IDEIAS DE BOTEQUIM:

Memórias de jornalistas dos anos 1950 a 1980, e outros temas de interesse geral

Por Renato Pompeu

Por iniciativa do Sindicato dos Jornalistas Profi ssionais do Município do Rio de Janeiro e do Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, foi lançado pela Verso Editora o precioso álbum Memória de repórter – lembranças, casos e outras histórias de jornalistas brasileiros – décadas de 1950 a 1980, com a transcrição de trechos das gravações de depoimentos de 60 jornalistas, mais ilustrações altamente evocativas e informativas sobre aqueles anos. Pelas densas páginas desfi la o célebre duelo entre a Tribuna da Imprensa, do direitista conservador Carlos Lacerda, e a Última Hora, do esquerdista nacionalista Samuel Wainer, que, de grandes amigos do tempo em que Lacerda era comunista, passaram a ser os mais ferozes inimigos entre si de que se tem notícia da história brasileira. Independente de suas posições políticas, Lacerda e Wainer estão entre os jornalistas mais criativos e mais contundentes da secular imprensa do País.

Fala-se em seguida do pioneirismo do Diário Carioca e do Jornal do Brasil, na renovação da linguagem textual e visual dos jornais brasileiros, cujas repercussões se fazem sentir ainda hoje na imprensa nacional. Depois se trata dos anos de chumbo após o golpe militar de 1964 e do surgimento das grandes revistas que também fizeram história. Entre os jornalistas que falaram, estão Alberto Dines  Artthur Poerner, Audálio Dantas, Augusto Nunes, Caco Barcellos, Carlos Lemos, Cícero Sandroni, Clóvis Rossi, Ferreira Gullar, Jânio de Freitas, Jorge de Miranda Jordão, José Hamilton Ribeiro, José Louzeiro, Luiz Garcia, Marcelo Beraba, Mario Morel, Mauricio Azedo, Milton Coelho da Graça, Murilo Mello Filho, Mylton Severiano da Silva, Oliveiros Ferreira, Otavio Frias Filho, Percival de Souza, Ricardo Kotscho, Roberto Müller Filho, Sandra Passarinho, Sérgio Cabral, Thomas Souto Corrêa, Villas- Bôas Corrêa, Wilson Figueiredo, Zuenir Ventura.

 

Para ler o artigo completo e outras matérias confira edição de março da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

 

Metamorfoses no modo de ser de Israel

Como instaurar um regime militar sem golpe.

Por Gershon Knispel


Aviv Kochavi chegou com o pai, no início dos anos 1980, ao meu ateliê, ainda mocinho, no início do ginásio. Sua altura e suas feições regulares contrastavam com seu jeito introvertido, parecia ter dificuldades em se expressar. O pai falou por ele. Pegando uma grande pasta com os trabalhos do filho, e os colocando sobre a mesa do estúdio, perguntou: “Vale a pena investir neste menino?”


Fui surpreendido. Sua virtuosidade para desenhar realmente aparecia, mas seu domínio da composição demonstrava, mais do que qualquer outra coisa, o seu grande talento. A escolha dos temas testemunhava o seu profundo caráter humanista. Um caso muito raro de talento que aceitei como aluno, sem nenhuma hesitação.


Já nos primeiros encontros fui bem claro em comunicar a ele que tinha todas as condições para continuar a tradição dos meus professores da Academia Bezalel, em Jerusalém. A maioria deles tinha fugido da Alemanha depois da subida de Hitler, em 1933. Eram pessoas de esquerda, humanistas, que se erguiam coerentemente contra perseguições a minorias étnicas, proclamando que todos deviam abrir os olhos a tudo que estava em volta.

 

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Crítica crítica e crítica transformadora

Por Emir Sader

Uma tragédia para a esquerda foi a dicotomia entre reflexão teórica por um lado, prática política por outro. Depois das primeiras gerações de teóricos e, ao mesmo tempo, dirigentes revolucionários – como Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, entre muitos outros -, os partidos comunistas e social-democratas deixaram de ser espaços de reflexão teórica, levando a que os intelectuais marxistas se refugiassem em centros autônomos – universidades ou outros – e, ao mesmo tempo, em temas distanciados da prática política – como a metodologia, a estética, a teoria literária, a ética.

Foi a partir dessa verdadeira ruptura entre teoria e prática que surgiu o intelectual crítico, mas sem prática política, portanto sem compromisso com propostas de transformação concreta da realidade e sem responsabilidade na acumulação de forças para construção das forças de transformação. A crítica crítica foi disseminando cada vez mais, conforme os partidos foram tendo práticas cada vez mais adaptadas aos sistemas de poder existentes. Proliferaram cada vez intelectuais radicais, com prestígio diante dos jovens – sempre disponíveis, felizmente, para as utopias – e, mais recentemente, com espaços na mídia tradicional, na medida em que critiquem a esquerda realmente existente.

 

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Os contrastes da indústria da cana

O setor sucroalcooleiro é um dos que mais cresce no país, fechou 2010 com safra recorde, mas abriga as piores condições de trabalho.

