Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

Yuri Martins Fontes
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Da guerra de baixa intensidade aos golpes de novo tipo

Por Yuri Martins Fontes

A partir do final dos anos 1960, quando os imensos lucros que aqueceram o capitalismo por duas décadas (advindos da destruição promovida pela II Guerra) começam a dar sinais de arrefecimento, o tão louvado “Estado do bem-estar social” inicia sua queda – e daí o motivo central das manifestações que chacoalhariam o mundo já em 1968. Desde então, a opção por reformas sociais seria paulatinamente riscada do leque de discursos pretensamente “éticos” ou de “humanização” do capitalismo, com que as mentes patronais tentaram por algum tempo convencer ao mundo – e a si mesmas e a seus filhos – de que a mesquinhez de suas práticas não era assim tão degenerada, e que em se “trabalhando firme” (o outro trabalhando firme, obviamente) se vence qualquer “crise”.

Crise estrutural do capitalismo

A crise que então apenas principiava, contudo, se mostraria não mais meramente “cíclica”, mas “estrutural”, e isto segundo um aspecto “interno” e outro “externo” – ainda que não se possa deixar de atentar à inter-relação de ambos os fatores.

Do lado “interno”, ocorre que com a automação exponencial dos processos fabris (em especial nas últimas décadas do século XX), o trabalhador assalariado passaria a ser cada vez menos requerido pelo sistema produtivo, levando o capitalismo a um paradoxo, ou seja: no processo concorrencial, o capitalista tende a diminuir seus postos de emprego, o que, todavia, leva a que ele logicamente tenha menos gente a ser explorada (menos trabalhadores para produzir “valor”, o qual constituirá seu lucro). Este fato pode ser facilmente percebido, desde o ângulo mais concreto da dinâmica social, pois é patente que, na medida em que populações imensas são marginalizadas, o capitalista perde público capaz de comprar suas mercadorias, situação que por conseguinte leva à queda da taxa de lucro (“tendência” aliás já aventada por Marx, há um século e meio).

Do lado “externo”, contribui à crise estrutural, a face econômica do problema socioambiental – parte do desequilíbrio gritante do metabolismo entre o homem e a natureza, ou seja: o rápido esgotamento dos recursos materiais necessários à produção, cujos aspectos mais visíveis são a escassez energética e das próprias matérias-primas usadas na confecção de produtos (com o agravante do desperdício irracional da obsolescência programada), além da diminuta oferta de água que se aproxima de seu limite (problema tanto para a produção, como para a própria sobrevivência), e do avanço das fronteiras capitalistas (tática que adia a queda do lucro, mas que atinge assim as últimas terras agrícolas e florestas, acirrando o problema climático e as lutas de classes à medida que piora o martírio da fome no mundo “moderno”, denotando o fracasso talvez mais “fundamental” dessa tão propagada ilusão que é o atual modelo “progresso”).

Guerra de baixa intensidade

Com o início deste cenário de crise, os Estados Unidos passariam a intensificar a promoção de guerras pelo mundo (e assim a “destruição criadora”, de acordo com a lógica capitalista voltada não à utilidade dos produtos, mas a seu preço) – conflitos naturalmente centrados em nações não-alinhadas ou opositoras, segundo a perspectiva da Guerra Fria.

Segundo variados pesquisadores, dentre os quais Francisco Pineda (“¿Qué es la guerra de baja intensidad?”), o conflito de “baixa intensidade” – embate prolongado visando o desgaste gradual do inimigo – ganha protagonismo na derrota estadunidense contra o Vietnã entre os anos 1960 e 1970 (embora caiba notar que o embargo contra Cuba já fora um simbólico início desta prática, desde 1960). A este evento histórico se seguiriam uma série de levantes populares triunfantes em várias nações da periferia do capitalismo, casos de: Laos, Camboja, Moçambique, Angola, Etiópia, Iêmem (do Sul), Granada e Nicarágua.

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Em 1981, com Ronald Reagan na presidência, os EUA se dedicariam decididamente aos embates periféricos, passando a aplicar esse novo modelo de conflito contra insurgências anticoloniais, bem como em “operações de manutenção da paz” (ou sem eufemismos, manutenção de governos sob o jugo do Ocidente capitalista). Sua função essencial é a de minar o máximo possível as possibilidades de reformas e a aprovação popular de um governo revolucionário ou mesmo daquele que simplesmente se oponha em alguma medida aos desígnios da política imperialista (caso dos reformistas do século XXI dos quais aqui trataremos).

Essa doutrina tem lugar quando a “guerra convencional” – a ação militar aberta – não pode ser praticada convenientemente, seja por motivo de grande aprovação popular de um determinado governo, seja pelo desgaste que uma intervenção armada possa causar na chamada “opinião pública internacional” (note-se que o conceito de “opinião pública” é restrito quase sempre à “opinião” europeia de classe média, em geral os autodeclarados “humanistas” ou “democratas” dedicados ao que consideram “direitos humanos”). É aí que entra a sutil tática da “baixa intensidade”, que passaria a ser o modus operandi essencial da OTAN, a partir da derrota da União Soviética.

