"Brasil caminha para um futuro incerto", avalia Dilma

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"Brasil caminha para um futuro incerto", avalia Dilma

Por Tatiana Carlotti
Do Carta Maior

Ovacionada na última segunda-feira (05), durante a abertura do III Salão do Livro Político, no TUCA (PUC-SP), a presidenta eleita Dilma Rousseff, afastada pelos golpistas em 31 de agosto de 2016, trouxe um diagnóstico sobre o golpe e analisou o impasse político, econômico e social em que se encontra o Brasil.

Em defesa das eleições diretas como único instrumento para que possamos redefinir o pacto social, Dilma avaliou que o “Brasil caminha para um futuro incerto”, em meio a um grande impasse: o conflito entre “o que pensa e quer a população” e “o que pensa e quer o governo ilegítimo” de Michel Temer.

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“Precisamos de eleições diretas que redefinam o pacto social, criando condições para o restabelecimento da estabilidade e da legitimidade, que permita ao Brasil voltar a crescer, a trilhar o caminho da geração de empregos e enfrentar a exclusão e a lógica de privilégios que são marcas da nossa história”.

Avaliando os trezes anos de governos petistas como um curto período da história, quando foram dados “alguns passos em direção a um outro modelo de inclusão social”, ela mencionou a fraude do processo do impeachment e esmiuçou, de forma clara e didática, o passo a passo do golpe no país.

Construção do golpe

Ao analisar a construção do ambiente do impeachment, Dilma apontou vários aspectos misóginos da narrativa golpista: “eu sempre fui caracterizada como uma mulher dura, um homem seria caracterizado com um presidente forte. Essa mulher forte era também uma mulher que tendia, como todas as mulheres, a uma certa histeria; um homem seria descrito como sensível”.

“Eu era uma pessoa obsessiva compulsiva que só queria trabalhar, um homem seria uma pessoa empreendedora e criativa”. Em sua avaliação, essa dualidade criou toda uma mitologia propícia ao impeachment. “Todas as negatividades da minha condição de mulher foram colocadas dentro da narrativa do golpe”.

Mas isso não foi a razão do golpe, tampouco o conteúdo da conversa gravada entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, divulgada em maio de 2016, na qual o peemedebista e um dos articuladores do golpe, afirmou “tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, referindo-se à Lava Jato.

Sobre o episódio, Dilma destaca: “era importante que ela (Lava Jato) circunscrevesse a criminalizar o PT, o presidente Lula, a mim e o meu governo”. Ela também mencionou que trechos da mesma conversa, divulgados tempos depois, evidenciavam a concertação que “já estava sendo feita por todos” naquele momento.

Conter a Lava Jato, porém, não foi a principal razão do golpe. “A razão estratégica do golpe foi enquadrar o Brasil econômica, social, geopoliticamente ao neoliberalismo”, afirmou Dilma.

Projeto neoliberal não seria eleito

Mencionando as sucessivas derrotas eleitorais do projeto neoliberal no Brasil (2002, 2006, 2010 e 2014), os defensores do neoliberalismo perceberam que através dos mecanismos democráticos, não conseguiriam chegar ao poder. “Isso só seria possível caso se suspendesse a democracia no Brasil”.

Como? Dilma citou Milton Friedman que dizia, por exemplo, ser preciso uma crise para que o “politicamente impensável se tornasse inevitável”. E aí “ter pronto um programa de reformas que impusesse as reformas que o povo não aprovaria e que significam a redução do Estado nacional para o estado mínimo”.

Nesta lógica, destacou, é preciso “quebrar o Estado para permitir que todo o processo de concentração de renda e de riqueza seja o processo que mais favoreça o 1% que controla a riqueza do mundo hoje”.

No Brasil, este processo inicia no final das eleições de 2014, quando, diante da crise, o conflito distributivo no país precisou ser rediscutido.

Agentes do golpe

Lembrando que o golpe não seria possível apenas com as parcelas do segmento político que hoje são a base do governo ilegítimo, Dilma mencionou a atuação de outros agentes neste processo:

“Puseram um pato na Av. Paulista, um pato amarelo, de clara e inequívoca posição: ´não queremos pagar o pato´ que significava ´não iremos contribuir uma vírgula para a recuperação econômica do país´”, lembrou.

Além dos representantes do “pato”, “as quatro ou cinco famílias que controlam a mídia oligopolista e familiar” no país assumiram o papel de partido político.

“Não foi a primeira vez, nem será a última, que um grupo de comunicação e uma organização que controla rádio, TV, jornal, mídia social, com televisão por concessão e através de TV fechada, assume a condição de orientador, pensador político estratégico e de liderança, na tentativa de hegemonizar a sociedade e definir o pensamento político”, salientou.

Passo a passo

Coube à mídia, portanto, vender a narrativa sobre a situação; e aos segmentos político e os “do pato” construir a proposta neoliberal para o país. “Antes era difícil provar que estava sendo feito, agora está claro”.

Uma das principais narrativas naquele momento, inclusive, foi a de que o país havia quebrado. Um discurso que acabou sendo desmentido pelos próprios golpistas, quando da saída do Reino Unido da União Europeia. Em 24 de junho, frente à instabilidade do mercado, o ministério da Fazenda do governo ilegítimo divulgava uma nota, afirmando que o Brasil tinha uma imensa robustez.

“Um país que tem 380 bilhões de dólares de reservas não quebra, porque tem todas as condições de honrar os seus credores. Mas o Brasil não tem credores, pelo contrário, ele é credor líquido. Como podia estar quebrado? Eles mesmos reconheceram que não estava quebrado e que o governo tinha toda robustez necessária para enfrentar qualquer turbulência internacional”, frisou.

