Não nos faça de tontos! A corrupção não é a razão da crise

Raphael Fagundes
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Não nos faça de tontos! A corrupção não é a razão da crise

Por Raphael Silva Fagundes

As revelações de corrupção em plena crise econômica são de extrema importância para manter o funcionamento do capitalismo. O envolvimento de Jorge Picciani e de outros políticos do Rio de Janeiro nas propinas das empresas de transporte, a denúncia da JBS, a lista da Odebrecht e de Furnas entre outros escândalos de corrupção, não quer dizer que há um enfrentamento entre a burguesia nacional e o imperialismo, como pensam alguns setores da esquerda.[1] Na verdade, são formas de salvar o capitalismo.

A corrupção entre empresários e políticos é a essência do capital. Ela existe tanto em tempos de riqueza quanto em tempos de crise. A mídia hoje faz um grande espetáculo, mas não trouxe nada de novo. É como pergunta ironicamente Slavoj Zizek sobre o caso do “Panama Papers”: “não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender?”[2] Ou como você descobrir que desenvolveu um câncer nos pulmões por tanto fumar.

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Tudo não passa de uma estratégia para justificar a farsa que inventa a certeza de que a causa da crise é a corrupção. O objetivo é espalhar a crença de que se não houvesse corrupção o capitalismo poderia ser justo e todos viveriam felizes para sempre. Mas não há como existir capitalismo sem uma relação obscura e interesseira entre o Estado e os empresários. O Estado é uma cúpula da classe dominante. Ele não está lá para agir como uma mão invisível que ajuda as vítimas da atrocidade do mercado, embora se venda essa ideia.

A crise não foi gerada pela corrupção. Esse argumento é um embuste. A corrupção é evidenciada em tempos de crise para nos desviar da ideia de que o capitalismo assemelha-se ao feiticeiro “que já não pode controlar as potências infernais por ele postas em movimento [...] basta mencionar as crises que, com seu periódico retorno, põem em questão e ameaçam cada vez mais a existência de toda a sociedade burguesa”.[3]

A burguesia sente prazer em dizer que é um problema de gestão e não do capitalismo, da sua estrutura alienante e desumanizante. Por isso tende a colocar culpa nos representantes do Estado. É lógico que existe um grupo da burguesia que não entende a relação crise/corrupção como uma teoria da conspiração, mas que acredita fielmente nele como um sistema justo, neutro e que, no fim das contas, são os homens que o corrompem. Afinal, como mostra Cornelius Castoriadis, a burguesia, para alienar a sociedade, precisa, em primeiro lugar, alienar a si mesma.

É preciso pôr fim a narrativa liberal conservadora que se tornou hegemônica. “A identificação de uma suposta elite todo-poderosa no Estado, e não no mercado, suprema tolice que possibilita a virtual invisibilidade da ação predatória dos oligopólios e da intermediação financeira, também é fruto dessa hegemonia”, nos diz o sociólogo Jessé Souza.[4] Daí gera-se essa histeria em relação à corrupção disseminada entre a população e alimentada pela mídia.

Crise e corrupção são consequências naturais do sistema econômico capitalista, mas elas não, necessariamente, caminham juntas de mãos dadas. Estou inclinado a dizer que quando o capitalismo está em sua situação mais glorificante é quando a corrupção está a todo vapor. A corrupção no capitalismo não gera crise, pelo contrário, é a corrupção que promove o enriquecimento das grandes corporações e oligopólios industriais, finalidade desse tipo de sistema.

Mas para nos desvirtuar desse raciocínio vem aqueles que acreditam na utopia de um capitalismo perfeito: “As investigações são absolutamente necessárias. O que atrapalha a economia é ter havido corrupção. As apurações vão garantir mais segurança e transparência nos negócios entre os setores público e privado. As descobertas provocam efeitos na economia, mas a causa do problema é o fato de ter havido corrupção de maneira tão recorrente que começou a fazer parte da paisagem”.[5]

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Não pode ser um absurdo o que se tornou um padrão. A história nos mostra o hábito de se culpar a corrupção: “Os republicanos da propaganda acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Os revolucionários de 1930 acusavam a Primeira República e seus políticos de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob a acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de caça aos marajás e foi expulso do poder por fazer o que condenou”,[6] escreve o historiador José Murilo de Carvalho. Hoje a mídia insiste em demonstrar a corrupção como um escândalo, ou algo que prejudica o avanço econômico do capitalismo. Repete-se sempre a mesma coisa. De modo que tudo nos faz parecer loucos, já que acreditamos no mesmo discurso esperando resultados diferentes.

Isso ocorre porque as pessoas são levadas a crer em algo, primeiramente, através da emoção. Górgias, na Grécia Antiga, chamava isso de psychagógia. Hoje Patrick Charaudeau chama de patemização. O sentimento de vingança e justiça são os mais acionados por esse discurso falso. Em cima deste discurso, surge a lógica de que o roubo (abordado de uma forma simplória, isentando as injustiças de classe) prejudica o avanço e o progresso dos justos.

A corrupção possui duas funções no sistema capitalista: para a fartura e para a penúria. No primeiro caso, ela não é mencionada, porém todos os acordos assinados entre as empresas por meios ilícitos, as tramoias e falcatruas, são feitos nesse momento. As empresas engordam suas riquezas através dessa ilegalidade, que sempre existirá, mas sem jamais vir à luz já que a política, na ilusão democrática, serviria para atender os interesses de todos. A corrupção é lucrativa e todos sabem que ela está lá.

No segundo caso, em momentos de crise, ela é jogada para o conhecimento do público, mas passa ter a função de salvador do capitalismo. A corrupção é a justificativa para a crise. Camufla-se, desta maneira, a verdadeira essência do capitalismo que é a exploração intensiva. Inebriados por esse discurso que serve de cão de guarda do capital, as pessoas passam a acreditar no extermínio da corrupção para salvar o capitalismo. Mas como o sistema não muda, a corrupção sempre volta ao seu devido lugar.

Ficamos viciados nesse círculo que se encaixou perfeitamente para nós brasileiros. Existe a mentira que precisa ser dita mil vezes para se tornar verdade e aquela que basta tocar os corações desesperados. Pronunciada por aqueles que têm acesso aos meios de comunicação de maior difusão, essa mentira, que gera fé e uma esperança imprópria, ganhou uma enorme musculatura ao longo da história, e até hoje nos faz dar murros em ponta de faca.


[3]MARX, K. e ENGELS, F. O Manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 51.

[6]CARVALHO, José Murilo. Passado, presente e futuro da corrupção brasileira. AVRITZER, Leonardo et. al. Corrupção: ensaios e críticas. 2 ed. Belo Horizonte: EdUFMG, 2012. p. 200.


Raphael Silva Fagundes é doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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