Uma verdadeira espiritualidade

Padre Beto
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Uma verdadeira espiritualidade 

Por Padre Beto

No ser humano está a natureza com suas leis e, muitas vezes, agimos segundo nossos impulsos e instintos. Porém, o ser humano não pode ser reduzido a uma parte da natureza. Como afirma o pai da Logoterapia, o ser humano é criativo, o caráter é criado. O ser humano é composto de corpo que o possibilita estar no mundo, mas o ser humano também possui um psiquismo que o torna apto a se relacionar com o universo e outros seres humanos de uma forma emocional e sentimental. Mas, além do corpo e do psiquismo, o ser humano também é espírito. A dimensão espiritual é a dimensão da liberdade e da responsabilidade. O ser humano pode agir segundo convicções próprias que até mesmo contrariam seus instintos básicos e o faz criar um mundo essencialmente humano. É a liberdade e a responsabilidade do homem espiritual que faz com que possamos construir uma verdadeira história humana. Cada um pode querer com vontade própria independentemente das leis da natureza, e cada um pode tomar suas próprias decisões sem determinismos naturais. Sem dúvida alguma, temos limitações físicas, psíquicas e ambientas, mas nenhuma destas limitações determina nosso querer e nossas decisões. O ser humano possui uma liberdade e responsabilidade ética que constroem sua caminhada pessoal e social. Poderíamos chamar de “destino” as condições dadas em nossa existência que nos impõem limitações: sou brasileiro, falo língua portuguesa, pertenço a uma classe média baixa, frequentei escola pública, sou muito emotivo e sofro de insônia. Enfim, tudo isso podemos entender como condições dadas pelo meu “destino”, mas nada disso me impede de escolher o que desejo, dentro destas limitações e até mesmo de modificá-las radicalmente. A responsabilidade sobre o quadro atual da vida é nossa.

"A grande dificuldade das gerações de hoje é justamente compreender a necessidade de termos atitudes, fruto de nossa liberdade e responsabilidade, diante das situações da vida. Neste sentido o nosso povo ainda é pouco evoluído e muito imaturo"  
   

A grande dificuldade das gerações de hoje é justamente compreender a necessidade de termos atitudes, fruto de nossa liberdade e responsabilidade, diante das situações da vida. Neste sentido o nosso povo ainda é pouco evoluído e muito imaturo. Enquanto testemunhamos a presidência propondo uma absurda reforma da Previdência o que mais vemos são piadinhas pelo watts e nas redes sociais, ao invés de pessoas ocupando as ruas exigindo do governo que penalize não o trabalhador, mas os grandes devedores da Previdência. Talvez um dos traços da maturidade humana seja o assumir definitivamente a condução de sua vida sem tentar arrumar “bode expiatórios”. Mas, infelizmente destes estamos cheios. As gerações que estão aí se iludem com discursos falaciosos sobre a democracia brasileira proferida por verdadeiros coronéis ou com as práticas enganosas de lideres cristãos em igrejas de todas as denominações. Sem a ilusão de uma liberdade absoluta, o ser humano verdadeiramente maduro sabe que pode tomar decisões que o tirem das condições em que se encontra e tem consciência também de sua co-responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. E aqui está o verdadeiro lado espiritual do ser humano. Mas, a morte silenciosa de milhares de pessoas através do atendimento precário do SUS como a falta de perspectiva de vida da maioria dos jovens que frequentam as escolas públicas parecem não criar em nós o repúdio necessário. A questão é começar a refletir sobre as possibilidades que temos e podemos criar.

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Afinal, o futuro são possibilidades, mas possibilidades que nós mesmos criamos e conquistamos. Quando vejo rapazes e moças com seus quase trinta anos ainda morando na casa dos pais e vivendo como se fossem ainda jovens constato que perdemos alguma coisa. Perdemos aquela vontade de independência que minha geração tinha, de não aceitarmos uma vida dada, mas de irmos em busca de uma conquista em todos os sentidos. Aqui constato a falta de uma verdadeira espiritualidade. Quando vejo pessoas com saudades da ditadura militar lembro-me da aversão que possuía em minha juventude por uniformes e quartéis, aversão na verdade em relação a um regime que não nos permitia realizar, conquistar, expressar. Falta para as gerações que estão aí a gana, a garra de sair da zona de conforto e viver individual e coletivamente um projeto. O futuro é se direcionar para as possibilidades reais que vislumbramos à nossa frente. Mas, as gerações de hoje estão míopes espiritualmente. Não compreendem que viver uma espiritualidade não é se prender a preceitos religiosos, a ritos emocionantes e promessas de curas. Tudo isso só reforça a zona de conforto, a falta de luta, a perda de liberdade e responsabilidade. Viver uma espiritualidade é concretizar seus valores e construir a sua própria história. Isso é transcendência e ligação com o Transcendente. É claro que no futuro nada é certo, pois influências externas e até mesmo internas podem acontecer. Mas, aqui está o desafio maravilhoso da vida: lutar para a concretização das possibilidades e interagir ativamente com as surpresas que podem aparecer. Se não vivo esta minha dimensão espiritual, não vivo verdadeiramente.  Afinal, se não conduzimos nossa vida, alguém irá fazê-lo por nós.


Padre Beto é Escritor, Cronista, Filósofo. Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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