Guiana-Caiena se insurge contra exploração colonial francesa

Yuri Martins Fontes
Typography

Guiana-Caiena se insurge contra exploração colonial francesa

Por Yuri Martins Fontes

A coluna deste mês, como planejado, daria início a uma série de análises sobre a questão dos países não-alinhados aos EUA e seus sócios menores. Contudo, um acontecimento histórico – e ainda bem quente – nos leva a desviar um pouco o percurso para trazer à luz o ocorrido que chacoalha a política francesa em um delicado período eleitoral.

Trata-se de uma anacrônica e (quase) esquecida colônia, em plena América do século XXI: a Guiana-Caiena, dita “francesa” por seus atuais exploradores, está em convulsão. E por que não dizer, em vias de se “desalinhar” da espoliação que sofre há séculos de Paris, dentre outras potências coloniais que a invadiram, dizimaram seus nativos e saquearam sua floresta, legando ao novo século não um país integral, mas uma contradição latente: um território imenso para sua pequena população, riquíssimo em recursos naturais e saberes originários (de povos como os Arawaks que com suas culturas de milho, inhame e batata desfrutavam de adequada segurança alimentar), mas que hoje, sujeito ao descaso francês, restrito em autonomia e dependente da tutela parisiense, já não consegue sequer produzir o que come.

Leia mais:

Ministro do STF notifica Câmara a dar explicações sobre terceirização

Contra o voto em lista fechada, deputados ressuscitam o Distritão

A Lava Jato e a economia três anos depois 

Neste final de março, a ebulição social guianense, começada há algumas semanas com a paralisação de companhia de eletricidade, seguida pela paralisação de outras categorias sindicalizadas, e passeatas contra a alta insegurança, ganhou dimensões de uma greve geral – o que acabou por afetar o serviço aeroportuário local, isolando a colônia francesa. Mais do que isso, o ato restringiu simbolicamente o acesso da metrópole à colônia. De acordo com os líderes deste gesto de resistência, os voos desde Paris não estão autorizados a pousar na Guiana “até nova ordem”.

Em pleno período eleitoral, isso mexeu com a cúpula política francesa, sendo capa nos principais e apavorados jornais (conservadores) do país: Le Monde e Le Figaro. Para piorar – e explicitar o simbolismo da situação –, o candidato a presidente do campo mais “progressista” do pleito francês, Emmanuel Macron, se referiu à desprezada colônia como sendo uma “ilha”, ao criticar (sem nada propor) as paralisações que vêm afetando esse país de dimensões não muito menores de que a própria França (cerca de um quinto do território).

Um povo “quase” irmão

Há algumas décadas, uma aberração era prática comum na sociedade brasileira: que famílias abastadas (ou mesmo de classe média, dada a disparidade social) “adotassem” adolescentes pobres, geralmente mulheres de ascendência afro-indígena, ditas assim “filhas de criação”, as quais, apesar do discurso de serem “da família”, eram na prática semiescravas, executando as tarefas domésticas da casa sem receber nenhuma remuneração – em troca apenas da sobrevivência (cama e comida) para seguirem sendo exploradas. Tal imagem infeliz ilustra a história da Guiana Caiena e de seu povo “quase francês”, “quase da família”: uma nação violentada mediante a extrema exploração de seus recursos minerais (ouro e outros minérios, biodiversidade amazônica, etc); sede segura (leia-se longínqua) de um dos mais desumanos campos de concentração de degredados penais da história (e que funcionou mesmo após a barbárie da Segunda Guerra); território favorável (sempre distante)para a perigosa e poluente atividade de lançamento de foguetes (com seu lixo espacial tóxico que por vezes despenca sobre a floresta ou cidades da região, caso da maranhense Anapurus, em 2012).

E assim caminhava a história da Guiana Caiena, uma das últimas colônias do mundo (ao menos no sentido estrito ou formal do termo), uma nação incompleta que sobrevive hoje mendicante, através dos restos que a miliardária metrópole lhe repassa – após anualmente lhe sugar quase toda a riqueza. Assim era, até ontem, quando uma greve pontual de setor chave (eletricitários) se alastrou e se tornou não apenas uma paralisação geral por melhores condições de vida, mas um ato carregado de sentimento nacional nas entrelinhas.

Reivindicações

A fotografia que o jornal centrista Liberation escolheu para sua matéria, é bastante eloquente: são vários homens encapuzados vestidos de preto, pertencentes ao autodenominado coletivo “500 Irmãos” (referência bíblica), que de braços cruzados olham para a câmera. Trata-se de um grupo – cujos propósitos e tendências ainda são algo nebulosos – que se propõe a combater a violência, que aumentou exponencialmente nos últimos tempos. É um grupo que “catalisou as frustrações” gerais – resume um cidadão guianense. São os “zapatistas” do local, infere um tanto apressada – e displicentemente – a jornalista, diante dos mascarados.

PUBLICIDADE
,
PUBLICIDADE

Guiana-CaienaGrupo ativista Coletivo de 500 Irmãos protesta em Caiena (reprodução AFP)

Na mobilização, marcham lado a lado esse coletivo (que recusa e pecha de “milícia” e se declara “desarmado”), e a central sindical majoritária (União dos Trabalhadores Guianenses) – sendo apoiados por ampla parte da população de 250 mil habitantes deste “departamento esquecido” por Paris, em um protesto que relaciona a crescente delinquência, com a pauperização acelerada da população (enorme taxa de desemprego, serviços de saúde e educação depauperados, favelização acentuada, falta de apoio ao trabalhador rural e aos povos indígenas, etc).

