Obra de autor moçambicano é metáfora do enfrentamento à colonização portuguesa

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Obra de autor moçambicano é metáfora do enfrentamento à colonização portuguesa

Por Valéria Martins
Para Caros Amigos

Marco da literatura moçambicana, o volume de contos Nós matamos o cão tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana, ganha nova edição no Brasil pela editora Kapulana, acrescido do conto inédito Rosita, até morrer (1971), nunca antes publicado. A obra é considerada um clássico da literatura africana e se tornou metáfora do enfrentamento ao autoritarismo e opressão impostos pela colonização portuguesa.

O volume é composto por oito contos, alguns deles narrados por crianças, que expressam de forma emocionante a realidade sufocante dos trabalhadores moçambicanos e suas famílias na era colonial.

O autor, Luís Bernardo Honwana, nasceu na cidade de Lourenço Marques (atual Maputo) em 1942. Aos 17 anos foi para a capital estudar jornalismo e, aos 22, se tornou membro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Foi preso em 1964 e permaneceu três anos na prisão. A primeira edição de Nós matamos o cão tinhoso! foi publicada em Moçambique nesse mesmo ano. Em 1969, em plena guerra pela independência, a obra foi traduzida para o inglês e conquistou reconhecimento internacional, sendo publicada em vários outros idiomas e países. Após a Independência de Moçambique, em 1975, Honwana foi nomeado diretor de gabinete do presidente Samora Machel, e participou ativamente da vida política do país, sendo nomeado Ministro da Cultura de Moçambique em 1986. Atualmente, é diretor executivo da Fundação para a Conservação da Biodiversidade (Biofund). Em 2017 lançou um livro de ensaios e crônicas de temática cultural e política, A velha casa de madeira e zinco. Nós Matamos o Cão Tinhoso! é seu único livro de ficção. 

Valéria Martins - Tantos anos após a primeira edição, Nós matamos o Cão Tinhoso! mantém sua força e relevância. O senhor se recorda o momento exato em que teve o ímpeto de escrever o livro? Onde estava? De onde surgiu a ideia?

Luís Bernardo Honwana: Comecei cedo a escrever coisas fora dos deveres escolares e das cartas como as que então se escrevia a familiares distantes e amigos. Escrevia para me divertir – justamente com companheiros de escola e de rua que me pediam para escrever histórias em que eles fossem protagonistas. Eram aventuras, fantasias incríveis, histórias de amor... Aos 17 ou 18 anos comecei a levar um pouco mais a sério meus exercícios de escrita. Meu primeiro texto publicado foi em um suplemento literário juvenil do jornal Notícias, de grande circulação. O suplemento tinha o ambicioso título Despertar e, além de desenhos, contos e poemas, incluía critica literária, de cinema e de arte.

Já a ideia de publicar um livro não foi minha. Foi do meu amigo Pancho Guedes, famoso arquiteto e animador cultural que se ofereceu para coordenar a edição. A essa altura eu já havia publicado várias histórias no suplemento literário do jornal A Tribuna, novo diário onde estreava como repórter. Também tinha algumas histórias publicadas em tradução inglesa numa revista literária sul-africana chamada The Classic.

Sabemos que o poeta José Craveirinha – agraciado com o Prêmio Camões em 1991 – foi uma influência importante em sua formação intelectual. Conheceram-se pessoalmente? Como era essa relação?

Conheci Zé Craveirinha nas tertúlias que então frequentava. Num jantar de despedida do pintor Sérgio Guerra, que partia para Paris, Zé, grande desportista, desafiou-me a corrermos os 100 metros quando saíamos do restaurante, já altas horas da noite. As pessoas – jornalistas, pintores, poetas, amigos e amigas – ficaram a fazer claque enquanto eu e o Craveirinha corriámos o percurso combinado. Ele ganhou! Quando fui trabalhar na Tribuna, Zé era um dos redatores seniores e tomou-me à sua proteção. Corrigia-me os textos, criticava-me a informalidade no vestir e deixava-me ler seus poemas inéditos. Apercebi-me aí da sua enorme dimensão como poeta e intérprete da moçambicanidade a que aspirávamos. É ao Zé Craveirinha que dedico Nós matámos o Cão Tinhoso!

