O São Francisco naufraga...

Por Frei Betto

O rio São Francisco fez, em 2011, 510 anos. Para os indígenas, Opará – “rio-mar” ou “sem paradeiro definido”. É a maior via fluvial de integração nacional. Gera energia elétrica, promove irrigação agrícola e comporta grande potencial de riquezas em suas margens e biomas (cerrado, mata atlântica e caatinga). A degradação ambiental o ameaça: perdeu 35% de sua vazão nos últimos 56 anos. Os maiores impactos recaem sobre a população pobre da bacia hidrográfica.

Quatro anos depois de iniciado o projeto de sua transposição para o Nordeste Setentrional, se constata que o custo da obra será mais caro que o previsto: de R$ 5 bilhões iniciais já foi reajustado para R$ 6,8 bilhões. A transposição não tem aumentado o volume de água para os pequenos agricultores. Ao contrário, por onde passa desmantela a produção agrícola. O custo da água aumenta: o governo Todos”, o governo Dilma intensificou o programa de cisternas (800 mil unidades) para abastecer a população da área. É o reconhecimento de que as propostas da sociedade civil estão corretas. E de que a transposição não será suficiente para matar a sede de 12 milhões de pessoas!

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A Atualidade dos grandes pensadores do nordeste


Por João Pedro Stedile

O povo da região nordeste do Brasil nos deu ao longo do século 20, grandes pensadores , em todos os campos do conhecimento e das artes.

Lembramos com nostalgia alguns deles, como Câmara Cascudo, Celso Furtado, Josué de Castro, Gregório Bezerra, Manuel Correia de Andrade, Francisco Julião, Maria Aragão, João do Valle, entre tantos.

Nesse segundo semestre de 2011, completariam 90 anos, nossos queridos Paulo Freire e 100 anos de Carlos Marighella.

Todos esses ícones tiveram um vínculo direto, de pensamento e prática, com propostas alternativas para o desenvolvimento do povo do nordeste. Defenderam a reforma agrária como condição necessária para o desenvolvimento das forças produtivas, o aumento da oferta de bens necessários, para erradicar o analfabetismo, a ignorância, a fome, o desemprego e, sobretudo, a desigualdade social.

Nos últimos anos, a região cresceu seu PIB mais que os demais estados do Brasil. Alguns estados elegeram governadores progressistas. Mas a lógica de acumulação e concentração de uma sociedade capitalista continua reproduzindo a desigualdade social e as injustiças.

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Sérgio Vaz: Sobre Kichutes e Chuteiras


Em outubro é o mês em que se comemora o mês das crianças, depois do natal, esse é o dia mais aguardado para qualquer menino ou menina, pois, teoricamente é uma data para receber presentes.

Sinceramente não tenho boas lembranças desses dias, na minha casa a roupa sempre foi muito mais importante do que brinquedo, por isso, desde cedo aprendi a brincar só com meus botões. Sem carrinho pra dirigir, ou bola para chutar, cheguei de kichute na adolescência, com os pés cheios de lama e lágrimas no coração.

Um tempo muito difícil de entender que existia um dia só para as crianças, mas ao mesmo tempo, só para algumas delas. Quem será que ensinou aos adultos a serem tão cruéis? Somente um adulto é capaz de ensinar uma criancinha a ter raiva e inveja ao mesmo tempo.

Raiva porque as ruas nesses dias eram tomadas de cores e luzes da felicidade alheia, e inveja por que toda essa luminosidade não brilhava em todos os quintais. De mãos vazias, também aprendi a ter raiva do Playcenter e do Papai Noel. Bom velhinho, sei...

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Perfil: Milton Barbosa


Na luta pela igualdade racial no Brasil

Por Bárbara Mengardo

“Milton, para mim, é a personificação da lutanegra no Brasil, porque ele esteve em momentos grandiosos e importantes dessa história, e persiste até hoje nessa luta”. A frase é da integrante do Movimento Negro Unificado Suely Santos, se referindo ao amigo e companheiro Milton Barbosa.

Esse homem sorridente, que possui uma trajetória de vida entrelaçada à história do movimento negro no Brasil e é hoje um dos principais expoentes na luta pela democracia racial no nosso país, nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no dia 12 de maio de 1948.

Aos três anos se mudou com a mãe, empregada doméstica, e a irmã para a capital paulista, onde morou no bairro do Bixiga. Lá, segundo ele mesmo, foi criado “No meio de pessoas marginalizadas”, e conviveu de perto com a discriminação racial.

Uma de suas primeiras percepções sobre o racismo se deu no período escolar: “Na escola tinha uma dancinha, um tal de minueto, que eram as branquinhas e os branquinhos que dançavam. Os negros só faziam outros tipos de danças, mais populares” conta.

Durante sua juventude, Milton foi muito abordado pela polícia, que o parava apenas pela cor de sua pele. Esse tipo de situação o levou para o movimento negro: “Você aprende que precisa combater a discriminação, porque a grande massa da população não é racista porque quer, mas porque introjetaram isso na cabeça dela. O racismo é um dos pilares do capitalismo, é uma forma de dominação e divisão para garantir o capital”.

