IDEIAS DE BOTEQUIM

Dicas sobre lançamentos importantes no campo das letras progressistas.

Renato Pompeu

O JOVEM MARX, AINDA ATUAL?

Acaba de sair uma nova edição de A teoria da revolução no Jovem Marx, do pensador brasileiro radicado na França,Michael Löwy, pela Boitempo. A edição original em francês é de 1970, mas essa edição brasileira foi feita a partir da edição francesa de 1997. Trata-se de uma análise política e filosófica das ideias de Marx quando jovem, mostrando que há uma continuidade dessas ideias durante toda a vida de Marx. Em 1970, o livro reagia aos que, como o filósofo francês Louis Althusser, consideravam que o Marx maduro, ou velho Marx, havia superado em O capital suas ideias da juventude. Althusser defendia ainda a tese de que O capital era o único texto escrito por Marx que continuava plenamente válido. Löwy procura esclarecer que as teses políticas, como a revolução proletária, e filosóficas, como a emancipação do ser humano, continuam tão válidas quanto a economia política de Marx. 

Ainda no horizonte do comunismo, temos a biografia Entre sem bater – A vida de ApparícioTorelly, o Barão de Itararé, de Cláudio Figueiredo, um relato da vida colorida e tumultuada do humorista que, vereador comunista no Rio a partir de 1946, a um vereador conservador que interrompeu um seu discurso dizendo “O que Vossa Excelência está dizendo me entra por um ouvido e sai pelo outro”, respondeu: “Impossível, Excelência, o som não se propaga no vácuo”. O Barão de Itararé foi a prova viva de que um esquerdista radical não tem necessariamente de ser austero e mal-humorado.

Também da Boitempo é Padrão de reprodução do capital – contribuições da teoria marxista da dependência, em que, analisando a América Latina nos tempos mais recentes, diversos ensaístas, sob a coordenação de Carla Ferreira, Jaime Osorio e Mathias Luce, dão continuidade aos conceitos do falecido pioneiro da teoria da dependência, Ruy Mauro Marini, segundo os quais o imperialismo há muito deixou de ser um fator externo e há muito fincou raízes no próprio cerne dos países latino-americanos.

Do pensador e militante panamenho Nils Castro, temos As esquerdas latino-americanas em tempo de criar, pela Fundação Perseu Abramo. É uma discussão mais aprofundada sobre o que morreu e o que continua vivo no pensamento da esquerda depois da derrocada do socialismo real e da ascensão e crise do neoliberalismo.

Em cerca de 450 alentadas páginas, ricamente documentadas e ilustradas, o jornalista Leonencio Nossa faz um dramático e informativo relato das violências repressivas do regime militar em Mata! O major Curió e as guerrilhas no Araguaia, lançado pela Companhia das Letras.

Saiu em quarta edição, pela José Olympio, A obra do artista – uma visão holística do Universo, em que o Frei Betto, nas palavras do astrofísico Marcelo Gleiser, “demonstra que não existe incompatibilidade entre ciência e espiritualidade. Mais ainda, que a ciência é uma busca essencialmente religiosa, como o disse também Einstein”.

Com seleção e apresentação de Marco Haurélio e xilogravuras de Erivaldo, a Global lançou Antologia do cordel brasileiro, com cordéis que abrangem todo o século 20 e chegam aos tempos atuais.

 

CULTURA E LIBERTAÇÃO

Carlos Gomes, um tema em questão – A ótica modernista e a visão de Mário de Andrade, de Lutero Rodrigues, publicado pela Editora Unesp, faz um levantamento crítico sobre as principais apreciações feitas ao longo das décadas sobre a vida e a obra desse grande compositor.

Outros lançamentos da Editora Unesp: A Revolução Sul-Africana – Classe ou raça, revolução social ou libertação nacional, de Analúcia Danilevicz Pereira, dentro da Coleção Revoluções do Século 20, dirigida pela consagrada historiadora Emília Viotti da Costa – o título já basta para dar uma ideia da abrangência da obra.

O triunfo do fracasso – Rüdiger Bilden, o amigo esquecido de Gilberto Freyre, de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke”, que retraça a vida do pesquisador alemão que, na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, não só iniciou Freyre nas obras dos grandes pensadores alemães, como também insistiu que o jovem pernambucano se interessasse pelo passado da escravidão no Brasil. Apesar de ter exercido papel crucial na formação do pesquisador brasileiro, Bilden foi depois menosprezado não só pelos historiadores das ciências sociais, como pelo próprio Freyre. 

Mas o grande lançamento da Editora Unesp é a Correspondência 1928-1940, entre Thomas Adorno e Walter Benjamin. As relações entre os dois nem sempre foram harmoniosas, Benjamin se queixava de que Adorno não abria muito espaço para seus voos teóricos mais ousados, além de reclamar do pouco dinheiro que recebia.

Renato Pompeu é jornalista e escritor.

 


PIG

Ajude a combater o Partido da Imprensa Golpista. Fortaleça a midia independente. Assine Caros Amigos


 

 

 

 

ENSAIO FOTOGRÁFICO

PALESTINA

Território controlado por Israel, a Cisjordânia foi ocupada militarmente, juntamente com a Faixa de Gaza, em 1967, após a Guerra dos Seis Dias. Depois de quase um mês fotografando, ouvindo e vendo as consequências de uma ocupação injusta e opressora, o que mais ficou marcado não foram as nuvens de gás lacrimogêneo nem o som dos tiros, mas a hospitalidade e a força de um povo, que há décadas vê seu território sendo cercado por soldados, arame farpado, e mais recentemente, muros, que separam filhos de pais e plantações de seus donos. Por onde quer que passasse, a impressão era sempre a mesma: de que eles só querem alguém pra ouvir suas histórias, já que aparentemente, ninguém mais os ouve.

