Qual o problema chamar de "Diretas já" e não mais "greve geral"?

Jean de Menezes
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Qual o problema chamar de "Diretas já" e não mais "Greve Geral"?

Por Jean de Menezes

Quero apresentar aos caros leitores algumas palavras sobre uma questão candente.

Qual o problema de chamar "Diretas já"? A princípio, nenhum. Mas se problematizarmos esta palavra de ordem, a posteriori, veremos que temos sim um problemão!

Esta é a minha tese da semana para refletirmos sobre a política e o tempo presente. O capital necessita retomar o crescimento da taxa de lucros e está fazendo tudo para que isso ocorra. Todavia, o capital é uma relação social e a classe burguesa é a detentora da regência desta relação, hegemonicamente. É a burguesia que deve orquestrar todas as austeridades para fazer a classe trabalhadora pagar pela crise.

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A burguesia ao chegar no poder, cria o Estado a sua imagem e semelhança. Quero dizer com isso que as regras que fundamentam o Estado são aquelas que priorizam a proteção da propriedade privada, não o trabalhador, o capital, não a vida (nesta até John Locke sairia perdendo!)

No que diz respeito ao processo eleitoral não é diferente. A democracia vigente é a democracia estabelecida pela classe burguesa, uma democracia dos ricos. O mesmo princípio se aplica à justiça.

Chamar “Diretas já” é exigir novas eleições com as regras da burguesia, as mesmas regras que até hoje se provou ineficaz para representar a classe trabalhadora. E é importante dar destaque, novas eleições, com as mesmas regras, regidas pelo congresso imoral e pago, literalmente, pelo capital!

Como esperar algum tipo de mudança que não seja apenas nomenclatural? Não há nenhuma possibilidade de transformação com esta palavra de ordem: “Diretas já”. Infelizmente. Chamar “Diretas já” com as mesmas regras é o mesmo que caminhar pelo matadouro rumo ao açougueiro. O problema está colocado.

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"Novas eleições diretas (eleições indiretas ficam fora até mesmo do campo da ilusão, por isso não me ocuparei dessa hipótese), apenas coloca para a burguesia a possibilidade de se articular para elencar seus políticos e investir pesado para elegê-los, como já fazem há tempos. Desta forma, uma das questões centrais para a burguesia é identificar em quem investir para gerenciar a retomada do capital, da taxa de lucros"

Novas eleições diretas (eleições indiretas ficam fora até mesmo do campo da ilusão, por isso não me ocuparei dessa hipótese), apenas coloca para a burguesia a possibilidade de se articular para elencar seus políticos e investir pesado para elegê-los, como já fazem há tempos. Desta forma, uma das questões centrais para a burguesia é identificar em quem investir para gerenciar a retomada do capital, da taxa de lucros.

É verdade que a crença na possibilidade de algo novo toma os neurônios do mais empedernido cientista político, mas a problematização não para por aqui. Temos algo concreto acontecendo, principalmente desde 2014, que são as greves de trabalhadores. Elas vem crescendo nos últimos anos, como ação direta da classe trabalhadora contra a burguesia. E isso apavora o mais dócil empresário com “preocupação social” (isso é mentira!).

A greve geral, é algo concreto e já vem sendo colocada em prática por milhares de trabalhadores. Sua repercussão é aterrorizadora para os donos do poder que buscam a todo custo fazer a classe trabalhadora pagar a crise que fez a burguesia.

Se as greves se generalizam, trata-se de um ataque direto aos interesses da burguesia em retomar a taxa de crescimento de lucros através dos planos de austeridades, como a reforma trabalhista e previdenciária.
É possível observar as grandes centrais sindicais recuarem com a palavra de ordem de “greve geral” para ocuparem-se das palavras “Diretas Já”.

Diretas já para eleger quem? Lula? Provavelmente. E é verdadeiro que muitos trabalhadores ainda desejam fazer mais uma vez a aposta no Partido dos Trabalhadores. Isso é legítimo. Mas a tese aqui é outra. Nenhum governo que se constitua com eleições “diretas”, agora, será capaz de contrapor-se aos interesses do capital, nem mesmo o PT, uma vez que este conta com a participação de parte da burguesia em um projeto de conciliação de classes.

Mesmo que tomados por um ufanismo, o fato concreto é que ao abandonar a palavra de ordem “greve geral” faz com que os planos de austeridades, já em tramitação, acelerem em pista vazia, com velocidade máxima! Se afastar da ação direta de “greve geral” possibilita a reorganização do capital no cenário político e econômico e quem perde é a classe trabalhadora, pois estaria apostando no futuro e enfraquecendo o presente que já é de lutas. A classe trabalhadora já deu demonstrações de que está disposta a caminhar para a greve geral, o dia 28 de abril e o 24 de maio são sérias provas disso. Mas para isso é necessário que todas as centrais mantenham o chamado de greve geral de 48 horas.

Subordinar esta pauta às eleições gerais, com as mesmas regras dos ricos, não me parece algo inteligente diante da tentativa de retorno à escravidão e mesmo a servidão medieval! A necessidade de novas eleições é concreta, mas a questão é que estas regras vigentes, apenas possibilitarão a tramitação dos planos de austeridades, provavelmente com algumas negociatas para garantir a eleição do mais do mesmo.

É preciso uma ousadia que poucos possuem em determinados momentos da história, mas quando tiveram, mudaram radicalmente os rumos dela.

Nosso futuro não pode ser depositado nas eleições dos ricos e corruptos pagos pela burguesia!
É necessário gritar fora Temer, fora o capital!

Greve geral, Já!


 

 ♦ Jean Paulo Pereira de Menezes é graduado em História, mestre em História e doutor em Ciências Sociais

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