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Amigos de Papel: Dois alemães e um mulato

Por Joel Rufino dos Santos

“O armazém de Roberto Schultz era vasto. Tinha quatro portas de frente, e as mercadorias inúmeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulência. Ali se negociava em tudo, em fazenda, em vinhos, em instrumentos de lavoura, em café; era um desses tipos de armazéns de colônia, que são uma abreviação de todo o comércio e conservam, na profusão e multiplicidade das coisas, certo traço de ordem e harmonia. A loja, àquela hora, já estava cheia de gente, e Milkau, para chegar até ao balcão, foi desviando os fregueses ali amontoados em pé, todos indecisos, pesados, brancos e tardos alemães”.

Canaã, de Graça Aranha, é, sumariamente, a história de dois imigrantes alemães em Porto do Cachoeiro, Espírito Santo. Milkau, utopista rousseauniano, por assim dizer, e Lentz, supremacista germânico, nietzscheniano. Milkau se abrasileira, Lentz, não. Há em nossa literatura muitos romances com esse tema, um dos mais lidos foi Um rio imita o reino, de Vianna Moog, lá pelos anos 1960.

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Entrevista: Samuel Pinheiro Guimarães


"Se os jornais criticam a política externa é porque é progressista"

Participaram: Bárbara Mengardo, Débora Prado, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues, Tatiana Merlino e Wagner Nabuco.

O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães tem longa carreira na diplomacia brasileira, ocupou inúmeros cargos no Itamaraty, onde ingressou – por concurso – em 1961. Nos anos 1980 ele desempenhou importante papel na Divisão Econômica para a América Latina, contribuiu para estreitar as relações com a Argentina e na articulação do Mercosul. No governo Lula, foi peça-chave no Ministério das Relações Exteriores, quando o Brasil alterou positivamente sua política externa na direção dos vizinhos, da África e dos emergentes. Agora, ele desempenha nova missão no Mercosul. É da maior relevância o que o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães tem a dizer. Vá em frente.

Hamilton Octavio de Souza - Gostaríamos de saber da sua história no Itamaraty, como diplomata de carreira. Quando o Senhor entrou para o Itamaraty?

Em 1961, ano em que fiz concurso.

Hamilton Octavio de Souza - Quais os cargos que o senhor ocupou no Itamaraty?

Fiz parte de alguns cargos menores, mas como chefia, fui chefe de uma divisão que se chamava divisão econômica para América Latina. Depois, fui chefe do Departamento Econômico do Itamaraty no Brasil. No exterior, trabalhei na missão do Brasil junto às Nações Unidas, mais tarde, na Embaixada do Brasil em Paris. Fui diretor do Instituto de pesquisa das Relações Internacionais, Secretário Geral do Itamaraty durante sete anos no governo do Presidente Lula. E esse período todo também foi permeado por atividades fora do Itamaraty. Eu fui diretor da Sudene, vice-presidente da Embrafilme e trabalhei como jornalista.

Hamilton de Souza - Ao mesmo tempo?

No período de licença. Nesse período trabalhei como jornalista e depois trabalhei como economista em uma empresa de engenharia em São Paulo, uma grande empresa no Morumbi.

Tatiana Merlino - Onde o senhor trabalhou como jornalista ?

Na revista Visão, com Said Farah, que era dono da revista, isso foi por volta de 1972, mais ou menos.

Lúcia Rodrigues - Porque o senhor optou pela diplomacia?

Na época eu era estudante de Direito, fazia Faculdade Nacional de Direito no Rio de Janeiro, não existia UFRJ, era Universidade do Brasil e tinha as faculdades. Eu estudava na Faculdade Nacional de Direito e quando estava no terceiro ano, tinha trabalhado num escritório de advocacia e não tinha achado muito interessante. Gostava muito de política, fazia muita política estudantil. Isso em 1959, 1960, e então achei que seria interessante, digamos, ter uma atividade remunerada. Não queria ser advogado, como naquela época era política externa independente com Jânio Quadros e depois João Goulart, aquilo despertava interesse. Eu tinha 21 anos, resolvi fazer o concurso, e passei. Fiz o curso e comecei a trabalhar. Fiz o mestrado em Economia nos Estados Unidos. Fiz muita coisa que não me lembro mais. Eu olho pra frente, jamais olho para trás.

Hamilton Octavio de Souza - Das várias funções que o senhor ocupou, o que foi mais marcante na sua carreira, que considera mais significativo?

Acho que no período em que fui chefe de Divisão Econômica para América Latina e em que tomei a iniciativa de fazer um esforço de aproximação com a Argentina, em 1986.

Hamilton Octavio de Souza – Era o embrião do Mercosul?

Do Mercosul. Era uma aproximação progressiva com Argentina que precisou de um esforço muito grande. Como chefe de Divisão, tinha apoio de outras pessoas, inclusive do embaixador Thompson Flores, que era Subsecretario de Assuntos Econômicos. Então, houve um processo de negociação muito interessante, que levou a uma visita do presidente Sarney a Buenos Aires, onde foi assinado um programa de integração e cooperação econômica Brasil-Argentina, que foi um passo, do ponto de vista da política externa, muito importante.

