A crítica que desagrada

Jean de Menezes
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A crítica que desagrada

Por  Jean Paulo Pereira de Menezes

O que é uma crítica desagradável?

Antes é necessário apresentar uma definição do que é a crítica. É verdade que existem várias definições e nenhuma delas é capaz de ser a única. Entretanto, apresentemos a que pensamos ser a mais sólida.

Crítica é a análise teórica, idealmente produzida, a partir do mundo concreto. É aquele pensamento construído a partir do mundo real que se eleva à caracterizações comprometidas com a verdade que se compreende sempre a partir do social e historicamente construído. Criticar é um ato histórico, pois não está relacionado a ações extra-humanas ou mesmo natural.

Compreender historicamente as relações sociais em determinado momento é necessariamente procurar entender as formas e substâncias das coisas criadas pelo homem diante da natureza. É também a tentativa de entendimento do movimento da natureza e seus fenômenos que não são realizações humanas.

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Criticar é estabelecer análises e caracterizações a partir da realidade mais concreta, da mais empírica até a mais abstrata. Isso quer dizer que a crítica é um movimento ideal que apenas os seres sociais são capazes de realizarem.  Provavelmente isso não agrada os adoradores de animais indefesos no mundo dos homens! Todavia é necessário ser crítico diante da escrita sobre a crítica. Um gatinho não faz crítica de nada. Um cachorrinho não é capaz de objetivar absolutamente nada no mundo dos homens. Cães e gatos são capazes de muitas coisas é verdade, mas a critica é algo desenvolvido por humanos e não meros animais (por mais fofos que estes sejam, pois a crítica não tem relação alguma com a fofura dos seres!).

Neste sentido, quando desenvolvemos a crítica, em relação à natureza e ao próprio homem, muitos (menos os cães e gatos!) acabam por se sentirem ofendidos, até mesmo atacados e se magoam. Poderiam dizer até mesmo que estariam diante de uma crítica destrutiva. Assim, abre-se espaço para a existência de outra crítica: a construtiva, em contraposição à destrutiva!

Não partilhamos desta classificação. Crítica construtiva está mais para eufemismo do que para o movimento teórico que parte do real na tentativa de compreendê-lo e superá-lo. Crítica nos sentidos construtivo e destrutivo é mais uma das formas fetichizadas de obstrução na elevação do pensamento que se esforça para compreender o mundo dos homens e da natureza em franca relação simbiótica. A crítica que nos interessa aqui é a que colocamos no segundo parágrafo deste artigo: criticar é estabelecer análises e caracterizações a partir da realidade mais concreta, da mais empírica até a mais abstrata. Ou ainda, como coloca Marx ao fazer a crítica à Filosofia Alemã em 1843:

A crítica que se ocupa desse conteúdo é a crítica num combate corpo a corpo, e nele não importa se o adversário é nobre, bem nascido, se é um adversário interessante, o que importa é atingi-lo. Trata-se de não conceder aos alemães um instante sequer de autoilusão e de resignação. É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior, acrescentando a ela a consciência da pressão, e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa, tornando-a pública (MARX, 2010, p. 148).

Agora passemos a questão do desagradável.

Desagradável é tudo aquilo ou coisa que não é capaz de produzir e reproduzir agrado ou prazer. Desagradar é uma ação indesejada para a maioria das pessoas e é entendível que assim o seja. Porém, o pensamento que acredita em um mundo plenamente agradável e prazeroso é também representação de uma parte da realidade social onde o real se coloca de forma fetichizada. O mundo não é plenamente agradável. Não se afirma com isso que seja o homem egoísta por natureza. Mas não se pode desconsiderar que desde a convencionada pré-história da humanidade o homem vem passando por drásticas privações e que é diante de sua capacidade de idear e objetivar (coisas que os caninos e felinos jamais foram capazes de fazerem na história de sua evolução[1]) diante de suas relações com a natureza que esse mesmo ser social vem cada vez mais submetendo a natureza aos seus interesses, benéficos ou não.

Ainda, neste sentido apresentado, a crítica que desagrada é aquela que ao buscar a análise e caracterização do mundo dos homens e se apresentar da forma mais certeira sobre determinada coisa ou ser é também aquela que provoca nos seres objeto da crítica a sensação de desconforto, de desprazer: o desagrado.

Nesta perspectiva, a crítica se torna sinônimo de ofensa, pois o ser criticado é desmascarado diante de suas relações mistificadas, coisificadas e estranhas a ele mesmo e a classe que pertence. O crítico (que também deve ser objeto da crítica que postula) é atacado como se tratasse de um ser desagradável e sua presença também se torna a manifestação do desagradável!

