carajás (PA), foram brutalmente assassinados em uma ação da Polícia Militar enquanto participavam de uma marcha. Para relembrar o massacre, o MST realizou ações e se mobilizou por todo País nesta segunda-feira (17), dando continuidade à Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária, que começou no início deste mês, e foi criada em homenagem às vítimas do chamado Massacre de Eldorado dos Carajás.

Desde o dia 10, cerca de 600 jovens dos acampamentos e assentamentos do MST participam do XII Acampamento Pedagógico “Oziel Alves Pereira”, na curva do S, trecho da rodovia em que ocorreu a chacina. Oziel, de 18 anos, foi o mais jovem trabalhador rural assassinado pela polícia no episódio.

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"O nosso 17 de abril vai ser relembrado durante todo o mês, no que a própria mídia apelidou de 'Abril Vermelho'. Sempre trazemos à tona essa memória, do que foi o Massacre de Eldorado dos Carajás. Nós vamos às ruas, ocupamos latifúndios e paralisamos estradas, para relembrar algo que nunca podemos esquecer", afirma Ayala Ferreira, da Direção Nacional do MST, em entrevista à Caros Amigos.

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O acampamento, que acontece desde 2005, conta com a juventude do Movimento a nível nacional. Os militantes participam de oficinas culturais, formações políticas e intervenções. “Buscamos construir no imaginário das novas gerações, inclusive as que se formaram após o Massacre de Eldorado dos Carajás, uma memória coletiva de luta e dessa experiência trágica. Os assassinos e os mandantes continuam impunes. Mobilizamos a juventude pra recontar uma memória, que é triste, mas nos impulsiona a lutar. Reafirmamos que aquele episódio não pode acontecer de novo”, complementa a militante.

Ameaças e retrocessos

O acampamento na chamada curva do S terminou com um ato político e cultural, mas, segundo a liderança, o movimento recebeu ameaças para não realizar a mobilização. "Existe uma onda conservadora que não aceita mobilizações que são legítimas dentro de um Estado Democrático de Direito. Tomamos a decisão coletiva de construir o ato, porque não podemos renunciar ao direito legítimo de lutar, mesmo sob constante ameaças”, denuncia Ayala.

O estado do Pará é emblemático no que tange a perseguição de trabalhadores e lideranças do movimento camponês, com dezenas de vítimas ao longo dos últimos anos. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT),  em 2016 foram registrados 61 assassinatos em conflitos no campo, o que equivale a uma média de cinco assassinatos por mês. O número, que também inclui quilombolas e indígenas, é o segundo maior durante os últimos 25 anos. Em 2003, foram registrados 73 assassinatos. 

"Se daqui pra frente houver algum trabalhador ou liderança camponesa do MST assassinado, os responsáveis diretos são os latifundiários da região de Parauapebas, Curionópolis, Eldorado e Marabá. Foram criadas milícias armadas a mando do latifúndio, com a anuência do Estado. Os casos de assassinatos e violações dos direitos humanos não tem responsáveis ou culpados. Impera o sentimento de impunidade". Quando o Estado corrobora, ele também é responsável", declara a dirigente. 

"Os camponeses estão sob a mira dos assassinos e nós sentimos o risco iminente de novas perdas devido ao recrudescimento da violência que tem se desenhado no atual estágio do governo ilegítimo de Temer e outras forças conservadoras que tem tomado de assalto a democracia brasileira", critica a coordenadora. As mobilizações do MST se posicionaram contra o Governo Temer e terminarão no dia 28 de abril, data em que foi convocada uma greve geral pelas centrais sindicais e diversos movimentos sociais do País. Ayala reforça que, em 2017, a Jornada tem uma tonalidade mais forte e abrange outras bandeiras. "O que temos acompanhado é um verdadeiro retrocesso para a classe trabalhadora. Nossos direitos estão ameaçados por todos os lados: pela reforma trabalhista, reforma da Previdência, reforma do Ensino Médio. No campo, temos a Medida Provisória 759, que vai alterar o acesso dos trabalhadores a uma política efetiva da Reforma Agrária. Relembramos a memória dos massacrados de Eldorado dos Carajás, mas denunciamos também a retirada de direitos da classe trabalhadora”, enfatiza.

Luta nacional

No Dia Nacional da Luta pela Reforma Agrária,  segundo informações do MST, cerca de dois mil trabalhadores rurais, entre acampados e assentados, ocuparam os pátios do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Ministério da Fazenda, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No nordeste, diversos latifúndios no interior de Pernambuco foram ocupados, assim como a sede do Incra, em Recife. Já em Alagoas, acampados no centro de Maceió desde a tarde do domingo (16), três mil militantes marcharam pelo centro da cidade para homenagear as vítimas do massacre e para denunciar a violência e a impunidade no campo.

Na região sudeste, em São Paulo, logo no inicio do dia, 300 famílias ocuparam uma fazenda no município de Agudos. A propriedade faz parte de um conglomerado de 40 mil hectares de terras da União e é indevidamente utilizada pela empresa Cutrale, grande exportadora de suco de laranja. Em Taubaté, região do Vale do Paraíba, militantes ocuparam também a Fazenda Guassahy, de 300 hectares, localizada às margens da rodovia Presidente Dutra. Protestos também foram registrados em três rodovias que cortam o estado de Minas Gerais.

 

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