Hamilton Octavio de Souza - Mas existia um histórico de disputa, competitiva, comercial... Era um esforço... Hamilton Octavio de Souza -Essa mudança nas relações exteriores...

Certamente, levou a uma mudança grande, havia nascido como um projeto de desenvolvimento dos dois países. Ele foi inserido na política econômica do Governo Collor e foi criado o Mercosul, uma transformação importante de visão e ideias de que criar associação de Estados que, através da liberação das barreiras de comércio entre Estados levasse, eventualmente, a uma inserção total do Brasil na economia internacional. Não se realizou, porque o Governo Collor teve uma duração, felizmente, curta. Mas, mesmo assim, durante muito tempo havia essa ideia. Havia deixado de ser um projeto de desenvolvimento dos dois países para ser um projeto neoliberal de abertura comercial. Depois, ele começou de novo a mudar junto ao próprio governo, não por causa do Fernando Henrique, porque foi no governo Fernando Henrique que houve aquela tentativa de negociação da Área de Comércio das Américas e foi, justamente nesse período, da minha carreira. Justamente a luta contra a ALCA. Depois, com o governo Lula eu tive participação pessoal nisso. Inclusive na época fui demitido do Instituto de Pesquisa por conta disso, da minha posição, dos artigos que escrevia na época.

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Cultura: As vozes dos trabalhadores na literatura


Coleção Literatura e Trabalho desperta o leitor para o mundo do trabalho com a grande literatura.

Por Cecília Luedemann

A história da coleção Literatura e Trabalho começa aqui, na rua Abolição, Bixiga, fiel à sua alma de final do século 19, com os casarões antigos transformados em cortiços e seu asfalto vibrando ainda com as lutas quilombolas da Chácara do Bixiga e dos imigrantes italianos. Para conversar com o coletivo de organizadores, seguimos o caminho entre bares e sindicatos, com a impressão de que vamos dar de cara com o Armazém Progresso de São Paulo do conto de Brás, Bixiga e Barra Funda, de Alcântara Machado. No lugar do armazém do Seu Natale, encontramos uma bela livraria da editora Expressão Popular. Lançados recentemente, a antologia Vozes da Ficção - narrativas do mundo do trabalho e o romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, são os primeiros títulos de literatura nacional e estrangeira. A seguir, na lista de publicação constam Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e Bola de sebo e outros contos de Guy de Maupassant.

Numa conversa bem descontraída, os professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, e a professora da Unicamp, Enid Yatsuda Frederico, e o editor Miguel Yoshida, contam como formaram esse coletivo e iniciaram a coleção. Nessa entrevista, apenas Cláudia de Arruda Campos, tembém da FFLCH/USP, não pôde estar presente.

Walnice lembra: “O MST e a Editora Expressão Popular nos chamaram para dinamizar as publicações de literatura. Neste coletivo, o que há em comum entre nós é que somos quatro doutores em Letras, três da USP e um da Unicamp. Além da vida inteira de militância. Todos somos velhos amigos.”

Miguel esclarece o objetivo da Expressão Popular: “A gente já tinha uma coleção de literatura, com cinco livros publicados, mas sem uma sistematização: fomos publicando o que aparecia. E a proposta era dar um caráter mais orgânico para essa coleção. Como se encontram nos objetivos da editora a questão da formação de leitores e a democratização da cultura, nada mais lógico que retomar de forma organizada a coleção de literatura.” Miguel se refere ao texto de Antonio Candido, O direito à literatura, ou seja, o direito que qualquer ser humano, pertencente a qualquer classe social, tem de fruir a alta literatura. Walnice recorda: “Desde o começo, nós acertamos entre nós que o nosso critério seria a grande literatura. Nós não iríamos e nem vamos baraterar de jeito nenhum.” Zenir explica, de maneira simples, o sentido das publicações: “Digamos um livro que a gente tenha interesse em reler e não simplesmente tomar conhecimento e descartar.” E Walnice exemplifica com a frase de Oswald de Andrade: “Um dia a massa comerá o biscoito fino que eu fabrico”.

Enid se recorda das primeiras conversas com o editor: “Nós precisávamos desenvolver uma linha que trabalhasse, realmente, com literatura, isto é, a literatura como arte, e que, ao mesmo tempo, pudesse desenvolver a leitura, o espírito crítico. Um tipo de publicação que levasse em conta dificuldades do leitor. Pensavamos, prioritariamente, nas escolas de acampamento e assentamento, mas que servisse, tembém, para o público em geral.” Para Zenir, esse projeto já estava em sua cabeça há muito tempo: “Eu escrevi um trabalho sobre isso com o título O mundo do trabalho e seus avessos: a questão literária, publicado pela Ática, em 2000, em um livro coletivo, Cultura brasileira: temas e situações, organizado pelo professor Alfredo Bosi. Eu escrevi a respeito do interesse que haveria em buscar na literatura brasileira exatamente o mundo do trabalho.”

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