“Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro”

Jean de Menezes
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“Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro”

Por Jean Paulo Pereira de Menezes

Abelardo é um trabalhador atento ao mundo que vive. Participou do 15M na Paulista, contra a reforma da previdência e trabalhista. Esforça-se para conhecer e transformar as coisas que acredita. Trata-se de um personagem que podemos encontrar por toda América Latina. Deixo meu caro leitor com este homem de meia idade:

(...) Desde jovem, como muitos, conseguia ver que algo de errado funcionava como algo dado e certo. Após o nascimento de minha primeira filha, esse funcionamento tornou-se algo mais gritante em meus ouvidos. Passaram-se anos e os gemidos se colocavam mais próximos de meus ouvidos e olhos. Ainda assim, colocava-me como um agente em atividade e que visava o real funcionamento das coisas. Mas, diante do todo, ainda não passava de apenas um inconformado.

Foi assim que me dei conta de uma necessidade maior. Uma necessidade movida pela inutilidade de meu trabalho, pela ação extremamente superficial de minas ações. Agora, o que me preocupava não era a indignação com o funcionamentodas coisas, mas a minha insuficiência teórica para compreender concretamente o funcionamento distorcido delas. Desta forma, pude ser convencido de uma necessidade maior, e, assim sendo, fui ao encontro do entendimento, das ferramentas que poderiam contribuir para que fosse possível melhor entender a sociedade e suas relações. Cheguei ao ponto que minhas observações passadas ficaram inúteis para o presente, mesmo tendo cumprido a sua função para o pretérito de minhas experiências. Cada vez mais observava que minhas experiências não eram só minhas. Que a experiência era compartilhada por milhares de pessoas, também em busca de ferramentas para trabalharem diante do todo que indigna e não se explica. Mas ainda uma visualização de raio fraco, frágil diante de todo funcionamento de uma ilusão necessária para muitos. Tudo ainda era pouco.

Nasce minha segunda filha (...).

Vi que minha insuficiência crescia quando mais deveria diminuir. Que nossas experiências dialogavam-se menos e mais fragilmente coexistiam. E hoje, retorno à parte daquele momento de um raio fraco e pouco povoado, de poucas ações, embora com mais ferramentas.

Não creio nas instituições de modo romântico. Uma descrença que nesse meu presente, impulsiona a busca de maiores ferramentas comprometidas com uma ação organizada que não permita o retrocesso do desenvolvimento já conquistado.

 

Recordar, além de dar força para buscar, alimenta o espírito inquieto e comprometido com o todo. Muitos pontos são gritadores do fazer e por vezes, as vozes, e não os gritos, querem o movimento performático da calma e do reformismo. Essa perspectiva já não me contempla mais!

"O reformismo não atende a necessidade humana, apenas engana e mantem o funcionamentos distorcido da sociedade"  
   

Vozes e corpos dóceis postulam a permanente transformação que com audácia postulam ser revolucionárias. Ora, se o são, por que se limitam a tão pouco? Seriam formigas? Onde juntas, sincronicamente, tentam carregar todas as folhas do outono? Para onde estariam levando, essas formigas, parte das estações? Para o progresso de suas cavernas, ou para alimentarem suas rainhas que ao lado de seus fecundadores se alimentam fartamente para poderem escravizar seus próprios filhos? O reformismo não atende a necessidade humana, apenas engana e mantem o funcionamentos distorcido da sociedade.

Diante desse todo há uma nodal diferença... Formigas não falam, não escrevem e não possuem a capacidade de transformarem a história que não as pertencem. Outra questão nodal... Diante do funcionamento, formigas são apenas formigas... não vendem força de trabalho nem as compram... Não contribuem e nem se aposentam! Ora... Falamos de homens, de capacidade teleológica, cognitiva, intelectual. Não somos formigas, e, para que o funcionamento se transforme, para que cumpra o que postula (o que é impossível dada a própria lógica de suas engrenagens) é necessário entendermos que a última formiga deve ser executada para que o discurso/prática foque aqueles que produzem e reproduzem a História: os homens, não as formigas!

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Se nos entendermos como formigas. Não poderemos postular mais do que o carregamento das folhas para seus buracos e empestados de um fatalismo social.

Muitos preferem ilustrações como a das formiginhas (amavelmente invocados diante da fraqueza e do derrotismo do homem enformigado), onde cada uma faz a sua parte, porém, esses mesmos indivíduos sapiens esquecem, ou aderem à ilusão necessária do funcionamento, ignorando o destino trágico da adocicada formiguinha servil.

Com efeito, os formigas, encontram respaldos constante durante as quatro estações, seja entre

"Com efeito, os formigas, encontram respaldos constante durante as quatro estações, seja entre os cupim incrustados nas madeiras e paredes barrocas, onde lutam para sobreviverem"  
   

os cupim incrustados nas madeiras e paredes barrocas, onde lutam para sobreviverem, ou ainda, nas rachaduras emboloradas dos bastidores das casas onde os príncipes se colocam como representantes de todos os que fazem sua parte, sejam eles formigas ou cupins! Insisto: somos homens e mulheres!

Também se apoiam em uma literatura própria de príncipes e rainhas de outras ninhadas (sempre bem alimentados) que postulam o funcionamento das ilusões necessárias para os formigueiros de todo o planeta... E, é claro, para os cupins também!

Diante desse todo, fantasia para mim, mas real para outros, reafirmo: Somos homens, não formigas!

Somos homens criados em ninhos de formigas, visitados por cobras e outras espécies animais... Com efeito, somos homens históricos e temos a potencialidade de escrever, ler e conduzir a História! Mesmo diante da produção hegemonizada, escrevemos a História, fazemos a História, mesmo que entre as formigas, cupins e serpentes!

Somos sujeitos históricos, não somos trabalhadores formigas, nem escravos carregadores de açúcares para príncipes. E, se ainda hoje, somos estivadores açucarados, que iniciemos por cariar todas as arcadas daqueles que nos creditam o posto de formigas dóceis! Quem não pode com formiga, que não atice o formigueiro.


 Jean Paulo Pereira de Menezes é docente no curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Campus de Paranaíba. 

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