"E se nada der certo?"

Jean de Menezes
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"E se nada der certo?"

Por Jean de Menezes

A “brincadeira” de alunos secundaristas no Rio Grande do Sul (Colégio Marista, Instituição Evangélica de Novo Hamburgo e outros) não é um fenômeno regional/isolado. Causa indignação o ocorrido e o que proponho é que entendamos isso em uma perspectiva classista.

Para limpar o terreno: não se trata de uma brincadeira, mas de um posicionamento da classe dominante, ou ainda, de uma fração de classe que aspira ser dominante. Não há absolutamente nada de engraçado.

Milhares de outros alunos pelo Brasil se vestem de “coisas” que representam o fracasso, a incapacidade e a repugnância que possuem, que são educados para possuírem. Pude observar, com indignação, outras manifestações como esta em outros colégios, todos de uma certa classe média onde impera a mentalidade burguesa de ser.

Os alunos se vestem como porteiros, empregadas domésticas, seguranças, jardineiros, catadores de latinha, papelão, limpador de piscinas, babás, etc. Observem, caros leitores, trata-se de trabalhadores. De “profissões repugnantes”, que na mentalidade burguesa e pequena burguesa, representam o fracasso, o fracassado em si, a incapacidade de ser alguém de verdade na vida! Isso é muito sério.

Qual é a relação destas representações com a sociedade de classes que vivemos? Quem são estes “fracassados”, estes que “não deram certo”? A representação do fracassado, do incapaz, do repugnante é justamente o conjunto de trabalhadores que existem exatamente para manter o “sucesso” na vida desses alunos, nestes colégios, dos filhos da burguesia e da classe média decadente!

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O “seu” porteiro, “símbolo do fracasso”, daquilo que também “não deu certo na vida”, é justamente aquele que muitas vezes conhece mais a criança, o jovem (o estudante que vê nele “alguém que não deu certo”), mais do que os próprios pais!

O porteiro, que muitas vezes é o guarda da entrada da residência, o trabalhador que garante o controle da entrada de “gente que deu certo” e outras que “não deram”, é justamente o trabalhador que para além das suas funções, proporciona à administração da casa ou condomínio, a ligação entre toda a comunidade familiar ou residencial. Para isso recebe muito mal… O verdadeiro fracassado é ocultado!

É justamente graças ao trabalho da “sua” empregada doméstica que este jovem e sua família possui condições de organização do espaço doméstico (oikos) para que se faça a tarefinha de literatura inglesa. É graças a esta trabalhadora mal remunerada pelos próprios papais que a comidinha sempre esta pronta e quentinha quando este chega da escola (seja Marista, Agostiniana, Cooperativa…). É graças a esta “fracassada” que toda a família tem condições de não precisar de se preocupar em lavar as louças e irem direto para o seu momento de recreação ou mesmo para aquela siesta.

Enquanto isso, lá na cozinha… a “incapaz” fica a lavar os pratos, as panelas e a catar toda porcalhada feita na mesa do almoço, pois o jantar logo chega e tudo deve estar pronto nos mínimos detalhes para que a “família de sucesso” possa se sentar mais uma vez para que a “sua serva” promova o ritual do bem-estar de quem não quer ser fracassado da vida (!)... Mais uma vez os verdadeiros fracassados são ocultados! Poderia continuar com outros exemplos apontados, mas basta!

"O que é representado como 'fracasso' pela classe média e burguesa é justamente os trabalhadores que são fundamentais para a manutenção da sua vida de privilégios. O idiota (sempre no sentido grego) do aluno, da escola, da família e da própria classe idiotizada, não consegue observar que a sua representação do fracasso é senão a maior expressão da sua total dependência da classe trabalhadora que ela mesma oprime e explora todos os dias"

O que é representado como “fracasso” pela classe média e burguesa é justamente os trabalhadores que são fundamentais para a manutenção da sua vida de privilégios. O idiota (sempre no sentido grego) do aluno, da escola, da família e da própria classe idiotizada, não consegue observar que a sua representação do fracasso é senão a maior expressão da sua total dependência da classe trabalhadora que ela mesma oprime e explora todos os dias.

“Se nada der certo” é a variável que demonstra como o verdadeiro fracassado, o verdadeiro incapaz é o próprio representador (neste caso, os alunos travestidos), pois não é capaz de reconhecer a importância de todos estes trabalhadores para a manutenção da sua própria existência.

Sem os “fracassados”, este aluno e sua família teriam que trabalharem, teriam que valarem as próprias roupas, pratos, limpar a casa, cuidar do jardim, limpar a piscina, cuidar dos bebês, se preocuparem e fazerem a segurança, cuidar da portaria, serem o motorista… teriam que serem “fracassados”. São idiotas ao identificarem como fracassados, justamente aqueles que são capazes de tarefas titânicas! A ideologia não revela o verdadeiro fracassado, apenas coloca a realidade de cabeça para baixo, velando o verdadeiro fracasso.

São idiotas porque são incapazes de reconhecerem que qualquer situação de “sucesso” que por ventura venham ter, se dá justamente pelo trabalho de um exército de trabalhadores que “só não dão certo” justamente porque estes são tratados como os novos escravos do capitalismo! Esse fenômeno é marcante em sociedades de classes antagônicas. No capitalismo esse tipo de relação é elevada a estratosfera, fazendo que determinados seres se assemelhem mais aos parasitas do que a espécie humana.

Temos aqui mais uma vez o sinhozinho que tem como coleguinha apenas o filho do escravo, mas que para se dar bem na vida, para “dar certo”, vai pegar o chicote e fazer estalar nas costas (pelas costas) daqueles que “não deram certo”! Afinal, “se tudo não der certo”, infelizmente “teremos” que virar essas “coisas” fracassadas! Não reconhece, o idiota, que o fracassado é ele mesmo. Mal sabe o sinhozinho, que à ele, reserva a classe que faz tudo, uma cova bem cuidada.


♦ Jean Paulo Pereira de Menezes, docente no curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, campus Paranaíba. Email: fafica_95@yahoo.com.br

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