Na análise do quebequense Jules Dufour (vide Mondialization), geógrafo e presidente da Associação Canadense para as Nações Unidas, no fim do século XX, os membros da OTAN foram os principais semeadores do terror pelo Planeta, diretamente ou por procuração, em uma constante e cuidadosa defesa de seus interesses geoestratégicos e comerciais. Assim, a guerra de baixa intensidade viria a tomar o protagonismo geopolítico, com suas ações mais lentas de “decomposição institucional e social”, ocupando o lugar das guerras entre Estados que passam a um segundo plano. Em sua atualização para o século XXI, para satisfazer os escrúpulos cada vez maiores da “opinião pública”, a OTAN passaria a tomar algumas precauções, de modo que, segundo o professor, a construção e massiva difusão da imagem do país “alvo” como se tratando de um “Estado vilão” viria a ser o cerne e princípio de cada intervenção.

Tal método pode ser assim resumidamente descrito, segundo suas características mais usuais e intensidade:

i) dimensão golpista inicial (econômico-cultural e legal interna): ação inicialmente sociopsicológica, a partir de intensa campanha reacionária da mídia corporativa tradicionalmente aliada a interesses externos, seguida de pontuais agressões econômicas (sanções, sonegações de produtos, paralisações patronais), em que se reitera (e assim, aprofunda) cotidianamente a condição de “crise socioeconômica” do país, justificando à opinião pública interna as ações de perseguição e golpe institucional (legitimadas pelos poderes estruturalmente corruptos parlamentar e judiciário); neste processo, se destaca a ênfase publicitária dada às “atitudes desumanas” e “antidemocráticas” do governo reformista (que reage), o que se dá com o apoio dos chamados “think tanks”, organizações multinacionais que patrocinam a difusão de ideologias neoliberais e fascistas, frequentemente por meio de grupos de jovens lideranças populistas conservadoras (veja-se o caso do Instituto Millenium, ou do arrivista capo do “Movimento Brasil Livre”, “jornalista” da Folha de S.P.); tal prática de intensidade ainda leve é a que vem ocorrendo no Brasil, com seu “golpe-de-novo-tipo” (de que nos fala o professor Paulo Arantes, em entrevista à Revista Mouro, 2017), viabilizado em uma conjuntura de crise econômica mundial, mediante acusações de “corrupção” eleitoral (em última instância referentes ao incontornável caixa-dois, sem o qual não se chega ao poder no capitalismo), um novo modelo de golpe “ativo” ou mesmo “preventivo” também presente na Argentina, Peru, Honduras, Paraguai e em tantos outros países da América cujos governantes centro-reformistas, com o agravamento da crise, passariam a ser perseguidos midiática, parlamentar e judicialmente pelas elites não dispostas a dividir os prejuízos sistêmicos com as populações marginalizadas;

ii) dimensão golpista intensificada (inclui a esfera geopolítica e, discretamente, a militar): acusações de que o país oponente não respeita os direitos humanos, ou que cometeu “crimes de guerra” ou mesmo “contra a humanidade”, com consequente apoio à composição (muitas vezes no estrangeiro) de governos ou lideranças paralelos (alinhados e reconhecidos formalmente como legítimos), e pressão para a aprovação em instâncias como a ONU, e em caso da impossibilidade (por veto), da própria OTAN, de sanções amplas ou autorizações de embargos econômicos desestabilizadores, e de ações militares iniciais (criação de zonas de exclusividade aérea, bombardeios – sem corpo a corpo – por drones, apoio logístico e de inteligência a atentados e violência civil, etc.); é o que se vê atualmente acontecer na Venezuela, por exemplo;

iii) dimensão de intervenção externa suavizada (em que mais abertamente atua a esfera militar): políticas de patrocínio para a organização e o armamento das oposições ao governo inimigo, com apoio, caso seja necessário e possível, de ataques militares pontuais que facilitem a ação de seus mercenários (caso do apoio estadunidense aos Talibãs contra a URSS, ou ao Estado Islâmico contra a Síria, ou mesmo de várias das revoltas “alinhadas” ao Império e por ele promovidas, que foram sofisticamente incluídas nas chamadas “primaveras árabes”, caso da Líbia).

Com a recente prisão do nacionalista Ollanta Humala no Peru, a perseguição policialesca que vem sofrendo Cristina Kirchner, e a condenação sem provas de Lula pelo juiz tucano de baixa instância – após anos de intensa campanha midiática e de uma espetacularização sem-vergonha do nosso desavergonhado “judiciário” nacional (e isto apesar das tão tênues reformas levadas a cabo pelo lulismo) –, o modelo de guerra de baixa intensidade na América Latina ganha visibilidade e contornos particulares, que diferem daqueles em geral usados contra nações africanas ou asiáticas, nas quais os conflitos étnicos e religiosos são mais facilmente aproveitáveis pelo imperialismo.

No próximo artigo veremos como desde o intento de golpe contra Chaves em 2002, a América Latina, com seus governos reformistas neodesenvolvimentistas, que afloraram no início do século, após a “década perdida” neoliberal, vem sofrendo sistematicamente com a guerra de baixa intensidade – aqui normalmente sob o adorno “democrático” que com criatividade formatou essa aberração legal dita “golpe-de-novo-tipo” –, o que se agravaria em 2008, quando vem à tona, para quem queira ver, a crise exposta do capitalismo.

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