Saques legitimados

Irlan Simões
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Saques legitimados

Por Irlan Simões

Já que estamos em um momento de grandes investigações de corrupção envolvendo as maiores empreiteiras do Brasil, gostaria de sugerir uma nova fase da Operação Lava Jato chamada: Maquiagem.

Seria uma operação focada na investigação de laudos e consultorias técnicas absolutamente fraudulentas realizadas para as novas arenas da Copa do Mundo. Foram estudos realizados por grandes multinacionais que arrecadam milhões promovendo "auditorias independentes".

Dois breves exemplos para vocês sentirem o tamanho do rombo "legitimado" por estudos de empresas julgadas especializadas em "sports and entertainment business".

A empresa KPMG foi contratada para realizar um "Estudo de Viabilidade Econômica" para a Arena Fonte Nova, de modo a estabelecer os critérios básicos para a elaboração dos contratos da Parceria Público-Privada (PPP) da Fonte Nova Participações (OAS e Odebrecht) com o Governo do Estado da Bahia.

"Como se sabe, a PPP estipula uma receita mínima para sua operação "saudável" e, segundo os contratos, caso esse valor não fosse atingido, o governo da Bahia seria responsável pelo deslocamento de recursos públicos para a garantia da “saúde” financeira da Arena"

Como se sabe, a PPP estipula uma receita mínima para sua operação "saudável" e, segundo os contratos, caso esse valor não fosse atingido, o governo da Bahia seria responsável pelo deslocamento de recursos públicos para a garantia da “saúde” financeira da Arena.

Pois bem, ainda em 2012, a KPMG lançou um documento sugerindo que o “piso” receitual da nova arena Fonte Nova deveria considerar a arrecadação de um público médio de 27.400 pagantes em jogos do Bahia e do Vitória.

Não bastasse esse número ser irreal para a realidade brasileira (o campeão brasileiro de 2014 teve média próxima disso), o estudo ainda desconsiderava que o Vitória não abandonaria o Barradão, seu estádio próprio, para atuar na nova arena.

O valor nunca foi atualizado e, ao longo dos últimos três anos, o governo do estado da Bahia repassou quantias enormes para complementar o orçamento da arena Fonte Nova. Imensas quantias deslocadas para o cumprimento de um contrato criado com base em informações absurdas aos olhos de qualquer observador menos especializado.

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Ninguém até hoje sugeriu uma “auditoria independente” sobre os estudos da KPMG para essa e outras possíveis arenas para a Copa do Mundo. Enquanto isso, a empresa realiza estudos sobre as arenas para a Rússia 2018 e Catar 2022.

Outra empresa que merecia maior atenção é a Ernst & Young. Ainda em 2016, uma investigação feita na Câmara dos Deputados de Minas Gerais, em plena crise de arrecadação do estado, apontou a omissão de quase R$100 milhões de lucro líquido da parte da Minas Arenas, consócio gestor da Arena Mineirão.

Esses recursos, camuflados em relatórios financeiros assinados pela Ernst & Young, caso fossem colocados de forma transparente, impediriam o repasse mensal de pelo menos R$3,7 milhões do governo do estado de Minas Gerais como “contraprestação complementar” (ou “parcela variável”), nos mesmos moldes que acontecia na Arena Fonte Nova. Vale lembrar: o Atlético-MG também não topou mandar seus jogos no Mineirão.

O caso foi parar na justiça e até os clubes locais partiram para cima. A concessionária se defendeu em longa nota justificando que a auditoria independente da PricewaterhouseCoopers atesta a lisura das contas da Arena. Mas que consultoria é essa?

Essas três empresas compõem o seleto clube de "consultorias especializadas" que promovem os estudos de aplicação das extremamente deficitárias novas arenas exigidas para competições da Fifa e da UEFA, desde 1998. Cumpriram o mesmo papel de “legitimação do desastre” na Copa Coréia/Japão de 2002; na Euro de Portugal em 2004; na Copa da Alemanha de 2006; na Euro Áustria/Suíça 2008; na Copa da África do Sul em 2010; e na Euro Polônia/Ucrânia 2012.

Mas nada disso é tão surpreendente para quem esteve sempre do lado “pessimista” durante todo esse tempo, enquanto os especialistas em gestão e marketing esportivo alegavam que as novas arenas eram o início do futuro do futebol brasileiro. No final de 2016, no entanto, esses mesmos especialistas se recusaram a se posicionar sobre a declaração feita pela Andrade Gutierrez, em depoimento dado após acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), sobre os verdadeiros balanços financeiros ainda no período em que ocorria o processo licitatório:

“Segundo informou a construtora ao órgão, à época da realização dos processos licitatórios, ‘seu entendimento foi o de que a exploração dos estádios de futebol após a Copa do Mundo, conforme está previsto no regime de PPP, não geraria lucros à empresa’. Ainda de acordo com a companhia, o prejuízo neste modelo de administração ocorreria devido ao ‘porte dos estádios construídos e/ou reformados para a Copa do Mundo’ e que as arenas ‘não atingiriam lotação suficiente para cobrir os gastos de manutenção e administração dos estádios e gerar lucros em momento posterior à Copa do Mundo, isto é, durante a realização de campeonatos regionais e/ou nacionais’”. 

São essas três empresas que se valerão agora, a partir da total falência do projeto de megaevento “Padrão Fifa”, a legitimar a construção de gigantescas praças desportivas ultra-modernas e custosas em países de governos seriamente autoritários. Afinal, as constantes recusas dos países (e das pressões populares contrárias) à realização dos megaeventos esportivos, tem criado sérios problemas para a Fifa e UEFA (bem como o COI e suas Olimpíadas).

Afinal, o show – do espólio e do saque – não pode parar.


 

♦ Irlan Simões é jornalista e pesquisador do futebol

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