Devemos defender Lula sim, mas a luta popular não acaba aqui...

Raphael Fagundes
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Devemos defender Lula sim, mas a luta popular não acaba aqui...

Por Raphael Silva Fagundes

Hoje é quarta-feira. Geralmente é dia futebol. Mas a mídia está preparada em cobrir outro duelo. O julgamento de Lula será, mais uma vez, uma maneira de tratar a política como um conflito entre dois lados. Um fla x flu. Resumindo o jogo do poder apenas a um “jogo”, ou melhor, a uma partida.

Todo esse processo contra o ex-presidente Lula deve ser encarado como uma estratégia da mídia de popularizar um discurso político que ganhou fama após o golpe: coxinhas x petralhas. A Justiça funciona como o árbitro de futebol que está ali para validar esse discurso e legitimar a vitória de um lado. Mas até entre os engravatados encontramos os boleiros...

Há uma batalha simbólica, aliás, o que há é uma violência simbólica onde as grandes corporações querem definir o conflito pelo poder, evitando que venham à tona as lutas classes. Mesmo que Lula, pelo menos no conflito forjado de hoje, seja o mais próximo das massas, o conflito entre as classes é negado com a profusão de um discurso raso sobre corrupção e sobre coisas úteis para manipular o fazer e o pensar político.

A definição do que é política é um mecanismo indispensável para conduzir as lutas políticas. E, desta maneira, transformando em uma mera partida de futebol, num espetáculo midiático, o conteúdo dos dois lados tornam-se vazios, ocos, como a bola que ora fura a zaga do adversário ora a nossa.

Esse julgamento não é apenas uma estratégia de enfraquecer ou de impedir que Lula participe do pleito presidencial desse ano, mas uma forma de inventar um conflito partindo de um único líder, impossível de ser derrotado por vias democráticas. Mas isso é democracia! Eric Hobsbawm dizia que na era dos impérios (1875-1914), as classes dominantes, quando percebiam que iriam perder o controle, fechavam o governo. Hoje, um golpe parlamentar já basta.

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A não-condenação de Lula tiraria todo o sentido do golpe dado em 2016, onde se começou, através das denúncias, a cozinhar o ex-presidente para que neste ano o prato principal fosse servido. Ano de eleição... Mas se Lula não for condenado, será o fim das medidas aprovadas pelo governo Temer? Se Lula não for condenado, provavelmente será o mais cotado para ganhar a corrida ao cargo de presidente, mas seria o fim de toda essa fase complicada a qual o Brasil passa?

Enquanto as classes dominantes se refestelam com as reformas, a população ainda acredita nas eleições, e a tentativa de tirar Lula da jogada aumenta ainda mais essa crença. As massas esperançosas ocupam as ruas para combater uma justiça sem lisura, partidária. Mas quem são os verdadeiros donos do poder por trás de toda essa fachada?

Lula e Bolsonaro são personagens dessa invenção da opinião pública, que no fim das contas é apenas uma ilusão. Servem para camuflar os poderosos que conduzem o funcionamento da economia, que criaram uma crise a qual a solução já estava pronta antes mesmo de ser anunciada.

A condenação de Lula será algo terrível para o movimento das massas, movimento conduzido pelas próprias classes dominantes que acham melhor se lutar por Lula que por uma transformação social em direção ao socialismo, ao projeto bolivariano que se desenvolve. Será que as elites não sabem que com a prisão de Lula, os ânimos ficarão ainda mais à flor da pele? É claro que sabem. Aliás, essa ira foi criada por elas mesmas, pois sabem que será bem mais fácil contorná-la. Difícil mesmo seria contornar uma revolta da esquerda contra o Lula. Vale lembrar, que diversos setores das esquerdas estavam inconformados com a política adotada pelo PT. Vimos isto em 2013. O impeachment foi muito útil para direcionar a revolta popular ao culto PT, um mal bem menor para os setores dominantes.

Precisamos defender Lula sim, mas devemos pensar na política para além desse conflito inventado pelas classes que controlam o poder. Uma vez Foucault perguntou que quando os comunistas falam de lutas de classes nunca definem o que são as lutas, apenas o que são classes. Certamente as lutas, as quais Marx se referia, não são por esse processo democrático conduzido, distorcido e ludibriante. As lutas ocorrem quando as classes se reconhecem enquanto classes para si, pensam para si, e percebem que seus interesses nada tem que ver com os interesses dominantes. Que o racismo, o machismo, o homofobismo que sofrem nada tem que ver com os daqueles que os oprimem enquanto classe que tudo produz, mas que tem os direitos cada vez mais restritos.


 

Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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