Woodstock

Padre Beto
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Woodstock

Por Padre Beto

Woodstock – 3 Dias de Paz, Amor e Música, de Michael Wadleigh, o documentário vencedor do Oscar da Academia e, segundo muitos, o melhor filme de sempre sobre um concerto, ganhou nova versão com 225 minutos, nos quais podemos apreciar com admiração imagens e sons restaurados de elementos originais. Não só: mais de 40 minutos de imagens inéditas foram incorporados ao filme. No seu inovador formato original panorâmico multi-imagem, esta é uma festa inesquecível que conseguiu ilustrar a sua época como nenhum outro filme, como também registrar o comportamento de uma juventude que possuía propostas para a sociedade.

A questão não é discutir as propostas de uma juventude do século passado ou a cultura que emergiu dela, mas sim discutir que a juventude da época possuía propostas e atitudes. Isso mesmo, a juventude discutia a sociedade e a vida em comum. Não era uma juventude de projetos individuais, preocupada com sua sobrevivência no mercado de trabalho, em prestar concursos públicos e atingir a tão sonhada estabilidade financeira. Não era uma juventude que desejava ter poder de consumo e acreditava que adquirir bens nos traz a felicidade. Pelo contrário, era uma juventude descontente com o que estava ali para todos: mercado de trabalho, consumo, guerra, política etc. Sem dúvida alguma, não se pode idealizar uma geração, mas temos que admitir que as gerações de 60 e 70 do século passado pensavam no coletivo e compreendiam que este influencia diretamente a vida individual decada um. Hoje, encontramos uma juventude extremamente apática diante de sua sociedade e de todos os problemas que enfrentamos.

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A “era das ideologias” já terminou, mas a evolução não foi para melhor. Da “era das ideologias” passamos para a “era da ideologia”. O que movimenta a juventude atual é a ideologia do progresso individual. Em cada um está a convicção de que a luta é individual e o sentido da vida é vencer no mercado de trabalho ou encontrar o seu grande amor. Basta analisar a procura da juventude pela religião. O que mais atrai na religião hoje em dia é uma relação íntima com Deus que traga benefícios individuais. A religião reduziu-se a um espaço de bem-estar. Por isso, os inúmeros grupos de música de louvor que cantam e louvam sem dizer absolutamente nada de concreto sobre a vida. Como uma droga alucinógena, os jovens louvam a Deus e continuam a ser individualistas em nome de Jesus (o que é uma imensa contradição). Ou podemos analisar as músicas veiculadas pela indústria fonográfica de hoje.

"Seja uma vaga no mercado de trabalho, seja o grande amor perdido, ou o êxtase em uma celebração religiosa, o individualismo é a atitude básica. O problema, porém, é mais profundo. Esta atitude não é consciente, como a dos jovens de 60 e 70. Esta atitude é fruto de uma sociedade de consumo que não oferece à maioria dos jovens espaços de reflexão crítica"

Enquanto a geração de Woodstock cantava o amor, a paz, as drogas, mas tudo relacionado à política e à sociedade, hoje os jovens cantam o “amor de corno”. Se o sertanejo clássico (não a música raiz!) falava do amor perdido, hoje o sertanejo universitário fala do corno feliz: eu vou beijar, curtir, dançar, mesmo que você tenha ido embora. Seja uma vaga no mercado de trabalho, seja o grande amor perdido, ou o êxtase em uma celebração religiosa, o individualismo é a atitude básica. O problema, porém, é mais profundo. Esta atitude não é consciente, como a dos jovens de 60 e 70. Esta atitude é fruto de uma sociedade de consumo que não oferece à maioria dos jovens espaços de reflexão crítica.

A juventude de hoje, ao sair da infância, é induzida, por vários mecanismo, a pensar em seu sucesso individual, sem perceberem que estão caminhando para uma luta ingrata. Nela a maioria perde, pois não tem condições de atingir o sucesso divulgado na mídia. A este sucesso três objetivos são fundamentais: dinheiro, amor e fama. A questão não é vocacional, ou seja, me perguntar qual é a atividade profissional que mais me realiza, mas como ganhar dinheiro. O amor continua sendo o romântico que ilude para uma vida de prazeres e fantasias. Por fim, é necessário que meu sucesso seja público. Não basta a satisfação pessoal, mas é necessário que todos percebam. Qual o resultado de uma geração assim: indivíduos carentes, frustrados e uma sociedade injusta, corrupta e desonesta.


 

 Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em História pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em Teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

 

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