Engessamento do poder eleitoral

O passo seguinte foi criminalizar os gastos sociais e os investimentos produtivos. “Gastaram demais”, afirmavam os golpistas. “Nem isso é verdade, porque se você comparar os dados verificará que não se gastou demais. Gastou mais com algumas coisas, ou seja, com transferências sociais, transferência de renda e política social. Com saúde e educação, é fato, gastou mais aí”.

Em meio a isso, deu-se a construção do atual projeto, incensado como um “projeto de salvação do Brasil das garras de uma política que só pensava em fazer social e subsídio para população”. E surgiu a “vergonhosa” emenda constitucional, a PEC do Teto de Gastos Públicos.

“Uma emendaque congela por 20 anos todas as despesas primárias – saúde e educação – em termos reais. O resto que é saneamento, ciência e tecnologia, segurança, defesa e todas as demais, eles podem reduzir nominalmente. Mas se mantém o pagamento de juros”, explicou.

Temos, a partir de então, a vigência de umprojeto neoliberal que “tira os pobres do orçamento” e, também, “retira a possibilidade decisória da população”. Ao congelar as despesas durante 20 anos, durante cinco mandatos, o teto de gastos mantém cinco mandatos presidenciais congelados.

“O que é a base da eleição de um presidente? Onde ele vai gastar, como ele vai gastar e com o que ele vai gastar. Se isso não pode ser discutido, acaba-se a eleição e a participação eleitoral”, alertou.

Mudança de modelo

Alertando que as chamadas “reformas não têm nada a ver com reformas, mas com mudança de governo”, Dilma citou o caso da previdência, mencionando o esforço promovido para torna-la inócua, pouco atraente e ineficaz. Objetivo disso é criar “necessariamente no lugar dela ou complementar a ela, a previdência privada que nunca prosperou com uma previdência de todos no Brasil”.

O mesmo vale em relação às leis trabalhistas. “É mudança de modelo”, frisou a presidenta eleita. “Não se reconhece que na relação capital e trabalho, o trabalho é a parte mais frágil e precisa da presença do Estado sim para equilibrar o jogo”. Ela também apontou que existem muitas aberrações nesta relação. “No nosso país, a ligação entre exclusão e privilégio é típica de uma sociedade que deriva do escravismo”.

Dilma avaliou, também, que não foi por acaso que eles escolheram “as chamadas pedaladas fiscais, que representam 0,15% do orçamento, para criminalizar a política fiscal e impedir que nós fizéssemos a política anticíclica”.

O objetivo era “tornar a política anticíclica algo absolutamente nefasto”, garantindo a vigência da “tese do austericídio, ou seja, do corte de gastos”, como se fosse possível sair de uma crise cortando investimentos públicos e o consumo das pessoas, quando o setor privado se recolhe e não investe”.

Em sua avaliação, o primeiro “strip-tease” econômico do golpe foi quando eles colocaram no Congresso, simultaneamente e anunciando “aos quatro ventos”, a emenda do teto de gastos, a mudança do modelo previdenciário e a reforma trabalhista.

“Não contentes com isto, abriram a venda de terras a estrangeiros no Brasil e começaram extinguindo a política do conteúdo nacional na área de óleo gás. Progressivamente tentam chegar ao pré-sal. Não é algo que anunciam, mas é inexorável que vão querer pegar o pré-sal”, complementou.

O fato é que este processo planejado, “de forma determinada”, pelos promotores do golpe deu errado. Segundo Dilma, “eles subestimaram tanto a crise econômica quanto a crise política que criaram”.

2018 e o candidato ausente da direita

O projeto neoliberal estava em curso, quando veio o anúncio de que “o sr. presidente ilegítimo” havia sido gravado dentro do Jaburu. Segundo Dilma, a fala é “gravíssima” porque explicita “a leviandade, a falta de princípios e de valor”.

“O sintoma mais grave da crise política pela qual passamos é a absoluta paralisia político-institucional generalizada entre os golpistas queocasionalmente ocupam os poderes da República”, apontou.

Dimensionando o imenso impasse em que se encontram dois grupos: de um lado o governo, o presidente ilegítimo e sua base, o PSDB e a chamada mídia paulista; e de outro a Globo, a Procuradoria e um pedaço do STF. Dilma questionou: “qual a discussão? A ausência de clareza sobre qual será o candidato em 2018”.

“É inequívoco que a razão estratégica do golpe é garantir que o neoliberalismo consiga implantar aquilo que nós interrompemos em 2003”.

2018 está chegando e a “obra” não foi concluída

Destacando o papel do Banco do Brasil, “um grande banco comercial”; da Caixa Econômica Federal, “um grande banco imobiliário”; do BNDES, único banco do país que empresta acima de 20 anos, antes o “longo prazo” oscilava entre cinco e sete anos, Dilma lembrou que esses três bancos conseguiram “passar incólumes”. Na lógica neoliberal isso preciso ser interrompido, assim como a Petrobras, a Eletrobras e a própria capacidade do Estado de fazer política.

 Em suma: o objetivo do golpe ainda não foi consumado. “2018 está chegando e a obra ainda não foi feita”, destacou Dilma ao avaliar que o preço disso será alto. “Se você contentar o mercado e se legitimar diante do mercado, você se deslegitima diante da população”.

Ponderando que até então ninguém estava disposto a pagar este preço, salvo o presidente ilegítimo, ela avaliou o atual governo: “o que estão fazendo é “desmontar o Brasil, o que é gravíssimo. A cada dia que passa, nós perdemos alguma coisa. E podem ter certeza: eles não têm o menor pudor, desestabilizam tudo o que podem”.

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