O que aconteceu com a gente?!

Max Maciel
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O que aconteceu com a gente?!

Por Max Maciel

Recentemente me perguntaram como me sinto ao atuar com a juventude. De cara, a resposta vem sempre risonha e direta: me sinto jovem.

Mas, ao olhar de fato o que sinto, percebo que para além de me sentir jovem eu tento fazer de tudo para que eles não sintam, passem e sofram com o que de mais perverso há na sociedade. Isso faz com que eles e elas percam a esperança em si mesmos.

Sempre vivi do outro lado da rua. Eu via as mortes, os amigos presos, aqueles saindo da escola ou perdendo seus sonhos na procura de subempregos e por aí vai. Eu assistia a tudo e não entendia porque aquilo era algo tão comum na quebrada. 

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O que nos impede de nos unir?

Muita gente pensa que é fácil vencer na periferia. “É só querer” dizem uns. Outros afirmam que “não fez por merecer”. Mas a real é uma: querer não basta em um ambiente onde é proibido sonhar. E não, não é fácil morar na quebrada. Passar dos 30 anos deveria ser questão de festa, porque é muito foda ter de se esquivar, quase que diariamente, das tretas e dos desafios que nos colocam.

"Mas o que está acontecendo com a gente? Falo da geração da década de 70 e 80 que vivenciou momentos muito cabulosos. Como é que hoje se anulam de se somarem às ruas para mudar? O que aconteceu que de sofrer preconceito passamos a ser preconceituosos? De solidários passamos a ser intolerantes?"

Mas o que está acontecendo com a gente? Falo da geração da década de 70 e 80 que vivenciou momentos muito cabulosos. Como é que hoje se anulam de se somarem às ruas para mudar? O que aconteceu que de sofrer preconceito passamos a ser preconceituosos? De solidários passamos a ser intolerantes?

Como me sinto? Eu me sinto o personagem do filme italiano A Vida É Bela. Já assistiu? Não? Então veja! Já! Então sabe que é pesado o que estou falando. 

Fico dias e horas tentando criar uma misancene* para que a juventude não caia ainda mais na areia movediça da ansiedade. Que eles e elas não escutem os desestímulos, que elas possam, sim, sonhar com uma vida mais leve e bela. Sei que não é saudável, mas a realidade é complicada demais para ser compreendida. Por isso, sonhar que é possível ser quem eles querem. Focarem em algo que dê prestígio, poder e reconhecimento social sem ser o crime. 

O que aconteceu foi que eles viraram os adultos que negamos no passado...

*Misancene: Jogo de cena, jogo para a platéia, representar falsamente uma situação.


 

Max Maciel, jovem periférico nascido e criado em Ceilândia, maior periferia do Distrito Federal, é ativista social, pedagogo de formação e especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade de Brasília (UnB).

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