Brexit e English Premier League: o que o magnata faz?

Irlan Simões
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Brexit e English Premier League: o que o magnata faz?

Por Irlan Simões

Na última semana, um repórter do Esporte Interativo ganhou a missão de avaliar o efeito do Brexit na English Premier League (EPL) - a liga inglesa de futebol masculino profissional, que é a mais rica do mundo -, e resumiu toda a missa em três pontos: a maior dificuldade de tirar visto de trabalho para os jogadores europeus, agora “extra-comunitários”; a aplicação da regra do "mínimo de jogos pela seleção" para qualquer jogador, que só era aplicada para não europeus; e o limite de idade de 18 anos para a contratação de estrangeiros, agora que europeus também serão "estrangeiros".

O recorte escolhido repete o que foi feito numa imensa quantidade de meios de imprensa esportiva que trataram do assunto antes mesmo da realização da votação pela saída do Reino Unido da Europa. Com a assinatura da carta que concretiza o Brexit, pela primeira-ministra Theresa May, o debate voltou à tona, uma vez que os seus impactos começarão a se concretizar.

A questão é que esses problemas todos podem ser resolvidos pela própria liga, que evidentemente mudará suas regras para não prejudicar os clubes locais. Esses novos impedimentos, que teoricamente enfraqueceriam os clubes da liga mais rica do mundo, provavelmente serão contornados da mesma forma que outros já foram superados historicamente.

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Clubes de futebol sempre acharam meios para burlar as regras. Quando apenas amadores eram autorizados a jogar futebol, os dirigentes empregavam os melhores jogadores em cargos bem pagos e pouco trabalhosos nas suas próprias empresas. Quando os clubes eram proibidos de assinar com jovens jogadores, passaram a dar empregos para toda a sua família, de preferência nas proximidades dos centros de treinamento. Quando eles não podiam trazer jogadores desconhecidos de países de fora da União Europeia, eles assinavam e emprestavam esses jogadores para clubes de países com programas de cidadania menos rígidos e mais céleres.

Até onde foi possível acessar no vasto mundo da internet, foi feita pouca ponderação sobre o efeito do Brexit no fator primordial de toda essa magnitude financeira do futebol inglês: os investidores bilionários.

Pesquisadores como Peter Kennedy e David Kennedy, autores de Football in Neo-Liberal Times, já definiram a EPL como uma "economia política do prejuízo (dívida)", uma vez que não há qualquer sustentação econômica para os investimentos protagonizados por figuras como Roman Abramovich e o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, que acumulam temporadas com débitos bilionários.

"São raríssimos os casos de clubes das grandes ligas européias (com exceção da Alemanha) que encerram alguma temporada com balanço financeiro positivo. E isso é muito mais acentuado no caso da liga inglesa, onde quase a totalidade dos clubes da primeira e segunda divisão está sob a propriedade de investidores estrangeiros"

São raríssimos os casos de clubes das grandes ligas européias (com exceção da Alemanha) que encerram alguma temporada com balanço financeiro positivo. E isso é muito mais acentuado no caso da liga inglesa, onde quase a totalidade dos clubes da primeira e segunda divisão está sob a propriedade de investidores estrangeiros.

Essa atração estrangeira se deu por uma série de motivos, mas em especial porque nos anos 1990 os clubes começaram a se abrir para grandes investidores. O fortalecimento da liga a partir desses novos aportes financeiros – boa parte deles tornando o clube num ativo a mais da carta de investimentos de grandes traders internacionais – elevou a EPL ao topo da indústria do esporte em escala global.

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Com mais dinheiro, um número cada vez maior de grandes craques chegava aos clubes ingleses, levando ao crescimento dos valores conquistados com a renovação dos contratos de direitos televisivos. O futebol inglês era o que mais movimentava dinheiro, mas também o que mais gastava em novas instalações e contratações.

Com o nível de competitividade criando verdadeiros abismos entre os “produtos internacionais” (clubes como Manchester United, Liverpool e Arsenal) e os médios e pequenos clubes, passou-se a adotar a única forma possível para reequilibrar as coisas: a venda quase completa para os magnatas forasteiros.

Esses novos interessados eram figuras que não tinham absolutamente nada a ver com o futebol, e muito menos se incomodavam em torrar boa parte de sua fortuna sem qualquer retorno. Como os próprios Peter e David Kennedy falam em seu livro: o futebol inglês pulou do “amor ao dinheiro” para a “economia política do débito”.

Dentre os 29 grandes investidores dos 20 clubes da primeira divisão inglesa, apenas 11 são de origem britânica. Dentre os 18 estrangeiros estão investidores de EUA, Rússia, China, Irã, Egito, Tailândia, Emirados Árabes, Suíça, Itália e Noruega. Na divisão de acesso ainda se encontram chineses, malaios, indianos e kuaitianos.

É possível dizer que o futebol inglês hoje é uma indústria fictícia do esporte, onde o pretenso sucesso comercial na realidade é um mar de dívidas, falências e falta de balanço competitivo.

É aí que vem a pergunta: por que investir tanto dinheiro em um negócio que não dá lucro?

Porque, até então, investir no futebol inglês era a porta de entrada mais rápida e mais “luxuosa” para que grandes investidores não-europeus se inserissem na potente economia do bloco econômico da União Europeia.

Em que pese o fato dessa modalidade ter se alastrado por outros países europeus – seja com a compra de clubes, seja com os investimentos bilionários em patrocínios e outros investimentos em estádios e centros de treinamento – não há qualquer comparação cabível ao nível do investimento feito na Inglaterra. Incluindo aí o fato dessa derrama de dinheiro sempre vir acompanhada de todo um trabalho da imagem do investidor (lembram de Eike Batista? Algo parecido).

Mas é exatamente nesse ponto que o Brexit pode atingir o futebol inglês: a porta mágica para o mercado europeu se fecharia, e deixaria de angariar notabilidade e poder midiático dos magnatas.

O fim da livre circulação de mercadorias e da força de trabalho pode impactar significativamente nos interesses desses megainvestidores. Ainda que isso não se possa apostar na retirada imediata dos seus principais investimentos (transportes, comunicação, energia, mercado imobiliário, apenas para citar os exemplos mais evidentes), é notável que o futebol da Inglaterra deixaria de ser necessariamente o melhor atalho para a entrada no mercado europeu.

O que vale observar é que o futebol inglês tende a se prejudicar numa ordem superior que a própria economia do Reino Unido, uma vez que acomodou sob uma estrutura de valores e gastos que não poderiam existir num ambiente de mercado real, com receitas balanceadas em premiações e honorários equilibrados.

Mais do que “dificuldade para contratar estrangeiros”, o futebol inglês deverá passar por uma fuga desses investimentos nonsense, se tornando incapaz de bancar salários astronômicos como tem feito até então. Apesar do grande volume de recursos oriundos da TV e de fontes comerciais (incluindo o mercado asiático), é muito provável que, em médio prazo, o futebol inglês sofra um processo semelhante ao ocorrido no futebol italiano, quando a crise e a falência dos proprietários dos grandes clubes geraram uma avalanche, levando à fuga de jogadores e enfraquecendo seriamente a liga local.

É difícil prever a capacidade que os clubes terão de se reinventar diante dessas mudanças, se é que se concretizarão os prognósticos aqui feitos. Mas não faltam exemplos que confirmem que o futebol hoje é uma bolha refém de qualquer menor alteração nas placas tectônicas da geopolítica cada vez mais complexa e instável dos tempos atuais.


 

Irlan Simões é jornalista, mestre em Comunicação (Uerj) e pesquisador do futebol.

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