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Ainda durante o colonialismo, Nós matamos o Cão Tinhoso!  foi traduzido e publicado em língua inglesa, e obteve grande divulgação e reconhecimento internacional. Em que circunstâncias aconteceram a tradução e publicação no exterior? Como o senhor se sentiu ao ver sua obra ganhar o mundo?

Depois das primeiras traduções publicadas pelo The Classic inscrevi-me em um concurso literário internacional que essa revista promoveu. Ganhei o primeiro prémio e, com ele, o interesse de editora de grande prestígio: a Heinemanns de Londres. Acabaram por publicar a tradução do Nós matamos o Cão Tinhoso numa série que então iniciavam, de escritores africanos. Como é que me senti? Envaidecido, pois então...

O senhor permaneceu alguns anos preso durante o regime colonial. Após deixar o cárcere, tornou-se diretor do gabinete do presidente Samora Machel e Secretário de Estado da Cultura. Como era a convivência com o presidente? Quais são suas impressões dele como homem e como líder?

Após cumprir os três anos de prisão a que fui condenado, voltei aos jornais em Moçambique. Fui para Portugal para estudar direito, mas voltei à África para juntar-me à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) na Tanzânia. Depois da declaração da Independência fui efetivamente trabalhar no gabinete do presidente da República. Samora Machel era um lider carismático, com uma autoconfiança inabalável, grande perspicácia política e total dedicação à revolução, que ele conduzia e que acreditava ser a solução historicamente correta para os problemas de Moçambique. Tinha enorme capacidade de ouvir, embora gostasse de dar a impressão contrária. Sua leitura da conjuntura internacional nem sempre era a mais correta e seus métodos de intervenção não eram isentos de uma truculência excessiva, muitas vezes tolerada. Homem da sua época no quadro das independências africanas, não acreditava na liberdade de opinião e na democracia pluralista.

Samora Machel subscreveu atos de grande coragem e larga visão, mas também erros lamentáveis, como todos os grandes líderes. Moçambique ainda não se recuperou emocionalmente da sua perda e ele foi convertido num herói mítico, espécie de antepassado deificado, na tradição das religiões africanas em que os grandes mortos se transformam em espíritos tutelares. Gravações dos discursos de Samora Machel são transmitidas nas rádios, vendidas em gravações-pirata, ouvidas nos transportes públicos – o povo usa-os para denunciar e castigar  a corrupção e as más práticas dos governantes atuais.

Atualmente, o senhor é diretor executivo da Fundação para a Conservação da Biodiversidade (Biofund). Como é sua atuação à frente deste órgão?

Emprestei a essa iniciativa a alguma capacidade de organizar e gerir que fui adquirindo ao longo da vida profissional. Sou parte do grupo de cidadãos que tomou a seu cargo fazer qualquer coisa para apoiar o financiamento de ações de conservação ambiental em Moçambique. Penso que fomos bem sucedidos e a fundação, que é privada e independente, está prestes a garantir condições de sustentabilidade para a sua operação. Estabelecemos que quando isso acontecer sairei da minha atual posição, mas continuarei a apoiar esta causa. Antes de trabalhar na Biofund passava a vida a viajar pelo país admirando as paisagens espetaculares que possuímos e a perguntando-me por que é que o desenvolvimento tem, necessariamente, que passar pela destruindo o patrimônio natural.

Este ano o senhor lançou um livro de ensaios e crônicas de temática cultural e política, A velha casa de madeira e zinco. Nós matamos o Cão Tinhoso! é seu único livro de ficção. Fale um pouco sobre os temas abordados no novo livro. Não tem vontade de voltar a escrever ficção?

A Velha Casa de Madeira e Zinco é uma seleção de textos que discutem temas que me são caros, como a Cultural como elemento da construção nacional, a relação entre o projeto político nacional e as nações pré-existentes (de outro modo designadas tribos), o conflito latente entre a Língua Portuguesa e os idiomas moçambicanos. Muitos dos textos foram já publicados e outros são inéditos. O conjunto cobre quase duas décadas. Sinto-me à vontade no ensaio, adoro o debate de ideias e tenho algum compromisso com a investigação social. O livro foi muito bem recebido em Moçambique, a primeira edição esgotou-se em poucas semanas – surpresa agradável! A aventura de publicar A Velha casa de madeira e zinco encoraja a ideia de voltar à ficção para saldar longa dívida para com os meus leitores.

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