Por volta da meia-noite

Padre Beto
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Por volta da meia-noite

Por Padre Beto

Na Paris de 1959, mais exatamente no clube Blue Note, um veterano e talentoso músico de Jazz extrai uma eloquente melodia de seu sax tenor. Do lado de fora, uma jovem parisiense decide acompanhar aquelas belas notas.

Depois de algum tempo, os dois constroem uma amizade que acende a centelha de genialidade final na carreira do músico. “Por volta da Meia-Noite”, que rendeu um Oscar de melhor trilha sonora a Herbie Hancock, é uma elegante homenagem ao Bebop - Estilo jazzístico surgido após a segunda guerra mundial - e aos afro-americanos expatriados que o criaram, o nutriram e viveram dele.

Dirigido por Bertrand Tavernier e estrelado pelo grande sax tenor Dexter Gordon, numa performance inesquecível, o filme é uma jornada musical de sensibilidade e nos leva a perceber como precisamos de momentos de pura contemplação e tranquilidade. Hoje a vida se tornou acelerada demais. São muitas informações, muito trabalho, compromissos, objetivos que nos deixam ocupados demais para saborear a vida.

Isso tudo de tal forma que, quando temos algum tempo, ficamos sem saber como viver o momento livre. Mesmo as músicas que curtimos em horas de lazer são extremamente estressantes e pesadas. Os filmes que assistimos precisam estar em um ritmo também acelerado como a nossa vida, caso contrario, não temos paciência de chegar ao seu final. A novidade precisa ser a regra, e não nos aprofundamos em nenhum tema que está hoje em pauta.

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Alguém se lembra da queda do avião da Air France, do acidente da TAM em Congonhas, do assassinato da Isabela Nardone, do último caso de corrupção na Casa Civil? Tudo é vivido rapidamente sem profundidade e sem reflexão sobre as consequências concretas que transformam realmente nossa vida. Os fatos nos ocupam a mente e as atividades o nosso físico, de tal forma que não temos tempo para enxergar para onde estamos caminhando. Justamente este é o objetivo de nosso sistema de consumo.

Consumir e produzir o mais rápido possível é o que importa para o nosso sistema. A consequência é grave: não temos tempo de pensar sobre o próprio sistema e fazer algo para transformá-lo. Enquanto os trabalhadores de classes menos abastadas se ocupam em sobreviver e pagar suas contas, enquanto as pessoas de classes mais abastadas se enchem de ocupações em busca do que a sociedade chama de qualidade de vida, deixamos de nos ocupar com o próprio sistema que nos escraviza. O salário é ruim, os impostos altos, muitos políticos corruptos, o sistema de saúde não cuida nem da doença, a educação publica é deficiente, enfim, sabemos de tudo isso, mas não nos mobilizamos para a transformação de nada.

O que nos importa é o imediato das ocupações que a vida acelerada nos impõe. Vivemos em uma época na qual a ideologia do progresso individual é a visão de mundo predominante. Isso quer dizer que cada um cuida de seus próprios desafios e busca o seu sucesso individual. O ser humano está cego diante de sua vida coletiva e a vida acelerada torna a cegueira mais intensa. Não conseguimos enxergar que o sucesso individual se torna muito mais difícil de ser alcançado, se não nos ocupamos do coletivo, daquilo que nos atinge a todos. Se tivéssemos uma sociedade bem estruturada e instituições publicas que atendessem às necessidades básicas individuais, a nossa busca de sucesso seria completamente outra e muito mais fácil. Mas, ninguém possui tempo para pensar, refletir e agir em relação aos problemas relacionados à política, economia e instituições públicas.

O ser humano do século 21 precisa aprender, ou reaprender, a parar. A contemplação mais aprofundada das coisas que acontecem a nossa volta se faz necessariamente urgente, caso contrário continuaremos vivendo em uma oligarquia disfarçada de democracia, continuaremos vivendo em uma escravidão disfarçada de liberdade. A pior das ditaduras é aquela construída em nosso interior, que nos convence de que cada um deve cuidar de sua vida e que as ocupações particulares são o sentido da vida. Desta forma, somos como o cavalo que possui uma cenoura pendurada em sua testa: sempre correndo atrás da cenoura que nunca alcançará.


 

♦ Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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