Por Roney Rodrigues

A porcelana branca com motivos azuis chega com o café. “Dá licença”, diz Andréia, a secretária, colocando a bandeja de prata sobre a mesa.

“Açúcar ou adoçante?”, pergunta “o Doutor”.

“Açúcar, por favor”.

“Ah bom”, exclama, brincando. “Cada vez que se usa adoçante é uma colher de açúcar que se joga fora. Mas agora eu só posso tomar com adoçante, tenho diabete”.

Parece ironia do destino um dos homens que mais produziu açúcar na história do país não poder consumi-lo. O usineiro Cícero Junqueira Franco, ou “o Doutor”, tem os cabelos brancos e ainda mantém o mesmo bigode de sua juventude, agora, claro, já prateado pela idade. Ele é apontado como um dos pais do Proálcool, quando em 1975, juntamente com o engenheiro Lamartine Navarro Júnior e o empresário Maurílio Biagi, encaminhou para o governo um estudo garantindo que o álcool poderia mover a frota nacional, então às voltas com a primeira crise do petróleo.

“Hoje, eu estou com mais cara é de avô do Proálcool”.

Cícero Junqueira ri solto, tombando o corpo no encosto acolchoado da cadeira. “Mas não é verdade não, é um mito que se criou”, diz se aproximando como quem vai confidenciar algo. “O Proálcool nasceu antes de mim, mas foi engavetado e ficou muito tempo como uma alternativa para a falta de recursos do Brasil. Com o petróleo barato e as facilidades que o Brasil e o mundo tinham de abastecimento, o Proálcool foi esquecido. Nós aproveitamos a experiência do passado para criar um programa que prolongasse o petróleo para as gerações futuras. Então exumamos o Proálcool”.

O programa foi baseado em uma forte intervenção do Estado no setor. Por lei, eram definidos preços, políticas de produção, as áreas e até quem deveria produzir. Tudo isso mediante o fornecimento de subsídios para a produção maciça de álcool. Em troca, o governo militar incentivou a grilagem de terras para o cultivo de cana e fez vista grossa em relação à violação de direitos trabalhistas.

“Era uma euforia parecida com a de hoje, só que em outra escala”, relata Cícero Junqueira. “Naquela época o setor era menor e mais contingenciado. Hoje tem uma diferença fundamental: a iniciativa privada está totalmente liberada da intervenção do Estado. Isso cria um horizonte para o empresário investir no setor e desenvolve-lo”.

E o setor vive eufórico frente a esse “horizonte” neoliberal. Atualmente, o governo só intervém no mercado por meio de medidas regulatórias de adição de álcool à gasolina. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção nacional de cana-de-açúcar moída pela indústria sucroalcooleira em 2010 chegou a 625 milhões de toneladas, uma safra recorde, com aumento de 4% em comparação ao ano passado. O Brasil tem o segundo maior programa de álcool do mundo, atrás apenas dos EUA.

O mundo, que sempre exportou açúcar brasileiro, agora está de olho no álcool, ao mesmo tempo em que também faz investimentos pesados na área, como a extração do etanol a partir da beterraba na Europa e do milho nos EUA. O que promove a retomada destes projetos engavetados durante anos são as previsões alarmistas para o preço do petróleo nas próximas décadas

“Apesar das descobertas de reservas de petróleo, o Brasil continua sendo uma economia energeticamente diversificada. Estamos, claramente, entrando na era pós-petróleo”, afiança Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Denúncia na OMC

A Unica representa mais de 123 companhias e tem papel chave na articulação e reivindicação do setor junto ao governo e a demais setores da sociedade. Apesar de hoje o agrocombustível destinar-se basicamente ao mercado interno e o açúcar dominar as exportações, a Unica prevê um crescimento de exportações de etanol e prepara um pedido de litígio na Organização Mundial do Comércio contra dos EUA, onde os lobbies agrícolas são fortes.

Roberto Rodrigues foi o primeiro Ministro da Agricultura do governo Lula e comandou a retomada do projeto do agrocombustível brasileiro. Hoje é presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e acredita ser positivo contestar as tarifas americanas. “É muito relevante [o pedido de litígio na OMC] pensando-se no futuro; está criando-se um mercado lá fora para, quando tiver excedentes, não haver um sufoco para o setor”.

Cid Caldas, diretor de Açúcar e Álcool do Ministério da Agricultura, aposta na entrada de 3 milhões de veículos novos em 2011, sendo 80% flexfuel, o que abre margem para um gigantesco mercado interno. “Nós temos um potencial muito grande para o etanol que está sendo produzido aqui no Brasil”.

 

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Tacape:

Dilma: sinais preocupantes

Por Rodrigo Vianna

Essa história de oferecer “Cem Dias” de trégua para o governo que se inicia é um modismo que vem dos EUA, mas faz algum sentido. É um tempo mínimo para que as equipes se (re) organizem e para que as primeiras diretrizes sejam tomadas, indicando os rumos da nova administração.

O governo Dilma ainda não atingiu a marca dos “Cem Dias”. Mas já é possível identificar algumas tendências – não só do governo que começa, mas da relação do governo com a velha mídia que segue na tentativa de pautar o debate no país.

