Minha vida em cor de rosa

Padre Beto
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Minha vida em cor de rosa

Por Padre Beto

Um menino bastante retraído decide se vestir apenas como menina, causando um grande furor na pequena cidade onde mora. Sua família deve, então, viver com a possibilidade de que ele seja gay e deve superar todos os transtornos que a situação gera. O belíssimo filme de Alain Berliner, Minha Vida em Cor De Rosa, traz à tona duas questões extremamente atuais: o desconforto em relação ao diferente e a aceitação da diversidade sexual.

O ser humano é, infelizmente, educado através de padrões comportamentais que fazem com que sua mente deixe de ser reflexiva. A padronização do comportamento humano cria expectativas rígidas, as quais, diante de alguém que venha a ter um comportamento não esperado, tornam-se frustradas. As pessoas esperam que as outras venham a se comportar dentro de um determinado padrão. O problema é que o ser humano não é padronizável.O que nos iguala é exatamente a capacidade de sermos diferentes.

Cada ser humano é uma mistura única de carga genética, de convivência social, de sexualidade. Por isso, uma criança é um ser imprevisível; nela está uma potencialidade que não podemos matematicamente prever o resultado. No fundo, a vida humana é um caminho que se faz caminhando e deixando rastros próprios. Apesar dos seres humanos ainda se julgarem pela aparência e através de generalizações, os seres humanos precisam aprender que as diferenças existem e estas enriquecem o nosso universo.

 

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Mas, o filme toca em outro tema de igual importância: a diversidade sexual. O ser humano é um ser sexuado e, como tal, vive e se expressa através de sua sexualidade, que não pode ser confundida com gênero. Discutir gênero humano significa discutir o homem e a mulher e seus papéis no mundo social. Algo totalmente diferente é discutir sua sexualidade. Tanto homens como mulheres possuem uma diversidade sexual que não pode ser reduzida à heterossexualidade. Nem toda mulher e nem todo homem são heterossexuais. A sexualidade é profunda demais para permanecer no patamar do gênero humano.

"A sexualidade abrange desde nossa maneira de se comportar no mundo, passa pela maneira como nos relacionamentos com as outras pessoas, e vai até a profundeza de nossa intimidade. Ela é toda nossa forma de expressão. Aqui temos uma variedade enorme de sexualidades que não pode ser padronizada ou generalizada"

Em primeiro lugar, é necessário saber que sexualidade não é genitalidade. A sexualidade abrange desde nossa maneira de se comportar no mundo, passa pela maneira como nos relacionamentos com as outras pessoas, e vai até a profundeza de nossa intimidade. Ela é toda nossa forma de expressão. Aqui temos uma variedade enorme de sexualidades que não pode ser padronizada ou generalizada. Nem todo homem heterossexual possui o comportamento de “macho” e nem toda mulher heterossexual é feminina. Podemos encontrar  heterossexuais afeminados, ou seja, com traços e maneiras femininas, como também heterossexuais extremamente masculinos. O inverso também é realidade.

Podemos encontrar homossexuais, homens e mulheres, com comportamentos masculinos, como também podemos encontrar homossexuais, homens e mulheres, com traços extremamente femininos. Como também no mundo da sexualidade humana não se pode ficar na polaridade entre heterossexuais e homossexuais. A bissexualidade está presente no universo humano e pode ser uma forma de relacionamento, pois não está limitada a um determinado sexo.

O importante em tudo isso é aceitar a realidade de que a sexualidade pertence à natureza humana e não pode ser mitificada ou sacralizada como muitos desejam fazer. A sexualidade humana deve ser vivida com naturalidade sem ser vítima de regras morais que tentam moldá-la a um determinado padrão social. O universo humano deveria simplesmente reconhecer o ser humano como um ser sexuado sem classificações. Somente assim o ser humano, não importando a sua sexualidade, poderá se desenvolver de uma forma saudável e tranquila. A rígida padronização da sexualidade somente gerou pacientes para Freud. Ao invés de auxiliar o ser humano a viver bem. O respeito mutuo, a aceitabilidade e o carinho para com a outra pessoa são regras que não podem ser esquecidas, mas isso vale não somente para a sexualidade, como também para qualquer área do relacionamento humano.


 

 Padre Beto é escritor, cronista e filósofo. Formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).

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