Clique aqui e confira o ensaio da edição 189 de Caros Amigos

ARGENTINOS DESAPARECERAM NO BRASIL

Ação conjunta de duas ditaduras no Rio de Janeiro e em Uruguaiana (RS) ainda precisam ser esclarecidas

Por Mário Augusto Jakobskind

Os meios de comunicação têm noticiado os julgamentos de agentes do Estado argentino, civis e militares, que cometeram crimes contra a humanidade. Figuras da alta cúpula militar, entre os quais o general Rafael Videla e o Almirante Emilio Massera foram condenados à prisão perpétua e isso graças ao fato de o então presidente Nestor Kirchner ter jogado para o lixo da história a legislação do ponto final, a anistia que contemplava os tais criminosos.

Apesar dos julgamentos e das condenações, inclusive de centenas de militares torturadores, ainda há muito a esclarecer sobre casos obscuros ocorridos durante o período ditatorial em que Rafael Videla, Emilio Massera, Reynaldo Bignone, entre outros, comandavam com ferro e fogo mandando matar e sumir com os corpos para evitar cobranças internacionais.

O próprio Videla, sem se arrepender, reconheceu recentemente, em entrevista concedida ao jornalista argentino Ceferino Reato, que foram entre 7 mil e 8 mil os assassinados cujos corpos desapareceram para não causar comoção interna e internacional. O depoimento de Videla foi transformado em livro com o título Disposição Final - uma analogia à solução final.

Leia a reportagem completa na edição 189 da revista Caros Amigos, nas bancas ou loja virtual

ISRAEL-PALESTINA

O GOLEM DA MOLDÁVIA

Por Gershon Knispel

Segundo a famosa lenda, o rabino Juda Ben Betzalel criou, no século 16, o gigante Golem, feito de barro, para defender o gueto dos judeus de Praga contra ataques antissemitas, usando as forças espirituais da Cabala, gravando na testa do gigante a palavra "Emet", que significa "Verdade". O Golem deveria obedecer sempre o rabino. Mas o Golem cresceu ainda mais, se tornou violento, e passou a desobedecer o rabino, matando a todos que cruzavam o seu caminho, judeus ou não-judeus.
Sem alternativa, o rabino decidiu destruir Golem. Tirou a primeira letra de sua testa, "E", e sobrou a palavra "Met", que significa "Morto", e o Golem se arrebentou em pedaços. Essa lenda poderia ser a chave para compreender a situação em que Israel, com seu novo nome de "Estado Judeu", se encontra, sob a liderança espiritual de Ivet Avigdor Lieberman, que emigrou da Moldávia.

Ninguém nega a coerência do Lieberman, de executar cada plano que conseguiu projetar. Ele é o arquiteto da "transferência", a expulsão dos árabes do "Grande Israel", que inclui Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. À "transferência", no passado, não se dava crédito e nem se poderia imaginar levar a sério uma solução desse tipo, mas Lieberman é hoje "respeitável". De acordo com uma entrevista publicada na Folha de S. Paulo a 18 de novembro, do negociador israelense Gershon Baskin, que tratava do cessar-fogo com o comandante do Hamas, Ahmed Jaban, no mesmo dia em que o acordo foi assinado, Israel assassinou, como alvo "seletivo", o próprio Jaban e deu início à maior ofensiva em Gaza desde 2008.

Leia o artigo completo na edição 189 da revista Caros Amigos, nas bancas ou loja virtual

Marcos Bechis: "Índios brasileiros são filósofos contemporâneos"

O cineasta ítalo-chileno lançou em São Paulo filme sobre Mussolini; para ele, a esquerda de verdade não pode defender o progresso sem limites

Por Júlio Delmanto

"Faça um artigo político. Eu não tenho medo de nada!". Assim se despediu Marco Bechis da reportagem de Caros Amigos, recebida por ele à beira da piscina do hotel em que estava hospedado durante a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada no final de outubro. Falando em português, e despenteando com as mãos seus cabelos brancos a todo momento, este filho de mãe chilena e pai italiano tem 57 anos, nasceu em Santiago, cresceu em Buenos Aires, de onde foi expulso pela ditadura, e vive em Milão. Veio ao Brasil trazendo seu mais novo filme, O sorriso do chefe, um retrato da sedução e da comunicação como armas políticas na ascensão de Benito Mussolini.

Antes, já havia passado outros períodos por aqui, e essa proximidade rendeu o premiado filme Terra Vermelha, que aborda os conflitos entre indígenas guarani-kaiowá e fazendeiros no Mato Grosso do Sul. O tema segue de grande atualidade e importância, inclusive pela forte repercussão de uma carta elaborada por índios da comunidade de Pyelito kue/Mbarakay sobre as violências praticadas contra os povos indígenas naquele estado.

Leia a entrevista completa na edição 188 da revista Caros Amigos, nas bancas ou loja virtual

Mais artigos...

×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend