Quatar: o não-alinhado da vez na mira dos senhores da guerra

Yuri Martins Fontes
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Quatar: o não-alinhado da vez na mira dos senhores da guerra

Por Yuri Martins Fontes

No início deste mês de junho, o Quatar teve suas relações diplomáticas cindidas com uma série de países vizinhos – sócios facilitadores dos Estados Unidos na região. Liderados pela potência regional saudita, o gesto isolou a pequena e rica península do Golfo Pérsico, tanto por mar, como por terra e ar.

A Arábia Saudita, uma das maiores aliadas da “democracia” estadunidense no Oriente Médio, é uma tirania absolutista, corrupta, com práticas explícitas de segregação (mulheres, homossexuais, oposições), além de nos últimos anos estar cada vez mais a demonstrar sua violência expansionista na Península Árabe. Recentemente os sauditas compraram 110 bilhões de dólares (350 bilhões de reais) em armas dos amigos ianques, e segundo indícios (inclusive declarações de analista saudita à agência de notícias e televisão Russia Today), estão ainda em vias de se armar nuclearmente, com a ajuda do Paquistão e o silêncio dos EUA – dado que alegam a necessidade de fazer frente ao Irã. Inclusive foi esse o argumento utilizado para o rompimento com o governo de Doha: de que o país teria insinuado um interesse em normalizar relações com o Irã, este tão temível opositor – também na mira da aliança saudita-ocidental.

À Arábia Saudita se seguiu o Egito (país de recém-abortada “primavera árabe” que após idas e vindas manteve uma linhagem militar pró-Ocidente no governo); o Iêmem (governo frágil em guerra civil, atualmente invadido pela Arábia); a Líbia (antiga potência africana arruinada pelos interesses petrolíferos da coalizão ocidental há alguns anos, e cujo atual governo fantoche pró-ocidente mal consegue dominar um terço do dividido país); e os pequeninos – mas votantes – Reino do Barein (monarquia submissa aos sauditas, grande vizinho que lhe ajudou a esmagar a revolta popular por liberdades civis do início dessa década), e ilhas Maldivas (cujo atual presidente tomou o poder por meio de um golpe militar há cinco anos, sendo reconhecido no poder pelos EUA apenas dois dias após o ocorrido). Posteriormente outros países com interesses não menos escusos aderiram ao bloqueio diplomático.

Como se vê, trata-se de uma união de nações do lado do “bem”, direta ou indiretamente alinhadas ao ocidente, “preocupadas” com a situação dos “direitos humanos” e do “terrorismo” na monarquia quatariana – que detém grande reserva de petróleo e, mais ainda, de gás natural.

Apesar de os EUA manterem no Quatar uma importante base aérea, centro geoestratégico para suas aventuras militares em prol do controle energético da região, esta pequena monarquia tradicionalmente sempre se colocou em uma posição ambígua

Apesar de os EUA manterem no Quatar uma importante base aérea, centro geoestratégico para suas aventuras militares em prol do controle energético da região, esta pequena monarquia tradicionalmente sempre se colocou em uma posição ambígua, por assim dizer entre o não-alinhado e o quase-alinhado. Em 2010 o Wikileaks divulgou documento expondo que os EUA designavam o Quatar como o “pior da região” em matéria de apoio a grupos opositores ao Ocidente. Um outro dado interessante é que a nação colabora na suposta luta contra o Estado Islâmico – contudo, os EUA, apesar do que vende suas agências de notícias, em seu afã por destruir seu grande inimigo regional (a Síria), vêm fazendo exatamente o oposto: apoiando o EI.

Dentre as acusações principais que a coalizão comandada pela Arábia alega como motivos contra o Quatar, está a de que a família real do país apoia grupos opositores – os chamados por Trump e os seus de “terroristas” –, ou seja: organizações que resistem às investidas das potências ocidentais e de Israel contra diversos povos do Oriente-Médio. É o caso do: Hamas (resistência palestina sunita que se opõe aos sistemáticos massacres sionistas), a Irmandade Muçulmana (também sunita, que ganhou o governo no Egito democraticamente em 2013 e foi deposta por golpe pró-EUA na sua frustrada “Primavera” – tendo também boa presença na Líbia), e os talibãs (sunitas organizados e treinados pelos EUA para atacar a União Soviética).

Outro aspecto central deste rompimento que já se prenuncia como um conflito armado, é a “guerra midiática”, que a imprensa corporativa ocidental vem sofrendo há uns anos, o que ameaça seu monopólio informativo, no qual sempre se sentiu tão à vontade para vender sua barbárie em nome de “deuses e da democracia”, adornada por coloridos e tendenciosos “recortes jornalísticos” – como os que construíram a imagem “plácida” e “incontornável” do neoliberalismo que hoje ameaça a humanidade com as crises estruturais do emprego e socioambiental. Neste embate – além da audaciosa mídia russa (Sputnik News, RT), e mesmo dos chineses (mais moderados) – se destaca especialmente o jornal, televisão e agência internacional quatariana Al Jazeera (“A Península”), a maior organização midiática das Arábias, e uma das maiores do mundo, com edições também em inglês, além de turco e sérvio. Inspirados no modelo da BBC inglesa, a Al Jazeera foi criada em 1996 – e hoje tem escritórios em cerca de 80 países, com transmissão ao vivo e produções próprias em vários idiomas.

O ódio à emissora ganhou contornos insuportáveis quando, durante a chamada “Primavera Árabe” – nome que alberga um confuso e contraditório processo de insurreições (legítimas) e de contra-insurreições (promovidas pelo Ocidente no bojo do caos geral, nos locais onde tiveram força e interesse em agir); durante os enfrentamentos gerais, a Al Jazeera apoiou os grupos insurretos contrários aos interesses da aliança saudita-ocidental.

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Finalmente, as causas que parecem levar o Oriente Médio a uma nova guerra – providencial para que os EUA e Europa Ocidental renovem seus estoques de armamentos e assim aqueçam sua economia capitalista em crise – passam pelo suposto apoio do Quatar aos insurgentes houthis no Iêmem, contra quem a tirania saudita, aliada ao governo iemenita deposto de Abd Mansur Hadi, está em guerra. Também neste caso as posições “libertárias” da Arábia soam muito contraditórias, a ponto de o próprio Hadi ter acusado os Emirados Árabes (aliados da coalizão saudita) de estarem se portando mais como “invasores”, que como “libertadores”.

Assim, o episódio com o Irã foi só a cereja do bolo. De fato, para o Quatar não é nada interessante criar um desafeto com a nação persa (com quem compartilha imensa reserva de gás) – desejo que se choca com o da ambição saudita de isolar Teerã, dada sua disputa pelo comando regional desta parcela do continente asiático.

Como proposta para normalizar as relações, os promotores do embargo impuseram ao país 13 condições, que incluem até mesmo alguns pontos humilhantes, que afetam sua soberania territorial e sua economia por 10 anos (o que lembra, dentre tantos, o “acordo de paz” de Versalhes com que os vencedores da Primeira Guerra afundaram ainda mais a Alemanha, situação que levaria à Segunda Guerra). Dentre as exigências estão: o fechamento da rede Al Jazeera, a ruptura diplomática com o Irã, o pagamento de “multas”, a permissão para ter seu território “auditorado” regularmente, e ainda o desmantelamento da base militar turca na península.

Este último ponto, colocou a demandante Arábia, e a afetada Turquia (potência que disputa com os sauditas o protagonismo no Meio Oriente) em um cenário de quase-rompimento, que analistas têm visto como o início de uma dura Guerra Fria na região.

E mais que “fria”, a guerra tende mesmo a esquentar. Enquanto o Quatar diz que as “condições” são impraticáveis, protela e busca negociar (até agora tendo seus mercados abastecidos pelo Irã e Turquia), a coalizão saudita diz que não há conversa, e em tom de ameaça dá 10 dias (até começo de julho) para que o país se submeta.

O governo de Doha, que ao que parece talvez já suspeitasse e tivesse se preparado a esse boicote, declarou através de seu ministro de Relações Exteriores que o país “não fará nenhuma concessão”, e que “pode se manter bem” com o embargo – ao menos enquanto respaldado pelas forças de Irã e Turquia. Em especial o apoio deste último – membro poderoso da OTAN e com base militar no Quatar –, deve apaziguar por ora os ânimos bélicos mais exaltados.

Por outro lado, as escassas forças armadas quatarianas certamente consideram que a base militar turca em seu território pode lhe ser de muito maior valor “defensivo”, de que a base estadunidense – frente às ambições de seu grande vizinho –, tanto pelo fato da proximidade histórica entre o império do “In god we trust” e a monarquia absolutista (agora inimiga declarada), como pelas vicissitudes do bélico humor ianque com relação aos muçulmanos.

Deste modo, o Quatar segue jogando o tradicional “jogo duplo” das diplomacias capitalistas mais frágeis (ou com menos capacidade de decisões próprias): não rompe com os EUA (de quem está em vias de comprar armas, à semelhança dos sauditas); não rompe com o Irã (parceiro no negócio do gás), e se ampara na Turquia, uma das maiores forças militares da OTAN (embora um tanto afastada diplomaticamente dos EUA e UE). E com isso, o Quatar tem ainda uma tendência a se aproximar da Rússia – assim como a Turquia parece dar mostras de querer fazer.

Neste cenário (apesar da alegria do Trump, num primeiro momento, quando soube do embargo), pode acabar ocorrendo um tiro pela culatra, ou seja: o fortalecimento de uma nova aliança entre potências periféricas (contra a aliança imperialista central EUA-UE) – formada por Rússia, Turquia, Irã, China e outros –, a substituir ou ampliar os BRICS (decaídos desde que o Brasil foi conquistado por uma república empresarial de bananas).

No meio do tiroteio, o Quatar continua usando seus petrodólares para chegar de leve à populações cada vez mais amplas, disputando culturalmente sua ideia de mundo e de islamismo, tanto nas Arábias, como fora delas (através da Al Jazeera), enquanto os sauditas são conhecidos cada vez mais pela ambição militar.

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