Os primeiros sinais indicam reversão da política “expansionista” (e bem sucedida) adotada no segundo governo Lula para enfrentar a crise. O governo Dilma começa com corte de despesas estatais, alta de juros, aumento moderado do salário mínimo...

É fato que a inflação em alta impunha algum tipo de medida para frear a economia. Mas a fórmula adotada agora indica um “conservadorismo”, ou “tecnicismo”, a imperar. Não é à toa que a velha imprensa derrama-se em elogios à nova presidenta, tentando abrir entre Dilma e Lula uma “cunha”, como a dizer: Lula era o populismo “atrasado” e “irresponsável”, Dilma é a linha justa (discreta, moderada,  a seguir a velha fórmula liberal de gestão).

 

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É hora de fazer alguma coisa (Parte 2)

Por Fidel Castro

Certo é que a revolução cubana não teve um minuto de paz. Apenas foi decretada a reforma agrária, antes de completar-se o quinto mês do triunfo revolucionário, começaram os planos e ações de sabotagem, incêndios, obstruções e emprego de meios químicos daninhos contra o país. Estes incluíram pragas contra produções vitais e, inclusive, contra a saúde humana.

Ao subestimar o nosso povo e sua decisão de lutar por seus direitos e sua independência, os EUA cometeram um erro.

Incapaz de resignar-se à independência e ao exercício dos direitos soberanos de Cuba, o governo desse país adotou a decisão de invadir nosso território. A URSS não teve absolutamente nada a ver com o triunfo da revolução cubana. Esta não assumiu o caráter socialista devido ao apoio da URSS, foi no avesso: o apoio da URSS foi oferecido pelo caráter socialista da revolução cubana. Tal é assim que, apesar do colapso da URSS, Cuba continua sendo socialista.

 

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Sem patrão

Única no Brasil, a fábrica Flaskô foi ocupada em 2003, e desde então funciona sob a gestão dos trabalhadores.

Por Bárbara Mengardo

Oswaldo da Costa Neto, ou Shaolim, como é conhecido, mostra com empolgação seu local de trabalho, a fábrica Flaskô, localizada em Sumaré, interior de São Paulo. A produção é relativamente simples: a matéria-prima, polietileno, chega ao terreno em pequenos flocos, que são colocados em uma das máquinas que a fábrica possui. Dentro do aparato o material é derretido e moldado, e menos de dois minutos depois estão prontas as bombonas (tambores plásticos), que são retiradas pelos trabalhadores, aparadas e prontas para a venda, sendo utilizadas em geral para armazenamento de produtos químicos e alimentícios.

A diferença entre a Flaskô e outras fábricas, entretanto, não está nas linhas de montagem. Nesta fábrica não existem patrões, os trabalhadores não têm seu tempo minuciosamente calculado e a jornada de trabalho é de 30 horas semanais. Lá, os índices de acidentes são ínfimos, e os funcionários recebem acima do piso da categoria. Estas são apenas algumas das mudanças feitas na fábrica após junho de 2003, quando os trabalhadores, cansados de não receberem seus salários e terem seus direitos ignorados, tomaram a decisão de ocupar a fábrica, e gerirem coletivamente a produção.

Mas antes de contar como uma pequena fábrica conseguiu derrubar um dos pilares sobre o qual se ergue o capitalismo - o patrão -, é preciso retomar a história de duas outras fábricas, a Cipla e a Interfibra, contar sobre o Movimento das Fábricas Ocupadas e esclarecer que apesar de no Brasil a Flaskô ser a única fábrica sob controle dos trabalhadores, existem outras experiências como essa brotando em toda a América Latina.

História

A primeira parte da história da Flaskô é muito similar à de muitas outras fábricas brasileiras. Durante sua gestão patronal, fazia parte do grupo econômico Hansen Batschauer, que colecionava processos pelo não pagamento de salários e direitos trabalhistas, fraudes e irregularidades “Na época da abertura econômica, os sócios do grupo foram os primeiros empresários presos, por má gestão, fraude” afirma Alexandre Mandl, advogado e Membro da comissão de fábrica da Flaskô.

Os trabalhadores de todas as fábricas do grupo sofriam os efeitos das más gestões: salários atrasados, que vinham em pequenas parcelas, de R$ 30, 50 ao longo das semanas, demissões em massa, cortes de energia, falta de matéria-prima.

A primeira reação veio por meio das fábricas Cipla, do ramo plástico, e Interfibra, que produz tubulações, ambas localizadas em Joinville, Santa Catarina. Em março de 2002, elas iniciam greve, que foram duramente reprimidas. Em outubro, mais uma greve, e, desta vez, o final é diferente.

Os trabalhadores ocuparam as fábricas, passando a gerir a produção. As máquinas continuaram em funcionamento, mas quem tomava as decisões eram os trabalhadores, coletivamente.

Na época, outro fator impulsionou a luta dos trabalhadores. As pesquisas apontavam que Lula ia ganhar as eleições, um ex-operário iria assumir a presidência do país.

 

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