No dia seguinte ao início da greve geral (começada em 27 de março), houve uma mobilização popular chamada pelo movimento Para que a Guiana Decole – com quase 20 mil pessoas presentes – segundo o portal Guyaweb (ou 15 mil, nos números sempre minimistas das autoridades). Tal surpreendente cifra – já histórica – representa pouco menos de 10% da população tomando as ruas, em manifestações especialmente na capital Caiena e em São Lourenço do Maroní, segunda cidade do país. A avenida principal de Caiena estava tomada por uma multidão; bandeiras vermelhas sindicais e socialistas se misturavam com faixas que traziam palavras de ordem no idioma local (o crioulo guianense): “Nou bon ké sa!” (“Basta”!). Grupos independentistas, que vem retomando voz nos últimos anos, também marcaram forte presença, como o Komité Drapo (Comitê Bandeira), cuja mensagem dizia: “Pare a colonização: Guiana livre!”.

Segundo a estatal Radio France International, uma em cada quatro famílias guianenses vive abaixo da linha de miséria, enquanto a taxa de desempregados chega a 22% (em contraste com os 9,7% da França).

Trata-se da “maior manifestação jamais organizada” na Guiana – afirmaram autoridades regionais, entrevistadas pelo direitista Le Monde. Segundo o deputado local Gabriel Serville, desde 2012, em meio ao redemoinho da crise econômica mundial (“socializada” pelos EUA com o mundo), a economia, a saúde e a educação não param de se deteriorar, mas “Paris tem dificuldades de compreender essa nossa realidade”.

Segundo o jornal corporativo francês, o problema social atinge as seguintes cifras:

– 15 mil famílias (aproximadamente 60 mil pessoas, ou 25% da população) na lista de espera por habitações populares;

– 40% dos estudantes abandonam a escola;

– quase 50% dos jovens de até 25 anos estão desempregados;

– a percentagem de médicos por habitante é menor de que a metade da taxa da metrópole;

– além de ser o “departamento francês” com maior taxa de assassinatos, e mais de 13 vezes mais assaltos a mão armada que seus dominadores.

o problema da insegurança e violência em níveis insuportáveis é resultado de uma “situação colonial” de séculos na qual “não cabe o desenvolvimento, a educação”

O portal do Novo Partido Anticapitalista francês (NPA) entrevistou o líder independentista Fabien Canavy, do Movimento pela Descolonização e Emancipação Social (MDES), partido socialista independentista guianense. Conforme o militante, o problema da insegurança e violência em níveis insuportáveis é resultado de uma “situação colonial” de séculos na qual “não cabe o desenvolvimento, a educação”. Essa “situação desastrosa” acabou por conduzir o país ao “desemprego em massa” e a todo tipo de “desvios” que isso acarreta: “tráfico, alcoolismo, suicídios de nativos”. Na Guiana, há “ao menos seis nações autóctones”, fora as comunidades quilombolas – povos que sofrem sistematicamente com a “negação de sua cultura”. O movimento Para que a Guiana Decole é uma “federação de coletivos que tenta organizar diferentes reivindicações”, vindas dos sindicatos de professores, associações estudantis e de cidadãos, comunidades indígenas. Segundo o NPA, há décadas o estado francês vem “desprezando” a Guiana, a ponto de hoje a pobreza atingir “mais de 60%” da população.

Diante da iminência de uma rebelião geral – e possivelmente da perda definitiva de controle sobre sua colônia de exploração –, uma comissão do governo francês foi às pressas à Caiena, com as seguintes propostas: o envio de míseros 40 milhões de euros para o país (inteiro) remediar seu caos sanitário – com o agravante de que a Guiana vem sendo duramente atingida pela dengue e o zika; e quanto à segurança, o deslocamento de mais policiais da metrópole à região (espécie de saída aos moldes das sanguinárias “Unidades de Polícia Pacificadora” cariocas).

Com relação às demais demandas – educação, transportes públicos (quase inexistentes, num país que rasteja de vans), auxílio à agricultura familiar, questão energética, proteção às populações autóctones e ao crescentemente agredido meio-ambiente, e renegociação da pilhagem metropolitana de recursos naturais –, estas pautas continuam até agora tomadas como menores pelas autoridades de segundo escalão mandadas à Caiena por seu relapso tirano estrangeiro de plantão, François Hollande.

Ao fechamento desta matéria, nova comitiva colonial havia sido enviada à Guiana com o propósito de “responder a todas as preocupações manifestadas”, porém, com a ameaça velada de que o diálogo se mantenha “dentro do respeito escrupuloso aos valores republicanos”. Resta entender o que a anacrônica metrópole (ainda tão napoleônica)entende por “escrúpulos”, “valores”, ou por um legítimo regime “republicano” que se adéque a essa nação espoliada.

Artigos Relacionados

Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo
ANÁLISE novas táticas do capitalismo em tempos de crise estrutural. Da guerra de baixa...
Quatar: o não-alinhado da vez na mira dos senhores da guerra Quatar: o não-alinhado da vez na mira dos senhores da guerra
ORIENTE MÉDIO Ameaças da tirania saudita pró-EUA prenuncia nova catástrofe na região....
A Coreia Popular e o eurocentrismo racista da modernidade A Coreia Popular e o eurocentrismo racista da modernidade
COREIA DO NORTE O que se quer colocar aqui como reflexão é tanto a forma como a mídia global...

Leia mais
×

×
CORREIO CAROS AMIGOS
powered by moosend