A esquerda antimarxista: para certos setores da esquerda, citar Marx é um crime

Raphael Fagundes
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A esquerda antimarxista: para certos setores da esquerda, citar Marx é um crime

Por Raphael Silva Fagundes

Recentemente eu escrevi uma crítica ao seriado Black Mirror no qual afirmei, categoricamente, que a série adota uma maneira de criticar a sociedade na qual se observa apenas os efeitos do capitalismo. Esse modelo de crítica é baseado nos mentores da Terceira Via, os sociólogos Ulrich Beck e Anthony Giddens.

A sociedade de classe é substituída por uma sociedade de risco, onde a ameaça à vida humana pôs fim a uma visão classista, isto é, ao conflito entre burgueses e operários. Sendo assim, sob este ponto de vista, as propostas estão sempre voltadas para “melhorar” o sistema capitalista, corrigir determinados erros, como as consequências da indústria e da tecnologia. Sabemos que a arte não tem o objetivo de ser crítica, principalmente a partir do momento em que ela se tornou um campo autônomo com Gustave Flaubert e Charles Baudelaire. Mas quando ela tem a pretensão de ser crítica, ou seja, quando propõe uma reflexão, ela deve ser criticada. Não a montagem, o som etc., mas o todo, ou melhor, o discurso.

Contudo, fui criticado. Fanático, estúpido, de propagar um tipo de marxismo que se distancia das massas, ortodoxo, moralista e por aí vai... Foi a primeira vez que recebi críticas de uma esquerda que não é marxista, pelo contrário, gosta de ser arrogantemente antimarxista.

Uma vez o filósofo esloveno Slavoj Zizek disse: “com essa esquerda que está aí, quem precisa de direita”. É a pura verdade. Uma esquerda que chama alguém de anacrônico por citar Marx e Lenin está muito longe de propor uma alternativa ao sistema capitalista, muito menos derrubá-lo um dia.

Essa esquerda é aquela que critica tudo: a pessoa que come carne, a poluição do meio ambiente, a homofobia, a tecnologia, a proibição das drogas... Mas tirou do seu vocabulário termos clássicos como “capitalismo”, “imperialismo”, até a palavra “revolução” se tornou antiquada, parece fazer erguer uma poeira sobre escombros bagunçados que trás um fedor insuportável de naftalina.

Enquanto a direita ganha espaço fortalecendo o seu discurso ao vociferar pensamentos antigos, ao recuperar comportamentos prístinos, a esquerda está, cada vez mais, contaminando-se com a doença infantil do comunismo diagnosticada por Lenin: o repúdio ao marxismo. Ela não compreende mais “a necessidade de levar em conta, com estrita objetividade, as forças de classe e suas relações mutuas antes de empreender qualquer ação política”.[1]

Não há muita diferença entre essa esquerda e os liberais doPSDB, DEM etc.. Talvez a questão mais intrigante, que diferencia os dois lados da mesma moeda,circunda em torno da privatização. Mas o que é estatal em um Estado gestor da economia capitalista? O que é estatal em um Estado composto por parlamentares ligados às terceirizadas que lucram mais que a própria empresa estatal? O que é estatal quando o os capitalistas forçam crises econômicas para guiar o destino de uma nação? É preciso estatizar a economia!

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A luz do sol que atravessa as frestas das nuvens carregadas, ilumina uma multidão ávida por liberdade. A liberdade individual, de pensamento, sexual, crença etc.. excita a todos. Petistas, pmdebistas, psdebistas, ninguém resiste ao glamour da liberdade. Ninguém aceita estar submetido a uma doutrina, seja de esquerda ou de direita. Liberdade é pensar por si mesmo! Desta forma, aqueles que possuem o controle dos meios controlam a mensagem. Porque o meio é a mensagem, como nos ensinou Marshall McLuhan. A noção de liberdade transmitida pelos meios de comunicação mais acessíveis (que por sinal, são os mais rentáveis para o grande capital) no mundo social, servirão para formar a opinião das pessoas. Assim, uma ideia de liberdade é forjada. “Esqueça o marxismo, lute pela ecologia, pelo fim do agrotóxico, ajude-nos a melhorar o capitalismo para você”. Essa é a mensagem.

Partir de um pensador para chegar a uma conclusão não é estar submetido a uma ideia. A crítica da pós-modernidade, da segunda modernidade, seja lá o que for, se pauta no ódio aos cientistas, à filosofia, tudo que pretendia ter a pretensão de ser a verdade definitiva. Chamam de moralista aquele que evoca Marx para se posicionar contrário ao capital e apontar um caminho! A moda de hoje é não ter um caminho, muito menos líderes. É preferível ser um carro desgovernado na estrada, ou um navio à deriva, a usar a sabedoria de um navegador experiente que passou anos aperfeiçoando-se.

Essa esquerda, composta principalmente por jovens, que se resumem ao modelo rudimentar de negar o que não é de sua geração, está espalhada por aí, idolatrando os brinquedos americanos,passando noites a comentar algum post ou vídeo viral que circula na internet. Criticam a partir do conhecimento que adquiriram ao acessaremos meios controlados por aqueles que não querem uma crítica substancial à estrutura capitalista, quer apenas atiçar a rebeldia, a revolta contra a superfície. É preciso pensar no capital, no capitalismo como gestor de todas as coisas que são comercializadas, inclusive essas supostas ideias de esquerda.

O capitalismo não se tornou mais convincente, após a queda da URSS, porque ele venceu de fato, mas porque inventou uma esquerda, a seu modo, e deu a ela os meios para criticá-lo. E muitos caíram nessa cilada, o que evitaa passagem da “classe em si” para a “classe para si”.

O feminismo, o racismo, a poluição do meio ambiente, devem ser sim pauta da esquerda, mas precisam ser concebidos como formas opressivas geradas pelo modo de produção capitalista. Uma opressão de classe, não algo moralista. Pensar no feminismo apenas como a dominação do homem sobre a mulher, no racismo como a dominação do branco sobre o negro etc.,eram bandeiras arvoradaspor liberais que pretendiam “melhorar” o capitalismo. É uma igualdade que não faz parte da decoração do lábaro marxista. Porque busca a convivência pacífica com o seu oposto.

Por outro lado, a luta de classes, algo muito mais dialético, procura a aniquilação do seu oposto: a queda violenta da classe exploradora. Por isso, a ideia de conceber as lutas de classes como o motor do funcionamento da sociedade não pode ser evidente, não pode estar óbvia nos filmes, jamais será mencionada em seriados como Black Mirror, pois colocaria em xeque a própria dominação burguesa. Acho que esta deveria ser a fonte de toda a crítica marxista sobre o produto consumido pelas milhões de almas que vagam dispersas atrás da ilusória liberdade, que por ser ilusória é reconfortante, atrativa, sensual, mas também insidiosa.


 

Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


[1]LÊNIN. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. p. 10. Acesso em: www.enlacers.com.br

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