O homem elefante

Padre Beto
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O homem elefante

Por Padre Beto

John Merrick possui uma anormalidade física e se torna uma assustadora aberração de circo. Rotineiramente humilhado por seu mestre Bytes, John se sente um verdadeiro monstro. Esta situação se transforma quando Frederick Treeves, um famoso cirurgião, fica fascinado por aquele personagem grotesco e o leva para o hospital em que trabalha. Fora do ambiente hostil de um circo de horrores, o médico vai descobrindo que, a despeito de sua aparência incomum, Merrick é um ser humano gentil, sensível e inteligente. O filme de David Lynch “O Homem Elefante” filosofa sobre o mundo das aparências e como estas podem afetar os destinos humanos.

Os seres humanos de uma sociedade de consumo vivem em um universo, no qual a imagem possui grande importância. Desde pequeno o ser humano é levado a criar uma imagem e sustentá-la perante a sociedade. Da mesma forma, todo ser humano cria um julgamento de seus semelhantes segundo as aparências. Todos se preocupam no que os outros irão pensar se assumimos determinada postura ou determinado comportamento. Isso significa que todos se incomodam com sua imagem e o que ela significa para os outros.

Uma sociedade que vive de aparências é sempre uma sociedade que possui relações superficiais e relacionamentos distantes. Como conseqüência, as pessoas acabam sendo hipócritas e preconceituosas. Se vivemos de aparências não demonstramos exatamente o que somos e pensamos, e assim nos tornamos hipócritas, ou seja, pessoas que sustentam valores que não desejam viver, ou que só vivem estes valores em publico.

Ao mesmo tempo se todos representam um papel e não vivem na autenticidade temos medo de nos aproximar, pois a proximidade revela nossas contradições. Se vivemos de aparências e distantes facilmente criamos preconceitos, ou seja, um conceito prévio do que é o outro.  Mas, não são somente a hipocrisia e o preconceito as doenças de uma sociedade de consumo. O grande problema da sociedade das aparências é a insegurança. Como a imagem é somente uma fachada, nunca conhecemos as verdadeiras intenções dos outros.

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O doutor Frederick descobre quem é, na verdade, John Merrick quando se aproxima dele e inicia uma convivência. A convivência derruba os “fantasmas” e acaba com preconceitos. Mais que isso, a convivência constrói obrigatoriamente a veracidade e a transparência nas relações. Justamente a transparência talvez seja uma das principais características do ser humano para a construção de uma sociedade justa. Afinal, a transparência gera discussão e expõe as claras os posicionamentos de cada um. Seja na família, no trabalho ou na sociedade, a transparência obriga os seres humanos a pensar sobre seus comportamentos e sobre os comportamentos dos outros. Mais que isso, ela garante a todos a segurança do “jogar limpo”, sem truques e sem artimanhas.

A transparência também evita um grande mal de nossas instituições: a corrupção e a exclusão. Nossas instituições políticas e até mesmo religiosas são marcadas por atos de corrupção e de exclusão, por isso evitam a transparência. Se as instituições apresentassem com transparência seus gastos e aplicação de nosso dinheiro, o tempo realmente investido em trabalho e as realizações feitas (e como são feitas) muitos erros seriam evitados e muitos oportunistas estariam fadados ao fracasso. Alem disso a transparência das instituições motivariam a participação popular, pois seja nas instituições políticas ou religiosas, as decisões estão nas mãos das minorias que detem o poder.

Esta situação é a maior forma de exclusão social existente em nosso país. Sem duvida alguma, através das aparências acabamos excluindo pessoas devido ao sexo, raça ou aspecto físico. Mas, a grande exclusão ‘e a crença de que o poder deve estar nas mãos de poucos e não da maioria, como deveria ser em uma democracia.


 

  Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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