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Para exemplificarmos esta situação Karl Marx é um ser social que nos ajuda a pensar (mesmo em pleno século XXI). Em 1859 Karl havia publicado parte de seus estudos críticos sobre a sociedade capitalista, e, tratamos aqui de uma crítica no sentido que apresentamos ao nosso leitor. Todo movimento ideal de análise e caracterização da sociedade que Marx realizou não agradou em nada os círculos intelectuais de seu tempo (e do nosso também não), sobretudo daqueles que defendiam com unhas e dentes a sociedade burguesa no século XIX.

A resposta a critica de Marx foi o silêncio: era desagradável demais, até mesmo para ser objeto de outra crítica. De lá até o nosso tempo presente a crítica marxiana vem desagradando muita gente, uma classe inteira para ser mais abrangente!

Como funciona a sociedade? O que é a sociedade? O que é o salário? O que é o valor? Como se produz e reproduz valor?  Foram abordagens críticas de Marx que se apresentaram como muito desagradáveis: crítica que desagrada.

Mais uma ilustração da crítica que desagrada será valiosa para nossa intervenção textual.  Se utilizando de uma mera ilustração criaremos uma personagem (...) daremos o nome a ela de Elba Ramalho.

Elba gosta muito de estudar (...). É leitora dos mais diversos autores, da Rússia ao Chile... De Riazanov a Eduardo Galeano... Lê muito. Entretanto Elba possui responsabilidades, das mais diversas e imagináveis (...). Uma das responsabilidades de Elba é contribuir na luta contra a exploração do trabalho no Brasil e no mundo... Elba é uma ativista clássica!

Entretanto, em certo dia... Quando deveria cumprir com suas atribuições de ativista, resolve jogar tudo para o ar, pois Elba também gostava muito de música e resolve ir ao Show de um de seus artistas prediletos... Um evento imperdível... Inconteste, que se justificaria plenamente, pois jamais se repetiria em sua vida... Afinal... Um fato histórico não se repete duas vezes! (Nisso Elba estava coberta de razão!)

Bem... Está colocada a cena, a paisagem ilustrativa. Agora apresentaremos o comportamento desagradável: a crítica que desagrada. A título de hipótese trabalharemos diante de nosso crítico, também ilustrativo sobre o caso (...). A construção crítica desenvolveria uma série de problematizações sobre os entendimentos de Elba Ramalho em relação a diversas coisas, por exemplo: o que significa para Elba os estudos; a literatura; as relações sociais de Elba com as demais pessoas; o significado de ativismo que defendia; o conceito de compromisso; o entendimento de luta; de exploração do trabalho; de nacionalidade; de internacionalismo; de prazer; de importâncias, etc.

Certamente a crítica deveria se ocupar de muitas outras problematizações para captar a realidade mais concreta em que Elba existe. A partir disso a crítica poderia apontar para o fato de total descomprometimento (ao menos naquele momento da história, inegavelmente) com o seu ativismo, pois deixara seus amigos ativistas sozinhos em uma lógica de que os princípios deveriam ser solidamente cumpridos, não permitindo, jamais serem trocados por um momento de prazer.

Tocamos aqui em apenas uma característica da crítica que nosso personagem (o crítico) poderia chegar, e, assim mesmo, pensamos que seja o suficiente para que nossa personagem (Elba Ramalho) já se irrite, ou se sinta desrespeitada. Poderia até mesmo responder à crítica ou manter-se refugiada no pântano dos covardes através do silêncio. No primeiro caso, poderia a personagem estufar o peito e dizer: “isso é uma crítica destrutiva”!

"Uma crítica que não é crítica, mas a mais real manifestação da politicagem pessoal ou de classe, e, em uma perspectiva revolucionária, o posicionamento crítico deve ser reivindicado e não marginalizado"  
   

Estabelece-se aqui a reinvindicação do eufemismo na crítica. Entretanto, crítica é crítica e não há que ser melindroso ao apresentar os resultados do processo ideal que se faz a partir do concreto. O crítico deve se comportar assim e não tem o direito de se reservar algo diferente para sí mesmo. A crítica construtiva, “aquela que não é desagradável” é o velamento da realidade! Uma crítica que não é crítica, mas a mais real manifestação da politicagem pessoal ou de classe, e, em uma perspectiva revolucionária, o posicionamento crítico deve ser reivindicado e não marginalizado.

A crítica que nos referendamos não é uma exclusividade de Karl Marx, mas uma construção social que apenas os homens são capazes de realizar. Agrade isso ou não os cães e gatos e mesmo alguns humanos.

Com a palavra, os críticos construtivos.

REFERÊNCIA

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Introdução; 2. ed. Tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus. São Paulo: Boitempo, 2010.

[1] É verdade que alguns símios apresentam alguma capacidade teleológica, como um orangotango que arma uma rede para deitar; chimpanzés capazes de realizarem cálculos e ações complexas; mas ambos estão brutalmente distantes depré-idearem e objetivarem um grupo de escoteiros que seja ou uma associação internacional de símios, com representação rotativa eleita a cada dois anos.


 ♦ Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba. 

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